Organizações comunitárias participantes do Formar Baru entregam carta ao Governo Federal pela defesa do Cerrado e fortalecimento dos territórios

Documento foi entregue a autoridades durante 4º módulo do programa de formação

“Nossa luta não é apenas por comercializar. É por produzir de maneira sustentável, construindo uma outra economia, que não explore, não exclua, não desmate e não destrua.” Foi com este tom propositivo que o grupo de cursistas do Formar Baru recebeu e conversou com representantes do Governo Federal, durante o 4º módulo da Formação em Cadeias de Valor Sustentáveis e Inclusivas do Cerrado, o Formar Baru. Nesta edição, dedicada aos caminhos da comercialização comunitária, cerca de 50 participantes de diferentes territórios do Cerrado aprofundaram temas como custos de produção, comercialização, cooperativismo e políticas públicas.

Formado por agricultores, quilombolas, extrativistas, sertanejos, assentados da reforma agrária e parceiros, as lideranças elaboraram participativamente um documento, com o título “Carta do Formar Baru Pela Defesa do Cerrado em Pé”, entregue a representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do Ministério da Igualdade Racial (MIR) durante o painel Políticas Públicas para Produção Sustentável e Geração de Renda da Chapada dos Veadeiros, realizado no dia (03/07), no âmbito da formação continuada.

Carlos Pereira, presidente da AQK, entregando a carta para Claudia de Pinho, diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (MMA).

“Neste módulo específico, começamos a tratar da gestão e comercialização dos empreendimentos comunitários. Mas o Formar Baru é muito além; é uma formação política de lideranças do Cerrado, e hoje é um dia especial pra turma. É um dia de ser escutado e de escutar o Governo Federal e entender como o Governo pode apoiar essas iniciativas locais”, destacou Andreia Bavaresco, coordenadora executiva do IEB.

O painel contou com a presença de Cláudia de Pinho – Diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (MMA), Bruna de Vitta – Diretora do Departamento de Políticas de Estímulo à Bioeconomia (MMA), Ingrid Silveira – Secretária Executiva da Rede Cerrado, Priscila Ribeiro – Coordenadora de Políticas Públicas para Quilombolas (MIR) e Ariandeny Furtado – Coordenadora de Articulação para o Etnodesenvolvimento Quilombola e de Povos e Comunidades Tradicionais da SETEQ (MDA).

Ingrid Silveira, Priscila Ribeiro, Bruna de Vitta, Ariandeny Furtado e Andreia Bavaresco compondo a mesa do painel Políticas Públicas para Produção Sustentável e Geração de Renda na Chapada dos Veadeiros.

Abrindo o painel, Bruna De Vitta apresentou iniciativas em andamento no seu departamento, como a criação de uma rede de ativadores de crédito — com 50 previstos para atuar no Cerrado — para apoiar pequenos produtores no acesso ao PRONAF, além do Plano Nacional de Bioeconomia e da política de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Ela destacou que práticas de bioeconomia já fazem parte do cotidiano das comunidades do Cerrado há muito tempo, ainda que só recentemente tenham recebido esse nome. “A bioeconomia já é feita há muito tempo por vocês. O que precisamos agora é garantir que essa economia ganhe força, visibilidade e apoio”, afirmou. Bruna reconheceu a importância da carta elaborada pelo grupo do Formar Baru e a sintonia com as diretrizes da secretaria, e incentivou os cursistas a contribuírem nas consultas públicas abertas, submetendo a carta como uma contribuição oficial.

Priscila Ribeiro também comentou sobre os desafios enfrentados pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) na implementação de políticas voltadas às comunidades quilombolas. Ela destacou os esforços contínuos da equipe em garantir recursos, ampliar o alcance das ações e fortalecer a articulação com outros ministérios para transformar pautas históricas em políticas públicas efetivas. Segundo ela, iniciativas como a carta do Formar Baru são fundamentais para orientar e fortalecer esse processo. “Cartas como essa são muito importantes porque nos ajudam a entender as prioridades dos territórios e nos orientam sobre onde e como atuar melhor”, afirmou. Priscila reforçou que a participação ativa das comunidades é essencial para construir políticas públicas mais conectadas com as realidades locais.

