Penúltimo círculo formativo abordou políticas públicas, artesanato e comunicação
Ouvir as sementes, respirar, se relacionar com o que se produz, compreender a palavra sociobiodiversidade, reconhecer a potência do alimento colhido pelas próprias mãos, debater políticas públicas, utilizar sementes como matéria-prima na criação de peças de artesanatos. Essas foram algumas das experiências vividas durante o IV Círculo do Formar Gênero e Restauração, dedicado ao tema “Boas práticas para uso de produtos da sociobiodiversidade e empreendedorismo”, realizado entre os dias 7 e 10 de junho de 2026, em Porto de Moz (PA).
O encontro reuniu 40 cursistas da Reserva Extrativista Verde Para Sempre, prioritariamente mulheres, sendo 36 para quatro homens. Oriundos de 13 comunidades atravessadas pelos rios Guajará, Jaurucu e Acaraí. Mais do que uma etapa formativa, o círculo se transformou em um espaço de encontro entre diferentes territórios amazônicos, aproximando experiências do Xingu, do Marajó e de Belém em torno de um objetivo comum: fortalecer a autonomia econômica das mulheres a partir da sociobiodiversidade.
A metodologia foi marcada pela troca de experiências, e ganhou destaque com intercâmbio entre lideranças da Cooperativa da Agricultura Familiar Agroextrativista Regional (CAFAR), de Breves, no arquipélago do Marajó, e as mulheres da Resex Verdes Para Sempre – Porto de Moz/PA. As cooperadas da Cafar, Edineide Barbosa Araújo e Irley Araújo compartilharam aprendizados acumulados ao longo da trajetória da organização no acesso a políticas públicas dos mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Para Maria Creusa da Gama Ribeiro, beneficiária da Reserva Extrativista Verde Para Sempre, um dos principais aprendizados do encontro foi perceber que o acesso às políticas públicas passa pela organização comunitária, mas não se limita a ela. “Eu já conhecia um pouco dessa política, mas não tinha noção de como elaborar propostas individuais e coletivas. Foi um intercâmbio muito rico porque não aprendemos apenas a fazer projetos. Aprendemos que a produção não serve somente para acessar políticas públicas, mas também para vender em supermercados, feiras e para outros consumidores”, relata.
Segundo ela, a troca com as cooperadas da CAFAR ganhou ainda mais significado por acontecer entre mulheres que compartilham desafios semelhantes em seus territórios. “O melhor foi aprender com informações trazidas de companheiras para companheiras. Foi uma experiência de intercâmbio entre o Xingu e o Marajó que nos impulsiona na luta. Ouvir a história de resistência das mulheres da CAFAR foi muito gratificante”, finaliza.
A escolha da CAFAR para essa troca não aconteceu por acaso. Fundada em 2022, a cooperativa surgiu para fortalecer a agricultura familiar e o agroextrativismo na região de Breves, ampliando oportunidades de comercialização, acesso a políticas públicas e geração de renda para agricultores familiares. Nesse percurso, o IEB esteve entre as instituições parceiras que contribuíram para a formação dos cooperados e para o fortalecimento organizacional da cooperativa.
A presença das mulheres marajoaras integra uma estratégia formativa adotada pelo IEB, inspirada na metodologia Campesino a Campesino, que valoriza o conhecimento construído nos territórios e compartilhado entre pessoas que vivenciam desafios semelhantes. A proposta parte do princípio de que agricultores, extrativistas e povos da floresta também são produtores de conhecimento e que suas experiências têm potencial para inspirar soluções concretas em outros contextos.
Foi exatamente isso que aconteceu ao longo dos quatro dias de programação. Enquanto as cooperadas da CAFAR apresentavam sua experiência no fornecimento de alimentos para programas governamentais, as participantes da Resex Verde Para Sempre compartilhavam dúvidas, desafios e expectativas relacionadas à organização da produção e à comercialização dos alimentos cultivados em suas comunidades.
Para Deborah Pires, analista socioambiental do IEB, o intercâmbio ocupa um papel central dentro da proposta do Formar.“A CAFAR já passou por um processo muito semelhante ao que esse território está vivendo agora. Quando elas compartilham suas experiências, mostram que é possível acessar esses mercados e ajudar outras mulheres a enxergar caminhos para fortalecer a produção, gerar renda e ampliar a participação nas políticas públicas.”
Segundo Deborah, os aprendizados construídos nesses encontros vão além dos aspectos técnicos.“Não é apenas uma troca de conhecimento. É uma troca de emoções, de inseguranças, de desafios e de soluções. As mulheres daqui escutam histórias de quem já passou pelos mesmos medos e incertezas. Isso fortalece e encoraja.”
