Delegação indígena do Sul do Amazonas faz intercâmbio em Roraima

Coordenado pelo IEB, o intercâmbio reuniu, de 22 a 25 de outubro, uma delegação de 21 indígenas do Sul do Amazonas para conhecer a atuação e a gestão do Conselho Indígena de Roraima (CIR)

O intercâmbio, coordenado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), faz parte de um projeto chamado “Nossa Terra”, iniciativa apoiada pela USAID. Essa iniciativa é uma implementação da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial (PNGATI), por meio de sete associações indígenas parceiras que atuam com povos indígenas do Sul do Amazonas: OPIAJ, APIAJBAM, FOCIMP, APIJ, APITIPRE, APITEM, OPIPAM.

O projeto construído em parceria com o IEB e Operação Amazônia Nativa (OPAN), tem como objetivo o fortalecimento da implementação da PNGATI, da gestão nas associações. O CIR foi escolhida pelas próprias associações indígenas, como uma organização indígena que tem uma gestão dialogada e firmada com as regiões de base, conforme informou Sara Gaia, assessora do Programa Povos Indígenas do IEB.

Para a assessora, a referência de conhecer o CIR, trocar experiência de gestão, fortalecimento com as bases, gestão ambiental e territorial, partiu das próprias associações indígenas e o resultado não foi diferente do que já previam, pelo contrário, superou expectativas por conhecer o histórico do CIR, a luta, principalmente, pela demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, que também é uma referência nacional e internacional.

Gaia destacou que a proximidade, autonomia construída com as bases, foi um dos pontos marcantes do intercâmbio. “Essa proximidade, autonomia que vocês construíram com as bases, ficou muito marcado para as associações e vamos levar como experiência de estratégia para as associações”, destacou Sara, afirmando que tanto para o IEB, OPAN e as associações, o intercâmbio superou expectativas.

O CIR, ao longo dos anos vem investindo em um seguimento imprescindível para os povos indígenas na gestão territorial e ambiental das terras indígenas, que são os Agentes Territorial e Ambiental Indígena (ATAI), hoje, somando 240 agentes por diversas regiões no estado de Roraima. Essa formação, também está sendo feita nas associações do Sul do Amazonas, segundo a assessora do IEB.

Sara também destacou que o intercâmbio veio para fortalecer o movimento indígena em um momento delicado e complicado para o país, tanto pela instabilidade política quanto pelos desafios que virão, independente, dos resultados das eleições, porque os ataques aos direitos indígenas sempre ocorreram. Então, o momento é de unir e fortalecer o movimento indígena.

Para o indígena Nilcelio Diahui, da região do Alto Madeira, município de Umaitá, coordenador executivo da Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira (OPIAM), esclareceu que a definição de vir para Roraima foi a implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) junto às comunidades indígena da terra indígena Raposa Serra do Sol, além do modelo de gestão da organização na execução das atividades, dos projetos executados na Raposa Serra do Sol e outras regiões do Estado.

“Estamos levando várias experiências, de como o CIR absorve o planejamento de gestão das comunidades indígenas, que são experiências boas onde tem o envolvimento da comunidade, das mulheres, jovens, os próprios agentes territoriais, tuxauas e a outra, é a experiência das mulheres, do envolvimento na gestão do CIR, além de todo o conjunto da Raposa Serra do Sol consegue trabalhar junto com a gestão da organização”, destacou Nilcelio.

Maria de Lurdes, do povo Parintintim, da terra indígena Ipixuna, representando as mulheres indígenas do Sul do Amazonas, contou que as mulheres sempre estiveram na luta do movimento indígena. Lurdes, que já vem de uma geração de lideranças indígenas que contribuem com as atividades nas comunidades, destacou que a principal experiência que levará a sua região é a forma de organização.

“É uma forma de a gente se organizar, porque nós ainda estamos começando a caminhar, e isso é uma forma de nos fortalecer, não só as mulheres, mas todos participando e construindo as atividades”, contou Maria, ao relembrar um pouco do trabalho da medicina tradicional e ocidental, antes, bastante praticado nas aldeias, mas que por um tempo parou porque muitos jovens, mulheres, foram buscar formação e hoje, retornaram para dar continuidade ao trabalho.

“Agora queremos juntar as forças que vocês de Roraima deixaram para nós e dar continuidade ao nosso trabalho. Estou muito feliz de estar participando desse intercâmbio, porque não aprendi tudo na faculdade, mas estou aprendendo com vocês”, afirmou Maria, jovem mulher, atuante no movimento de mulheres indígena da região Sul do Amazonas.

No dia 22, os indígenas foram recebidos na sede do CIR, em Boa Vista, e em seguida, no dia 23, no Centro Regional do Lago Caracaranã, região da Raposa, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, local, onde também foi realizado o Encontro de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira em Roraima com o tema “as transformações do tempo e a medicina tradicional”, no período de 22 a 24.

Houve uma troca de experiência e informações com os departamentos de gestão ambiental e territorial, secretaria do movimento de mulheres indígenas, comunicação, jurídico e a própria coordenação regional da Raposa, umas das regiões base do CIR.

O último dia de visita, 24, ocorreu no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, localizado na comunidade indígena Barro, região do Surumu, com a presença dos estudantes indígenas do Centro, coordenação do Centro e regional. A delegação foi recepcionada pela pajé Mariana. 

Na ocasião, a delegação indígena pôde também ser acolhida pela advogada indígena e agora, primeira indígena, mulher, deputada Federal eleita, Joenia Wapichana, uma forte inspiração de luta, conquista e de resistência.







Comentários