Ariandeny Furtado apresentou o funcionamento de sua secretaria, compartilhou algumas políticas em curso e elogiou a iniciativa da carta, destacando sua importância como instrumento de diálogo entre a sociedade civil e o Governo Federal. Ela incentivou que mais ações como essa sejam feitas por meio de documentos formais, como cartas, moções e sugestões.

“Não tem como fazer políticas públicas sem compreender as especificidades dos territórios. As informações precisam chegar até nós. Formalizem, institucionalizem todas as bandeiras de luta de vocês — seja por meio de cartas, moções, e-mails, denúncias, sugestões… Façam esse papel, porque muitas vezes, no Governo Federal, as informações não chegam a quem devem chegar. Nosso foco é cumprir nossas responsabilidades e atribuições, mas a participação de vocês é essencial. Quanto mais compreendermos as realidades locais, maiores as chances de termos políticas públicas efetivas.”

Ela também reforçou a importância de as organizações se apropriarem das ferramentas de gestão, compreenderem as contas públicas e avançarem no acesso às compras institucionais, como o PAA e o PNAE — temas centrais do 4º módulo do Formar. Para concluir, deixou um recado inspirador aos cursistas: que sigam se formando e se qualificando para também ocuparem os espaços de decisão e transformarem, por dentro, as políticas públicas.

A diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, Cláudia de Pinho, também agradeceu a iniciativa da carta.

“Logo que peguei a carta, falei ‘ai, que bom que veio uma carta tão específica sobre o Cerrado em pé.’  Estamos construindo o Plano Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, e a gente tem oportunidade de, neste momento, colher as demandas e correr atrás dessa articulação interministerial. Uma carta como essa reforça nossas demandas, mas com um viés muito peculiar que é o Cerrado em pé. Temos todos os biomas como essenciais, mas sabemos o quanto o Cerrado e suas comunidades tradicionais têm perdido nesse processo.”

Já para Ingrid Silveira, Secretária Executiva da Rede Cerrado, a carta dialoga diretamente com a Rede, já que o trabalho de incidência política coletiva é justamente a proposta da organização.

“Nosso propósito é falar de política pública, mas falar disso também é falar de Baru. Porque o Baru carrega a história dos povos e do território. O Baru é um símbolo de resistência e levamos ele pra todo lugar que vamos. Quando vamos fazer incidência política em outro país, o que levamos com a gente é um saquinho de baru”, disse. 

Ao final do painel, as convidadas da mesa solene agradeceram a oportunidade de participar do Formar Baru, ressaltando a força e a relevância da iniciativa. Elas destacaram a importância de formações como essa para fortalecer lideranças, ampliar o acesso às políticas públicas e construir caminhos mais justos para os povos e comunidades do Cerrado.

Leia a carta completa ao final do texto.

Encerrando a mesa de abertura do painel Políticas Públicas para Produção Sustentável e Geração de Renda na Chapada dos Veadeiros, com Ingrid Silveira, Bruna de Vitta, Priscila Ribeiro, Andreia Bavaresco e Ariandeny Furtado.

4º Módulo do Formar Baru: do Cerrado ao Mercado

Durante cinco dias intensos em Brasília, cerca de 50 baruzeiras e baruzeiros vindos de diferentes regiões do Cerrado se encontraram para aprofundar os caminhos da comercialização comunitária dos frutos da sociobiodiversidade. O módulo, que carrega o nome “Conquistando espaços e mercados”, foi mais do que um espaço de aprendizado técnico, foi um reencontro com a força coletiva, com as histórias de cada território e com a urgência de manter o Cerrado em pé. 

Esse encontro faz parte do Formar Baru — Formação Continuada em Cadeias de Valor Inclusivas do Cerrado, com foco especial na castanha-do-baru. O programa é desenvolvido pelo IEB em parceria com a Associação Quilombo Kalunga e a CooperFrutos de Alto Paraíso, com apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Também conta com a colaboração da Apromas Sertão, ISPN e da Central do Cerrado no comitê pedagógico.

A iniciativa reúne agricultores, quilombolas, extrativistas e assentados da reforma agrária para aprofundar conhecimentos sobre manejo sustentável, organização comunitária e estratégias de comercialização, promovendo geração de renda e valorização dos modos de vida tradicionais.

