Projeto “Entre Ciências: Territórios de Saber em Diálogo” promove debate sobre “Desafios da Pesquisa Intercultural e do Diálogos de Saberes” em evento de lançamento no MCTI

Projeto foi lançado nesta quarta (20/8) e ao longo de cinco anos promoverá a formação de pesquisadores locais, com mais de 50 bolsas, além de fomentar pesquisas com liderança de organizações de base da Amazônia e Cerrado

Foi com um rico debate sobre os “Desafios da Pesquisa Intercultural e do Diálogos de Saberes” que o IEB, o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) lançaram oficialmente, na última quarta-feira (20/8), o projeto ‘Entre Ciências: Territórios de Saber em Diálogo’. A iniciativa busca aproximar e valorizar diferentes formas de produção de conhecimento no Brasil, iniciando pela Amazônia e Cerrado, promovendo o diálogo entre a ciência acadêmica e a ciência de povos indígenas e povos e comunidades tradicionais.

O lançamento reuniu em Brasília os parceiros institucionais em uma mesa de abertura, apresentou o projeto ao público presente, além de já começar a promover o diálogo intercultural com o painel mencionado acima, e que contou com a presença de Ma. Vercilene Kalunga, Dr. Gersem Baniwa e Dra. Manuela Carneiro da Cunha.

“Esse projeto é um divisor, porque ele reconhece que os conhecimentos tradicionais, como o plantio, a roça, os ciclos da natureza, são também ciências. Por muito tempo, isso foi desconsiderado. (…) Não é porque uma pessoa não frequentou a academia que ela não pode fazer ciência”, refletiu Vercilene Kalunga.

Vercilene Kalunga. Foto: Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)

Para Gersem Baniwa o projeto será um grande desafio, já que “a intercientificidade ainda é vista como uma heresia no mundo acadêmico”.

“O que me anima aqui é ver esse termo ‘Entre Ciências’ com um timbre oficial no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. (…) O diálogo entre ciências não pode existir se só se reconhece uma única ciência. Precisamos que a sociedade, junto com a academia, reconheçam também as outras ciências”, ponderou Gersem.

Manuela Carneiro da Cunha seguiu na mesma linha e lembrou da importância desse diálogo entre saberes com exemplos concretos.

“Muitos conhecimentos tradicionais estão sendo incorporados às práticas do ICMBio, por exemplo. O que a ciência precisa aprender vai além de informações: é também compreender e valorizar diferentes formas de ver e entender o mundo”, destacou.

 

Objetivos e estrutura 

O Entre Ciências tem como principais objetivos fortalecer a pesquisa intercultural, promovendo a geração de informações e conhecimentos em sociobiodiversidade, e garantir que essas pesquisas sejam acompanhadas por políticas de dados locais, respeitando a soberania e a governança comunitária. A iniciativa também busca ampliar a valorização e o fortalecimento dos saberes indígenas, tradicionais e locais, reconhecendo-os como centrais na produção de conhecimento.

Para isso, o projeto vai incentivar e fortalecer arranjos intercientíficos em territórios da Amazônia e Cerrado, promoverá um programa de formação de pesquisadores de Povos Indígenas e Povos e Comunidades Tradicionais (PIPCTs) e desenvolverá um programa de bolsas para pesquisadores dos territórios selecionados. O projeto também fomentará o desenvolvimento de protocolos de pesquisa que considerem gênero e aspectos intergeracionais e terá um fundo para pequenos projetos de pesquisa liderados pelas comunidades e suas organizações de base. E para garantir a soberania e governança dos dados pelos territórios, o Entre Ciências também prevê o desenvolvimento de ferramentas de tecnologia da informação para gestão de dados, em diálogo com os parceiros locais.

Foto: Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)

“A ideia é buscar produzir novos saberes, porque o encontro ‘Entre Ciências’, o encontro intercientífico nem sempre se deu de forma justa e equitativa. Na grande maioria das vezes, esses encontros são predatórios, hegemônicos. Então o que a gente gostaria, nos próximos 5 anos, é promover diálogos intercientíficos equitativos, onde os conhecimentos de Povos Indígenas e Povos e Comunidades Tradicionais sejam realmente valorizados, realmente reconhecidos, em toda a sua complexidade.
A gente realmente acredita que esse projeto ele vai pra além de promover esses diálogos, esses encontros intercientíficos; ele vai trazer soluções”, explica Andreia Bavaresco, coordenadora-executiva do IEB.

Para Bruno Martinelli, coordenador de Projetos e Programas para Serviços Ecossistêmicos do MCTI e coordenador do projeto, a expectativa do ministério também é que o projeto deixe um legado.

“O Entre Ciências é fruto de um esforço coletivo de muitas mãos e corações. Ele representa um olhar coletivo sobre a produção de conhecimentos, construído com respeito e colaboração, e tem o potencial de deixar um legado duradouro para o fortalecimento dos saberes indígenas, tradicionais e locais”, diz.

Bruno Martinelli, coordenador de Projetos e Programas para Serviços Ecossistêmicos do MCTI. Foto: Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)

A iniciativa está organizada em quatro componentes:

1.    Construção de bases: consultas comunitárias, programa de formação, bolsas de arranjos interscientíficos e protocolos de pesquisa;

2.    Apoio às pesquisas nos territórios: oficinas, intercâmbios e recursos diretos para atividades locais;

3.    Gestão de dados e conhecimentos: fortalecimento da soberania e governança dos dados pelas comunidades, com diretrizes sobre dados sensíveis, protegidos e compartilhados;

4.    Governança e monitoramento: comitê gestor, avaliação externa e acompanhamento técnico.

O projeto terá duração de cinco anos, com orçamento global de US$ 7 milhões.

O comitê gestor do Entre Ciências é formado pelo IEB, MCTI, Ministério dos Povos Indígenas, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Rede PCTs do Brasil e Via Campesina.

Próximos passos

Os próximos passos do Entre Ciências envolvem o fortalecimento das ações já iniciadas e a ampliação do diálogo entre diferentes áreas do conhecimento. A iniciativa busca consolidar-se como uma política pública duradoura, capaz de valorizar e integrar de forma efetiva os saberes indígenas, tradicionais e locais aos processos científicos e tecnológicos do país. A expectativa é que o projeto avance na construção de mecanismos permanentes de colaboração, garantindo que esse legado se traduza em benefícios concretos para as comunidades envolvidas e para a sociedade como um todo.

Expectativas e legado 

Entre os legados esperados estão o fortalecimento dos conhecimentos indígenas, tradicionais e locais, a formação de pesquisadores em seus próprios territórios, o desenvolvimento de ferramentas de tecnologia da informação para gestão de dados e repartição de benefícios e a ampliação da iniciativa para outros biomas do Brasil.

O Entre Ciências é um projeto financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e tem o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como agência implementadora. O projeto é coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e executado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil – IEB. A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Organização Social federal de ciência e tecnologia, é sub-executora de um dos componentes do projeto.

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