Saberes e sabores do Cerrado: agregando valor ao baru e aos frutos da sociobiodiversidade cerratense

3º módulo do Formar Baru reúne produtores rurais, extrativistas, quilombolas e assentados de diversas regiões do Cerrado para explorar formas de valorizar o baru e outros frutos do bioma

O Cerrado, com sua rica sociobiodiversidade, é um verdadeiro armazém de possibilidades. Entre seus frutos saborosos e promissores, destaca-se o baru, que embora ainda pouco conhecido por muitos, vem conquistando espaço nos mercados do Brasil e do mundo. No entanto, esse fruto vai muito além da castanha torrada; transformado em farinhas, paçocas, chips, cremes, óleos, cachaças, doces e até queijo vegano, o baru se revela uma fonte rica de nutrição e sustento, além de ser um símbolo de cultura e identidade para os povos e comunidades tradicionais do Cerrado.

Foi nesse saboroso contexto de discussão e debate sobre beneficiamento e agregação de valor do baru que, entre os dias 10 e 15 de fevereiro de 2025, em Brasília, aconteceu o 3º módulo do Formar Baru – Formação Continuada em Cadeias de Valor Inclusivas do Cerrado. Realizado pelo IEB em parceria com a Associação Quilombo Kalunga (AQK) e a CooperFrutos do Paraíso, a formação conta com a participação de produtores rurais, extrativistas, quilombolas e assentados vindos de diferentes regiões de Goiás, como Alto Paraíso, Monte Alegre, Cavalcante, Teresina de Goiás, além de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Turma reunida para a foto oficial do módulo 3.

3º módulo do Formar Baru: do Cerrado às prateleiras do mercado

A jornada começou com uma acolhida calorosa, ao som do berimbau e de cantigas tradicionais. Guiados pelo professor de capoeira, Luan Kalunga, cada baruzeiro e baruzeira se apresentou, compartilhando seu canto, sua dança e sua energia com o grupo. Entre sorrisos, abraços e reencontros, teve início o terceiro módulo do Formar Baru.

Roda de capoeira marcando a chegança no primeiro dia de atividades.

Combinando teoria e prática, o encontro trouxe novas formas de valorizar o baru e outros produtos da sociobiodiversidade, conectando saberes tradicionais às exigências do mercado. Os participantes exploraram temas essenciais como beneficiamento, controle de qualidade, normas sanitárias e estratégias para acessar mercados diferenciados, ampliando as oportunidades de comercialização. Bianca Lima, coordenadora do Programa Povos do Cerrado, expressou sua indignação com a falta de valorização dos produtos locais e propôs caminhos para o grupo refletir:

“O Brasil é sempre fornecedor de matéria-prima. A gente entrega tudo o que é bom, os outros beneficiam a matéria-prima e vendem para a gente muito mais caro. Até quando? Então, como podemos agregar valor aos produtos da nossa sociobiodiversidade? Quais são os produtos? Como podemos produzi-los? Quais são os nossos possíveis públicos? O que o seu baru tem que a gente pode oferecer? Nutrientes? Sustentabilidade? Estamos aqui para conversar sobre isso e gerar mais renda para quem está lá no território, cuidando dele e cultivando seus frutos, o seu baru, a sua mangaba, o seu pequi.” 

A programação contou com a contribuição de especialistas como João Ávila, referência em agroindústria e beneficiamento de frutos nativos, e Matheus Avelar, pesquisador do Departamento de Engenharia de Alimentos da UFSJ. Juntos, apresentaram um panorama das oportunidades para os frutos do Cerrado, destacando como a demanda por alimentos naturais e sustentáveis pode impulsionar o trabalho das comunidades agroextrativistas.