Neste módulo, três grandes blocos temáticos guiaram a jornada:

  • Custo de produção agroextrativista e o trabalho dos povos cerratenses;
  • Associativismo, cooperativismo e modelos de comercialização coletiva e solidária;
  • Mercados diferenciados e institucionais.
Foto oficial do 4º módulo do Formar Baru.

Compreendendo Custos, Valor e Preço Justo

No coração do módulo esteve a análise e reflexão sobre o custo real do trabalho agroextrativista. Sob a orientação do professor Diogo Giroto, indigenista e coordenador do Programa Amazonas da Operação Amazônia Nativa (OPAN), os cursistas se debruçaram sobre a complexidade da cadeia produtiva do baru, reconhecendo que calcular o custo de um produto vai muito além da soma de insumos e horas trabalhadas. É preciso enxergar o cuidado com o território, os saberes ancestrais transmitidos de geração a geração, o esforço físico e emocional de quem vive essa relação diária com a natureza.

Diogo Giroto conduzindo aula sobre precificação.

Com lápis e tarjetas nas mãos, os cursistas construíram juntos planilhas detalhadas para estimar os custos de cada etapa, da coleta dos frutos à castanha torrada e a polpa do baru. Essa construção coletiva foi um exercício de dar nome e número ao trabalho invisibilizado, estabelecer bases concretas para reivindicar um preço justo e lutar contra a lógica excludente do mercado convencional.

Participantes do Formar Baru realizando atividade em grupo sobre precificação.

Nas reflexões sobre mercado, o grupo entendeu que comercializar um produto da sociobiodiversidade vai além da venda em si: é valorizar a história, o território e o modo de vida de quem produz. O mercado pode ser parceiro, mas também pode ignorar as especificidades que fazem do baru e dos frutos do Cerrado um símbolo de resistência. Por isso, discutir nichos, diferenciação, valor agregado e comercialização ética, buscar alternativas como compras públicas, feiras locais e redes solidárias, se faz tão necessário. Para Alcileia Torres, cursistas do Formar Baru e comunicadora da Rede Kalunga Comunicações, o tema do módulo caiu como uma luva: 

“Esse módulo está sendo essencial para nós, principalmente agora que acabamos de inaugurar o 1º Armazém do Quilombo Kalunga, e a gente ainda está nesse processo de entender como vai funcionar o esquema dos produtores colocarem seus produtos para comercialização. E aqui a gente está entendendo vários processos importantíssimos, como, por exemplo, a diferença entre preço e valor. Porque o preço é o que a pessoa vai pagar, mas por trás do produto tem uma história, que é valor. O valor cultural, étnico, que carrega nossa identidade, nossos saberes tradicionais, o nosso modo de vida que protege o Cerrado, que produz sem devastar.”

Participantes do Formar Baru realizando atividade em grupo sobre precificação.

Organização Comunitária e Políticas Públicas: debates que fortalecem territórios

O 4º módulo aprofundou-se também na dimensão política e organizativa da luta dos povos do Cerrado. Os cursistas participaram de painéis com as professoras Sara Gaia e Marcela Menezes, coordenadoras do Programa Povos Indígenas do IEB, e Mayk Arruda, coordenador do DGM Brasil (Mecanismo de Doação Dedicado a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais do Cerrado) e colaborador da Cooperativa Central do Cerrado, que trouxeram para a roda o conhecimento sobre cooperativismo, associativismo, fortalecimento institucional e políticas públicas. Com exemplos inspiradores como a Central do Cerrado e as estratégias das quebradeiras de coco do Maranhão, as reflexões abordaram desafios reais: a perda da cultura alimentar tradicional, o acesso limitado a mercados locais e institucionais, e a necessidade urgente de manter o protagonismo das comunidades na gestão dos seus meios de produção.