A experiência também teve um significado especial para a própria CAFAR. Para Edineide Barbosa Araújo, cooperada da organização e secretária-geral do Sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras rurais de Breves, o intercâmbio reforçou uma parceria construída ao longo dos anos.“A relação da CAFAR com o IEB é muito especial. Posso dizer que é uma relação familiar. Quando a CAFAR conheceu o IEB, estávamos em um momento de formação e construção da cooperativa. O IEB foi um dos parceiros mais importantes para o nosso crescimento dentro e fora do município, oferecendo diversas formações para os cooperados.”
Para Marcela Aranha, chefe da Resex Verde Para Sempre, o intercâmbio ajudou a diminuir a insegurança das famílias em relação ao acesso às políticas públicas.“Muitas famílias tinham receio de participar porque nunca haviam acessado programas como o PAA. Ao conhecer experiências de outros territórios, elas perceberam que é possível entregar o que já produzem na unidade de conservação, seguindo boas práticas e garantindo alimentos de qualidade”, afirma.
A gestora também destaca os resultados da parceria entre ICMBio e IEB. “Essa formação abriu novas oportunidades para as comunidades e fortaleceu o desenvolvimento de outras iniciativas dentro da Resex. Quem ganha com isso são as famílias e as comunidades”, completa.
Das sementes para a restauração e para a geração de renda
Se os debates sobre alimentação aproximaram experiências do Marajó e do Xingu, as sementes foram o ponto de partida para outra reflexão: como transformar elementos da floresta em novas oportunidades de renda.
A oficina de artesanato conduzida pela designer e artesã Nilma Arrais, de Belém, apresentou possibilidades de uso para sementes que não são aptas para a produção de mudas, sendo mais um mercado que pode ser explorado das sementes e cascalhos coletados na floresta pelas comunitárias
Antes da confecção das peças, os participantes foram convidados a um exercício de contemplação e conexão com as sementes. A proposta era desacelerar, observar e permitir que a criatividade surgisse da própria relação com a floresta.“É uma meditação para que elas possam relaxar, se conectar e buscar imagens dentro delas mesmas. A ideia é que as peças surjam da criatividade de cada pessoa e não apenas da reprodução de um modelo pronto”, explica Nilma.
Mais do que ensinar técnicas, a oficina buscou ampliar o olhar sobre o potencial dos recursos já presentes no território.“Queremos mostrar que a semente não serve apenas para plantar ou se decompor na natureza. Com os resíduos que a floresta oferece, também é possível criar produtos com valor agregado”, afirma a artesã.
Para muitas participantes, a atividade abriu novas possibilidades. Moradora da comunidade Aruruzinho do rio Guajará, Raquel Braga conta que nunca havia trabalhado com artesanato utilizando sementes.“A gente que mora no interior muitas vezes não dá importância para essas coisas. Agora eu percebo o valor que elas têm. Antes essas sementes eram descartadas. Hoje eu vejo que elas podem gerar renda e se transformar em produtos.”
A mesma percepção foi compartilhada por Delma Martins Braga, da comunidade São Benedito do Ynumbi do rio Jaurucu, que participou pela primeira vez de uma oficina de artesanato.“Estou gostando muito do que estou aprendendo. Além de aprender algo novo, eu posso levar esse conhecimento para os meus filhos e para outras pessoas da minha comunidade.”
Já para Naiara Ribeiro da Costa, da comunidade Por ti meu Deus do rio Acaraí, os aprendizados ultrapassaram o artesanato.“Aprendi sobre artesanato, mas também aprendi muito sobre os alimentos e sobre a forma de armazenar a produção. Foi uma experiência excelente.”
Mulheres, restauração e segurança alimentar
Ao longo dos quatro dias de programação, as discussões reforçaram que a restauração florestal está diretamente relacionada à segurança alimentar, à geração de renda e ao fortalecimento do protagonismo feminino nos territórios.
As participantes debateram formas de ampliar o acesso aos mercados institucionais, compreender os editais públicos e fortalecer a organização comunitária para fornecer alimentos produzidos localmente para escolas e outros programas governamentais.
“O Formar abre caminhos para que essas mulheres pensem a produção, a comercialização e o papel que ocupam dentro dos seus territórios. Não podemos falar de restauração sem falar de produção de alimentos, de geração de renda e de segurança alimentar”, resume Deborah Pires.
O próximo e último círculo formativo será dedicado à organização comunitária e mercados institucionais e culminará na apresentação dos resultados construídos ao longo da formação, além da diplomação das participantes.
Até lá, ficam os aprendizados deixados pelo encontro: quando mulheres compartilham experiências, conectam territórios e constroem soluções coletivamente, a sociobiodiversidade deixa de ser apenas um conceito e passa a ganhar forma no cotidiano das comunidades amazônicas.