Além dos aprendizados teóricos, os participantes colocaram a mão na massa em oficinas organizadas pela parceira estratégica do Formar Baru, Central do Cerrado. O primeiro passo foi a seleção dos frutos, passando por estações de trabalho para identificar o ponto ideal de maturação dos mesmos e discutir boas práticas de coleta, manuseio e ensacamento. Em seguida, aprofundaram os conhecimentos sobre rastreabilidade e organização da produção, criando etiquetas de identificação e preenchendo planilhas de controle para monitorar cada lote.

O armazenamento também foi tema de destaque, com a prática de técnicas para evitar contaminações e garantir a qualidade do produto. Os participantes testaram diferentes métodos para a quebra do baru, comparando a eficiência de equipamentos manuais e elétricos. Depois, fizeram a separação das castanhas e discutiram os cuidados antes do envase e da torra – etapa realizada na sede da Central do Cerrado, onde também aconteceu uma roda de conversa sobre gestão e governança de empreendimentos comunitários.

Turma reunida na Central do Cerrado para troca de experiências.

 

Beneficiamento do mesocarpo do baru em atividade prática.

O 3º módulo do Formar Baru reforçou que o beneficiamento vai muito além do processamento técnico: é um caminho para fortalecer a autonomia dos produtores, valorizar os saberes tradicionais e criar novas oportunidades. O Cerrado e seus frutos seguem conquistando espaço, impulsionados pelo trabalho coletivo das comunidades que, há gerações, cuidam desse bioma.

Cursistas participando da quebra do baru em atividade prática.

Políticas públicas e protagonismo comunitário

Para que os produtos da sociobiodiversidade cheguem ao mercado de forma justa e competitiva, é essencial que os produtores tenham acesso a políticas públicas e incentivos financeiros. Por isso, uma das atividades presentes na programação foi a visita à CONAB, Companhia Nacional de Abastecimento, onde fomos recebidos por Enio Souza, Fernando Motta, Adriene e Maria Kazé. A visita contou com uma palestra sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPMBio) e o Programa Arroz da Gente, que podem apoiar a comercialização e garantir renda para os extrativistas.

Cursistas em visita a Conab.

Durante a mesa de abertura, Andreia Bavaresco, coordenadora executiva do IEB, destacou a importância do governo se reunir com os produtores e organizações da sociedade civil: 

“Estamos em um momento político e histórico em que é possível sentarmos juntos, governo e sociedade civil, e discutir sobre o que é importante para nós. Quero agradecer a todos que tornaram isso possível. Estamos vivendo um momento virtuoso, algo que demoramos bastante tempo para alcançar.”

E continuou: 

“No IEB, sabemos que todas as políticas aqui presentes foram construídas por meio de muita luta e reivindicações sociais. Em certos momentos, é importante revisitar essas conquistas juntos, reafirmando os direitos dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado e da agricultura familiar.”

Bavaresco concluiu destacando a missão do IEB: 

“O IEB tem a alegria e a sorte de conduzir processos de formação continuada, como o programa Formar Baru, com essa turma incrível vinda de diferentes territórios do Cerrado brasileiro, especialmente da Chapada dos Veadeiros. A gente tem promovido muitas atividades voltadas à economia da sociobiodiversidade e ao fortalecimento das organizações de base da sociedade civil, mas o nosso principal objetivo é garantir uma sociedade civil que participe de forma qualificada nos espaços de construção de políticas públicas. A turma que apresentamos hoje não é apenas um grupo de manejadores de baru, mas também de lideranças que estão pensando a governança e a ocupação de seus territórios e atuando de maneira qualificada na construção e implementação de políticas públicas. São organizações que desempenham um papel fundamental nessa parceria com o estado brasileiro.

Turma reunida no encerramento da atividade na Conab.

Sementes de Fortalecimento Cultural e Autocuidado

Durante o módulo, os participantes engajaram-se em atividades que promoveram tanto o fortalecimento da identidade cultural quanto o cuidado pessoal, elementos cruciais para a resistência das comunidades tradicionais da Chapada dos Veadeiros. A capoeira, guiada todas as manhãs por Luan Kalunga, foi um grande destaque. Não apenas como exercício físico, mas como uma rica expressão cultural que ressoou com a história e tradições locais, reforçando o sentimento de pertencimento e valorização das raízes culturais.

