Seminário “Territórios de Vida” apresenta diagnóstico e recomendações sobre a bioeconomia no Amapá e anuncia novo projeto para fortalecer agricultura familiar e alimentação escolar

O evento reuniu associações, cooperativas, universidades, órgãos públicos e movimentos sociais para dialogar sobre políticas de compras institucionais, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável no estado.

 

O Seminário Territórios de Vida, realizado em 9 de dezembro, em Macapá, marcou a apresentação pública do Resumo Executivo do Projeto Enraizando Amapá e o anúncio oficial do Caminhos de Sabores e Saberes, ambos financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O encontro reuniu agricultores familiares, lideranças comunitárias, pesquisadores, gestores públicos e organizações da sociedade civil para debater caminhos para a segurança alimentar, a bioeconomia da floresta e o fortalecimento dos mercados institucionais.

Insegurança alimentar e a necessidade de fortalecer políticas públicas

A Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), Marcia Muchagata, destacou que o Amapá é hoje o segundo estado brasileiro com maior índice de insegurança alimentar grave ou moderada. A representante do ministério chamou atenção para a contradição entre a alta biodiversidade regional e a dificuldade de acesso à alimentação de qualidade:

“Vivemos em um território abundante em rios e florestas, mas com famílias enfrentando insegurança alimentar. Fortalecer a agricultura familiar e a alimentação escolar é fundamental para reverter esse cenário”, afirmou.

Segundo o MDS, a chamada pública Amazônia na Escola, articulada entre BNDES, MDS, Ministério do Desenvolvimento Agrário e FNDE, busca aproximar produção familiar e políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Trajetória do IEB no Amapá e a construção dos projetos

Representando o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), o coordenador geral, Manuel Amaral, relembrou os 15 anos de atuação da organização no estado, inicialmente com foco na educação do campo e apoio às escolas famílias agrícolas. Segundo ele, esse acúmulo permitiu ao IEB construir ações mais amplas voltadas à bioeconomia, aos assentamentos e ao fortalecimento da agricultura familiar.

“Os resultados que buscamos não são apenas técnicos ou numéricos. O objetivo é garantir os assentamentos em pé — homens e mulheres construindo suas vidas, com mesa farta e perspectivas de futuro nos territórios”, afirmou.

Manuel explicou que o recém-anunciado Caminhos de Sabores e Saberes reunirá 17 organizações — incluindo associações da agricultura familiar, uma organização quilombola e uma indígena — em municípios como Calçoene, Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Itaúbal, Macapá, Santana e Mazagão. O projeto buscará articular produção local, alimentação escolar e políticas públicas de forma integrada.

“São cerca de R$ 22 milhões investidos. O desafio agora é planejar com associações, prefeituras e escolas como esse recurso pode transformar a relação entre agricultura familiar e alimentação escolar”, completou.

BNDES destaca estratégia de longo prazo para a agricultura familiar na Amazônia

O representante do BNDES, Cláudio Barbosa, situou o Enraizando Amapá e o Caminhos de Sabores e Saberes dentro de uma agenda mais ampla de fortalecimento dos territórios amazônicos. Ele ressaltou o compromisso do banco com projetos que conectem produção familiar, conservação ambiental e políticas de compras públicas.

“Queremos que iniciativas como as desenvolvidas no Amapá deixem de ser ações isoladas e se tornem referências para políticas permanentes. Quando a produção familiar encontra demanda garantida na alimentação escolar e na Conab, ganha escala, renda e estabilidade”, explicou.

Cláudio também mencionou a assinatura recente do contrato Comunidades e Florestas Amazônia Viva, no valor de R$ 96 milhões, que destinará recursos a projetos da agricultura familiar nos estados amazônicos.

Resumo Executivo apresenta potencial da bioeconomia e desafios estruturais

A apresentação do Resumo Executivo foi conduzida pelo professor Sérgio Paganini, responsável pela coordenação técnica dos estudos. O documento reúne análises sobre cadeias da bioeconomia — como açaí, mandioca, cacau e cupuaçu — e destaca o crescimento expressivo da agricultura familiar no Amapá nos últimos anos.

Entre os pontos críticos identificados estão:

baixa disponibilidade de crédito rural para agricultores familiares;

desafios de infraestrutura logística e armazenamento;

necessidade de ampliar e qualificar a assistência técnica;

importância de diversificar a produção e fortalecer cadeias de valor.

Para Paganini, o fortalecimento dos mercados institucionais é um dos instrumentos mais eficientes para dinamizar o agroextrativismo no estado.

Uma construção coletiva para fortalecer os territórios

Ao fim do seminário, ficou evidente que o enfrentamento da insegurança alimentar e o fortalecimento da agricultura familiar no Amapá dependem da articulação entre produção local, políticas públicas, pesquisa, assistência técnica e protagonismo das organizações comunitárias.

O Enraizando Amapá — já em execução — e o Caminhos de Sabores e Saberes — agora oficialmente anunciado — representam passos concretos nessa direção, apostando na integração entre escolas, associações, prefeituras, organizações comunitárias e instituições de pesquisa para promover desenvolvimento sustentável e garantir comida de qualidade para as famílias amapaenses.

A liderança comunitária Nelielma Silva, presidente da Cooperativa de Cacau do Estado do Amapá (COOPECAC,), ressaltou o avanço que os mercados institucionais já representam para as famílias do município de Pedra Branca do Amapari.

“Como presidente fundadora da cooperativa, fico muito feliz em ver o quanto já avançamos. Hoje trabalhamos com a entrega para a alimentação escolar no nosso município e temos o PAA Federal encaminhado. Agora, com o projeto Caminhos Sabores e Saberes, teremos uma grande oportunidade para fortalecer ainda mais a nossa produção e levantar os projetos da cooperativa.”

Ela também agradeceu o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pelo financiamento das iniciativas: “É só gratidão ao BNDES por trazer essas oportunidades para nós.”

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