Entre os dias 23 e 25 de setembro de 2025, cerca de 70 pessoas se reuniram no Parque dos Igarapés, em Belém (PA), para debater o futuro do manejo florestal comunitário e familiar na Amazônia brasileira. O encontro, promovido pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) em parceria com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), contou com representantes de oito estados da Amazônia Legal, órgãos federais, associações e cooperativas de base comunitárias e instituições de pesquisa.
O principal objetivo foi apresentar e discutir os resultados preliminares do diagnóstico da bioeconomia florestal na Amazônia, um estudo que começou a ser dialogado nos últimos dois anos, elaborado para mapear os desafios e potencialidades das economias da sociobiodiversidade e dos planos de manejo comunitário na região.
Coordenador geral de economia florestal do SFB, Rodrigo Guimarães aponta que o estudo será fundamental para subsidiar a formulação de políticas. “Esse diagnóstico nos ajudará a compreender a importância da agenda do manejo florestal comunitário e a desenhar estratégias conjuntas com governos estaduais, universidades e, principalmente, com associações e cooperativas que trabalham na ponta”, afirmou o Guimarães.
Para Manuel Amaral Neto, do IEB, o seminário representou uma oportunidade de articulação entre sociedade civil, governos e comunidades. “Destaco a participação maciça de lideranças comunitárias e de representantes dos governos estaduais, que assumiram compromisso com o fortalecimento do manejo florestal comunitário. Estamos diante de uma oportunidade para avanços concretos”, avaliou.
Fábio Chicuta, diretor do departamento de florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), reforçou a importância da agenda como política pública estratégica. “Tivemos três dias de intensos trabalhos e trocas de conhecimento para entender onde estão as comunidades que trabalham com produtos florestais e quais são seus principais gargalos. Só avançaremos se houver um pacto federativo entre governo federal e estados, garantindo apoio, licenciamento ágil e produção legalizada, que atenda às demandas de mercado.”, destacou o gestor.
A participação dos estados também foi vista como fundamental. Nair Martel, da Secretaria de Meio Ambiente do Amapá, avaliou que o encontro trouxe novas perspectivas para a gestão estadual. “Este evento é crucial para o Amapá porque possibilita alinhar estratégias e estabelecer novas ideias para impulsionar essa agenda. O ponto alto foi a troca com os comunitários, que trouxeram casos exitosos e desafios que podemos aprender a contornar. Saio com a mente aberta, novas ideias e a certeza de que vamos replicar experiências no nosso estado.”
A perspectiva das comunidades foi central ao longo do seminário. Emília Rodrigues, do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), ressaltou a necessidade de que os recursos anunciados cheguem, de fato, às bases. “Sempre se fala que há recurso para os movimentos, mas quando as pessoas vão atrás, encontram muita burocracia. Esse é um grande desafio. Nosso movimento trabalha com mulheres, e nosso objetivo é garantir uma vida melhor para elas, sempre com a preservação ambiental como princípio.”, disse a comunitária.
Suziane Costa, da comunidade Buritizal, no arquipélago do Bailique (AP), reforçou a importância do intercâmbio de experiências e da projeção das comunidades amazônicas em espaços como a COP30. “O evento trouxe informações que podem gerar parcerias e fortalecer nosso manejo. Aprendemos com outras comunidades em diferentes estágios de maturidade e debatemos como nossa voz precisa ser ouvida também em espaços globais, como a COP30. Queremos argumentar e não apenas participar.”
A necessidade de reduzir a burocracia e fortalecer a formação técnica para gestão dos recursos também foi destacada. Sonia Almeida, da Cooperativa Manejaí, situada no Marajó (PA), fez um apelo: “Recurso existe, mas falta preparo e apoio para que as comunidades possam gerir de forma contínua. Defendemos que jovens formados em cursos técnicos sejam chamados a contribuir nos projetos de assentamentos e cooperativas. Isso pode dar mais sustentabilidade ao manejo comunitário.”, enfatizou Sônia.
Próximos passos
Os debates e contribuições coletados no seminário serão incorporados ao diagnóstico nacional e servirão de base para a construção da estratégia de desenvolvimento do manejo florestal comunitário e familiar no Brasil. A expectativa é que as recomendações subsidiem a retomada do Plano Nacional de Manejo Florestal Comunitário, atualmente em discussão em diferentes órgãos do governo federal.


