Porto de Moz (PA) — Enquanto a Amazônia perdeu 5.796 km² de floresta entre agosto de 2024 e julho de 2025 — área equivalente a quase quatro vezes a cidade de Nova York, segundo o Inpe —, comunidades de uma das maiores reservas extrativistas do país decidiram reagir a partir da base da cadeia da restauração: a semente.
Na Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, que ocupa cerca de 1,29 milhão de hectares (quase 13 mil km²) no oeste do Pará, cerca de 50 moradores de 13 comunidades participaram, entre 4 e 8 de fevereiro, do segundo círculo do “Formar Gênero e Restauração”.
A iniciativa busca estruturar uma rede comunitária de coleta de sementes e produção de mudas nativas, com protagonismo feminino, como estratégia de enfrentamento ao desmatamento e à crise climática. A ação integra o projeto “Sempre Vivas, Sempre Verdes”, realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), no âmbito do Floresta Viva.
A aposta é clara: se o Brasil assumiu metas ambiciosas de restaurar milhões de hectares até 2030, a resposta precisa começar nos territórios — e com quem vive da floresta.

A restauração começa antes da muda
Durante cinco dias, os participantes trabalharam identificação de árvores matrizes, coleta por rapel, beneficiamento, quebra de dormência e produção de mudas. A formação foi conduzida pelo professor Seidel Santos, da Universidade do Estado do Pará (Uepa), e pelo técnico florestal Roberto Miranda.
“O Pará precisa expandir suas áreas de coleta de sementes, e essas áreas precisam ser protegidas. O Xingu é um centro de endemismo — há espécies que só existem aqui. Criar um programa de coleta é fortalecer a conservação”, afirma Santos.

O desafio é estrutural. O Brasil assumiu compromissos internacionais de restaurar milhões de hectares até 2030, mas esbarra em um gargalo pouco visível fora do setor técnico: a oferta insuficiente de sementes e mudas de espécies nativas. Sem cadeia organizada de coleta, armazenamento e rastreabilidade genética, as metas permanecem no papel.
Mudança do clima já afeta a floresta — e a renda
A percepção da crise climática não é abstrata para quem vive na Resex. Moradores relatam queda na produção de castanha, alterações no calendário das chuvas e redução de frutos antes abundantes.
“Antes o inverno era inverno mesmo. Agora a gente vive praticamente um verão prolongado. A produção da castanha caiu muito”, relata Maria Creusa Ribeiro, moradora da reserva há 56 anos e liderança na comunidade Por Ti Meu Deus. Para ela, restaurar é também adaptar. “A gente não pensa só em extrair. A gente pensa em devolver para a floresta”.
Protagonismo feminino na base da cadeia
Um dos eixos centrais da formação é a participação das mulheres na cadeia produtiva da restauração — especialmente em etapas como beneficiamento e seleção de sementes, que exigem cuidado técnico e controle de qualidade.
“A formação busca que as comunidades façam a gestão do próprio território na área de restauração, diversifiquem produtos florestais e desenvolvam empreendimentos rurais. A cadeia da restauração vai muito além do plantio”, explica Deborah Pires, analista socioambiental do IEB.
Na prática, isso significa criar uma nova frente de geração de renda dentro da unidade de conservação, aliando conservação ambiental e fortalecimento econômico local — uma combinação ainda rara no debate polarizado entre preservação e produção.

Autonomia dentro da unidade de conservação
Dados recentes do PRODES indicam queda no desmatamento na Amazônia como um todo, mas áreas específicas continuam sob pressão. Segundo monitoramentos do Inpe, a Resex Verde para Sempre mantém focos recorrentes de desmate ilegal, especialmente ao longo do rio Xingu e nas áreas próximas à Transamazônica.
Para a gestora da unidade, Ranara Silva, iniciativas como o Formar Gênero e Restauração fortalecem a própria lógica das reservas extrativistas. “Ver os moradores produzindo as próprias sementes e mudas é um processo de autonomia e protagonismo. Eles conseguem gerar renda e, ao mesmo tempo, restaurar o território”, afirma.
A trajetória da Verde para Sempre ajuda a explicar esse movimento. Desde os anos 2000, a reserva consolidou experiências de manejo florestal comunitário conduzidos por associações locais. O modelo buscou conciliar geração de renda e conservação da floresta, apesar de desafios de mercado e fiscalização ao longo do tempo, estruturou capacidades técnicas e organizativas dentro do território.
A aposta na cadeia de sementes dialoga com essa experiência acumulada: amplia a diversificação produtiva e reforça a gestão comunitária como modelo sustentável de geração de renda no território.
Da política pública à floresta real
O Brasil integra a Década da Restauração, lançada pela ONU, e prevê recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. No papel, as metas são ambiciosas. No chão da floresta, elas dependem de quem coleta, seleciona e produz as sementes.
A cadeia de sementes nativas na Amazônia ainda é fragmentada, com pouca assistência técnica e baixo investimento contínuo. Sem organização territorial e qualificação local, a expansão da restauração tende a depender de viveiros concentrados em poucos polos.
Na Verde para Sempre, a proposta inverte a lógica: descentralizar a produção, fortalecer comunidades e criar um circuito de restauração enraizado no território.
“Antes a gente plantava do conhecimento da cultura dos antigos: derrubava, roçava, queimava. Agora a visão é mais ampla. Com a técnica que estou aprendendo no Formar, eu acredito que tudo é possível. A gente planta sabendo que aquela técnica vai dar produção, vai nascer, vai florir, vai florescer”, resume Ziza Félix, da comunidade Itapéua.
Em um bioma que ainda perde milhares de quilômetros quadrados por ano, a resposta pode estar menos nas promessas e mais nas sementes que começam a ser organizadas por quem vive no território.
–
O Formar Gênero e Restauração é um curso realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), sob a coordenação de um comitê pedagógico composto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IDEFLOR-Bio); Instituto Floresta Tropical Johan Zweede (IFT); Comitê de Desenvolvimento Sustentável (CDS); Associação dos Pescadores Artesanais de Porto de Moz (Aspar); Cooperativa Mista Agroextrativista Floresta Sempre Viva Três Rios (Coomar) e Associação de Mulheres do Campo e Cidade (Emanuela).
A iniciativa integra o projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes, que faz parte do Floresta Viva, com recursos do BNDES, Energisa, Fundo Vale, Norte Energia e do banco alemão KfW. O FUNBIO é o gestor operacional.
–
Texto e fotos: Juliane Frazão/IEB