Atividade de musicalidade com cursista e professor de capoeira.

Complementarmente, a sessão de escalda-pés conduzida por Dona Josefa – agricultora, erveira e educadora popular – proporcionou um momento de relaxamento e alívio das tensões, além de valorizar os saberes tradicionais e as plantas do Cerrado. Dona Josefa cultiva ervas curativas e manipula plantas em seu quintal produtivo, o Chá da Terra, em São Sebastião (DF). A prática ressaltou a importância do autocuidado, especialmente para aqueles que se dedicam continuamente ao cuidado e à conservação do Cerrado.

Momento de relaxamento na roda de beleza natural.

Próximos Passos: Tempo-Comunidade 3 e Ação Local

Após uma semana intensa de aprendizado, troca de saberes e construção coletiva de conhecimentos, os cursistas retornaram aos seus territórios para dar início ao Tempo-Comunidade 3. Esse é um momento crucial, em que terão a oportunidade de aplicar na prática tudo o que vivenciaram no Módulo 3 da formação, além de conduzir as oficinas do Protocolo Biocultural do Baru em suas comunidades.

As oficinas abordarão temas como:
  • Gênero
  • Geração de Renda e Cadeia de Valor
  • Manejo Sustentável do Baru e Conservação Ambiental
  • Fortalecimento da Identidade Cultural e Repartição de Benefícios
  • Monitoramento e Avaliação
Cursistas apresentando o planejamento desenvolvido durante a formação.

O objetivo principal é dar continuidade à criação participativa do Protocolo Biocultural do Baru, iniciado no Módulo 2, e retomada no Módulo 3, do Formar Baru. Este protocolo é um instrumento essencial que define diretrizes de boas práticas para o uso sustentável do baru, valorizando os saberes tradicionais das comunidades e protegendo-as das pressões externas. As oficinas visam fortalecer ainda mais a capacidade local de autogestão e garantir que as comunidades possam se organizar de forma sustentável e autônoma.

O terceiro módulo do Formar Baru mostrou que o beneficiamento do baru vai muito além da transformação física do fruto. Ele envolve conhecimentos tradicionais, boas práticas agroindustriais, estratégias de mercado e o fortalecimento das redes de produtores. Dessa forma, os participantes seguem se preparando para ocupar espaços cada vez mais sólidos na cadeia de valor do Cerrado, garantindo que seus saberes e sabores cheguem a mais pessoas.

Formação Continuada em Cadeias de Valor Inclusivas do Cerrado

O Formar Baru é uma formação continuada desenvolvida pelo IEB em parceria com a Associação Quilombo Kalunga e a CooperFrutos de Alto Paraíso, com o apoio do Fundo Global pelo Meio Ambiente (GEF) e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Conta também com a colaboração de representantes da Apromas Sertão, ISPN e da Central do Cerrado no comitê pedagógico.

Inserido no contexto do projeto “Cerrado em pé com geração de renda: a cadeia produtiva do baru como aliada da biodiversidade e dos povos tradicionais”, o objetivo da formação é promover a conservação e a geração de renda no Cerrado, tendo a castanha-do-baru como elemento chave. O programa é dividido em seis módulos presenciais, intercalados com atividades intermodulares, chamadas de “Tempo Comunidade”.

Durante os módulos, os participantes recebem apoio pedagógico, participam de oficinas, têm acesso a materiais didáticos e são orientados em temas como manejo sustentável, comercialização, desenvolvimento local e regional, gestão de negócios comunitários e repartição de benefícios econômicos. Para saber mais e acompanhar as próximas edições do Formar Baru, acompanhe o site e as redes sociais do IEB.

Texto: Camila Behrens

 

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