Após organizar a base da restauração com sementes nativas, comunidades avançam para o uso da terra com sistemas agroflorestais e foco em produção sem desmatamento
Porto de Moz (PA) — Entre os dias 27 e 30 de abril de 2026, cerca de 40 moradores da Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre participaram do terceiro círculo do curso Formar Gênero e Restauração, desta vez com foco em restauração socioprodutiva e implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs). A formação foi realizada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), no âmbito do projeto “Sempre Vivas, Sempre Verdes”.
O projeto aposta na agrofloresta como alternativa à expansão de roçados e ao uso do fogo, propondo uma mudança de lógica: sair do modelo de uso itinerante da terra — baseado na abertura constante de novas roças — para sistemas permanentes, diversificados e com manejo do solo.
Essa transição dialoga diretamente com um dos principais desafios das políticas públicas voltadas à Amazônia hoje: conciliar restauração ambiental com produção e geração de renda nos territórios.
Mudar a forma de produzir
Para muitas famílias, a mudança começa pelo abandono de práticas históricas. “Antes a gente fazia queimada no roçado e, quando a terra cansava, precisava abrir outra área. Aí a gente ia se afastando cada vez mais”, relata Deulizete Santos, moradora da Resex.
Com a formação, ela vê outro caminho possível. “Hoje eu pretendo fazer diferente. É uma forma de plantio sem queimada, que não prejudica o solo. Aquela terra vai continuar produtiva. Eu acredito que vai ser eficaz para nós”, afirma Deulizete.
Nos Sistemas Agroflorestais (SAFs), culturas agrícolas e espécies florestais são combinadas de forma planejada, respeitando o tempo de crescimento e as funções ecológicas de cada planta.
Para os participantes, isso reduz incertezas. “Antes a gente plantava sem saber se ia dar certo. Agora, com o manejo e a adubação correta, a gente planta com mais segurança de que vai colher”, afirma Susyane Andrade.
Na visão de Luiza Froz, a principal diferença está no acompanhamento técnico. “Antes eu plantava, mas sem orientação. Algumas espécies davam certo, outras não. Agora a gente tem conhecimento de como plantar, de como manejar, sem usar agrotóxico. Isso fortalece a produção e traz uma expectativa melhor de renda para a família”, pontua.

Produzir sem expandir
Durante a formação, os participantes percorreram conteúdos que vão da base ecológica da restauração — como sucessão florestal, agroecologia e conservação do solo — até a aplicação prática em campo. O processo incluiu desde o uso de implementos agrícolas até a elaboração de croquis para planejamento das áreas produtivas. Também integrou saberes locais ao conhecimento técnico, com troca de experiências entre os participantes.
O uso do fogo segue presente na rotina das comunidades, mas também tem sido alvo de maior atenção por parte da gestão da unidade. “O uso do fogo faz parte da cultura das comunidades e é uma ferramenta importante, mas precisa ser utilizado de forma controlada para evitar incêndios florestais. Hoje, com as brigadas, a gente consegue dar respostas mais rápidas aos focos de calor no território”, explica Kássia Gomes – responsável pela brigada de incêndios da Resex Verde para Sempre.
Segundo José Ademir dos Santos, um dos facilitadores do IEB, o foco é reduzir a pressão sobre novas áreas. “Estamos construindo com a comunidade uma forma de produção em que a família não precise abrir novas áreas todo ano. Com os SAFs, é possível produzir de forma diversificada na mesma área, manejando o solo e enriquecendo o sistema ao longo do tempo”, explica.

A proposta combina plantas adubadeiras, espécies agrícolas e árvores nativas, criando sistemas mais resilientes e produtivos. “É uma forma de produzir alimento, preservar o que já existe e ainda garantir outras espécies dentro do sistema”, completa José Ademir.
A aposta em sistemas integrados como os SAFs também aparece em políticas nacionais, como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê a restauração de 12 milhões de hectares até 2030, e em iniciativas voltadas à bioeconomia amazônica.
Na prática, no entanto, a implementação dessas metas ainda depende de soluções aplicáveis nos territórios — especialmente em áreas protegidas onde produção e conservação precisam caminhar juntas. A adoção de SAFs ainda esbarra em desafios recorrentes, como assistência técnica irregular, acesso limitado a mercados e dificuldades de financiamento.
Na Resex Verde para Sempre, experiências como o Formar Gênero e Restauração testam, na prática, caminhos para reduzir a abertura de novas áreas e recuperar solos já utilizados — ainda que em escala limitada diante da pressão sobre o território.
Se no círculo anterior o foco esteve na base da restauração — a organização de sementes nativas — agora o desafio é outro: produzir sem seguir avançando sobre a floresta.
Sobre a formação e o projeto
O Formar Gênero e Restauração é um curso realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), sob a coordenação de um comitê pedagógico composto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IDEFLOR-Bio); Instituto Floresta Tropical Johan Zweede (IFT); Comitê de Desenvolvimento Sustentável (CDS); Associação dos Pescadores Artesanais de Porto de Moz (Aspar); Cooperativa Mista Agroextrativista Floresta Sempre Viva Três Rios (Coomar); e Associação de Mulheres do Campo e Cidade (Emanuela).
A iniciativa integra o projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes, que busca restaurar 200 hectares de florestas nativas na reserva, aliando conservação ambiental, geração de renda e inclusão socioprodutiva de mulheres.
O projeto faz parte do programa Floresta Viva, com recursos do BNDES, Grupo Energisa, Fundo Vale, Norte Energia e do banco alemão KfW, e gestão do FUNBIO.


