Banana, macaxeira, abacaxi, mamão, limão, chicória, couve, ovos, farinha, abóbora e outros alimentos cultivados em roças, quintais e Sistemas Agroflorestais (SAFs) agora fazem parte da merenda escolar de estudantes da Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, em Porto de Moz (PA). Em junho, um grupo de mulheres participantes do projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes realizou a primeira entrega ao Programa de Aquisição de Alimentos voltado para Unidades de Conservação (PAA UC), marcando um avanço na comercialização da produção familiar dentro do território.
As entregas foram feitas diretamente para escolas das próprias comunidades, fechando um ciclo em que o cultivo local retorna à mesa de crianças e jovens da Resex. A iniciativa também gera renda e valoriza os produtos das agricultoras e extrativistas da região.
Para Elisia Alves, moradora da comunidade Ynumbi, a experiência ressignificou o trabalho diário na roça. “Antes a nossa rotina era só plantar e colher para nós mesmos. Hoje nós temos que plantar para levar alimento para a mesa das crianças na escola. Isso me deixa muito feliz”, conta.
Na primeira remessa, Elisia entregou polpa de cupuaçu, limão, pimenta-doce, couve, chicória, ovos, abacaxi, mamão, banana e macaxeira. Segundo ela, a possibilidade de comercializar a produção trouxe uma mudança importante para famílias que, muitas vezes, não tinham para quem vender. “A gente foi começando a colher e não tinha para onde vender. Hoje tem uma saída por meio do programa. A nossa história hoje é diferente da rotina de antes”, afirma.

O mesmo entusiasmo é compartilhado por Delma Braga, também da comunidade Ynumbi. Moradora da Resex há 48 anos, ela participou pela primeira vez de uma venda para uma política pública. “Eu moro aqui há 48 anos e pela primeira vez vendi. Gostei muito. Agradeço pelo apoio, que está nos incentivando e mostrando que os nossos produtos têm valor“, relata Delma.
Na entrega para a Escola Jarbas Passarinho, na comunidade São Francisco, ela forneceu farinha, limão, maxixe, lima, pepino, chicória, pimentinha, ovos, galinha caipira e abóbora. Agora, já planeja os próximos ciclos. “Em agosto, espero, em Deus, entregar mais”, diz.
Na unidade de ensino que recebeu os alimentos, os produtos frescos passaram a complementar a merenda dos estudantes com itens cultivados no próprio território. “O principal impacto é que eles estão tendo uma merenda de muita qualidade. Principalmente as frutas, que eles adoraram. Agora eles comem banana e abacaxi antes de entrar na sala de aula. Estão gostando muito“, conta o professor Ivandy Evangelista.
Da semente à comercialização
A primeira entrega ao PAA é mais um capítulo da trajetória construída pelos participantes do projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes, desenvolvido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) na Resex Verde para Sempre. A iniciativa integra o programa Floresta Viva, realizado com recursos do BNDES, Grupo Energisa, Fundo Vale, Norte Energia e do banco alemão KfW, com gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO).
Desde 2025, mulheres de diferentes comunidades participam de formações sobre restauração ecológica, coleta e beneficiamento de sementes nativas, produção de mudas e implantação de SAFs. As atividades visam fortalecer a autonomia das participantes, ampliar a diversidade produtiva e contribuir para a conservação da floresta em um território historicamente pressionado pelo desmatamento.
Nos últimos meses, as formações evoluíram para a implantação dos SAFs, que combinam espécies florestais e agrícolas com benefícios ambientais e produtivos. Muitas das espécies de ciclo curto cultivadas nestes sistemas já abastecem a alimentação das famílias e a comercialização.
A preparação para acessar o PAA também fez parte do percurso. Durante o último círculo formativo do curso Formar Gênero e Restauração, as participantes discutiram boas práticas de manipulação de alimentos, qualidade dos produtos e cuidados para a venda, em um momento em que as comunidades já se organizavam para as primeiras entregas.
Para o IEB, essa primeira entrega ao PAA UC expressa uma estratégia territorial que vai além da produção de alimentos. Conecta restauração produtiva, segurança e soberania alimentar, geração de renda e fortalecimento da governança comunitária na Resex Verde para Sempre. Esse resultado, segundo a instituição, só é possível porque vem sendo construído de forma coletiva, em parceria com as organizações comunitárias, o ICMBio e as mulheres que estão à frente desses processos nos territórios.
“Quando os alimentos cultivados nos SAFs chegam às escolas das próprias comunidades, e quando as mulheres passam a se organizar coletivamente para produzir, beneficiar e comercializar — inclusive a partir das cozinhas agroextrativistas —, estamos falando de um modelo de desenvolvimento territorial enraizado na floresta, na autonomia das mulheres, na valorização dos modos de vida das populações tradicionais e na força das parcerias locais“, afirma Katiuscia Miranda, coordenadora institucional do IEB.
Organização para acessar a política pública
A participação das famílias no PAA UC foi fruto de mobilização e planejamento iniciados ainda em janeiro, com reuniões, orientações e preparação logística. Segundo Marcela Aranha, chefe da Resex Verde para Sempre, o trabalho de organização junto às comunidades foi fundamental para garantir segurança às participantes. “A gente já vinha se planejando para essa primeira entrega. As famílias estavam ansiosas e já tinham produção para entregar. Foi um processo importante para que elas se sentissem seguras para participar”, explica.
O processo de organização das famílias para acessar a política pública também conta com o apoio de diferentes instituições. Além do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do IEB e dos órgãos federais envolvidos no PAA UC, a iniciativa envolve o projeto Bioeconomia para Florestas, que integra a Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável. Implementado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, pelo ICMBio e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o projeto conta com recursos do Ministério Federal da Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha. Em âmbito local, organizações como o Laboratório de Estudos das Dinâmicas Territoriais na Amazônia (LEDTAM/UFPA) e a Interelos atuam junto às comunidades, fortalecendo as ações e apoiando a implementação das atividades.
Atualmente, 89 famílias de 17 comunidades da Resex integram a iniciativa. A expectativa é que o sucesso desta etapa estimule a adesão de mais produtores nos próximos editais.
Alimentos da floresta para as próprias comunidades
Criado para ampliar o acesso de povos e comunidades tradicionais aos mercados institucionais e fortalecer a segurança alimentar nos territórios, o PAA Unidade de Conservação permite que alimentos produzidos dentro das reservas sejam destinados às próprias comunidades, abastecendo escolas, postos de saúde e outros equipamentos públicos.
De acordo com Márcia Muchagata, gerente de projeto da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan/MDS), a iniciativa também valoriza a sociobiodiversidade e fortalece a inserção dos produtores em novos mercados.
“O principal é que estamos tendo a possibilidade de entregar os alimentos das unidades de conservação para as próprias unidades de conservação. Isso ajuda a valorizar os produtos locais e oferecer alimentos de qualidade para a população”, destaca.
A experiência da Resex Verde para Sempre ocorre no contexto de implementação do PAA UC na Amazônia. O lançamento oficial da iniciativa na região Norte foi realizado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Belém (PA), no dia 19 de junho.

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