Além disso, foram aprofundados temas sobre identidade, governança e representatividade, dialogando com a história dos movimentos sociais no Brasil e a contínua luta por direitos e visibilidade. O fortalecimento organizacional foi tratado em suas duas dimensões essenciais: interna — com foco em transparência, participação e formação de equipes — e externa, relacionada à articulação política e à construção de parcerias estratégicas. Thamilis Menezes, presidenta interina da Cooperfrutos do Paraíso, destaca:

“Eu senti que, nos módulos passados, a gente viveu mesmo uma preparação para chegar até aqui, nesse módulo de agora. Com toda a bagagem que já trazemos dos nossos territórios. E o que mais me marcou foi pensar em como vamos usar as ferramentas que estamos construindo, ferramentas que fortalecem nossa organização e nos ajudam a dialogar com as políticas públicas. Desde o 1º módulo, das atividades do tempo-comunidade, das consultas do protocolo biocultural do baru, estamos juntos fazendo essa construção. E, quando eu vejo o nome do módulo, ‘Conquistando Espaços’, entendo que agora é o momento de pegar essas ferramentas e aprender a usar cada uma delas, na prática, para lutar por nossos direitos e alcançar os espaços que queremos ocupar.”

Os debates também ressaltaram como políticas públicas como PNAE, PAA, PGPM-Bio e PRONAF podem se tornar caminhos reais para geração de renda, desde que as comunidades estejam preparadas, organizadas e atuantes, com clareza nos objetivos coletivos e capacidade de pressão política. Gustavo Assis, Consultor da Funatura em Sociobioeconomia, reafirmou em sua aula: mais do que garantir o acesso, a chave está em fazer essas políticas funcionarem para quem vive e protege o Cerrado.

Verônica Izoton compartilhando conhecimentos durante a palestra sobre o GT Baru.

Mercados diferenciados e institucionais

Durante o módulo, também foi realizada uma aula dedicada às atualizações do GT Baru, grupo de trabalho que reúne diversos atores da cadeia de valor do baru, com foco na valorização do baruzeiro e do trabalho agroextrativista. A atividade foi conduzida por Verônica Izoton, Assessora do Baru, colaboradora da Central do Cerrado, e Kolbe Soares, Especialista em Conservação na Área Temática de Sociobiodiversidade do Cerrado (WWF Brasil), que compartilharam os avanços das ações de incidência política, os desafios atuais e as estratégias coletivas para o fortalecimento da cadeia do baru no Cerrado.

Uma das atividades finais do módulo, a “Roda de Planejamento para Comercialização Coletiva”, reuniu Luis Carrazza e Paula Lima, Secretário Executivo e Assessora e Gestora de Projetos na Cooperativa Central do Cerrado, respectivamente,  junto aos cursistas para discutir temas fundamentais para fortalecer os mercados comunitários. Foram abordados desafios reais, como a atuação em mercados diferenciados e institucionais, o impacto das certificações e da rastreabilidade, além da proteção do patrimônio genético e cultural dos territórios.

A roda serviu para aproximar o conhecimento prático dos territórios com estratégias de gestão e comercialização, mostrando que vender os produtos do Cerrado exige mais do que preço justo: requer cuidado, ética e muita organização coletiva. Esse debate inicial será aprofundado e desenvolvido ao longo do Tempo-Comunidade 4, com oficinas e consultorias que ajudarão as comunidades a avançar na precificação justa, na gestão e na proteção dos seus processos produtivos.

Equipe da Central do Cerrado participando do 4º módulo do Formar Baru.

O Cerrado em pé e em Festa

O 4º módulo do Formar Baru chegou ao fim com a esperança renovada e com gostinho de quero mais. Após dias intensos de formação, os cursistas se reuniram para traçar os próximos passos. Entre as ações previstas para os Tempos-Comunidade estão mutirões, oficinas, validação e lançamento do Protocolo Biocultural do Baru e do Cartaz de Boa-Práticas, além dos preparativos para a participação no Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, em Brasília, 10 a 14 de setembro de 2025. O evento será palco para mostrar ao público a força da sociobiodiversidade e das organizações comunitárias do bioma.

Participantes expondo seus produtos na feirinha do Formar Baru.

E, como ninguém é de ferro, a celebração também fez parte do encontro. A festa junina do Formar Baru reuniu cursistas, equipe técnica, amigos e companheiros de luta, com a presença especial de Vilmar Kalunga, prefeito de Cavalcante. Além de celebrar com todos, Vilmar foi recebido com uma roda de sussa e com a entrega da carta “Formar Baru pela Defesa do Cerrado em Pé”. Em sua fala, prestou total apoio à causa e reforçou seu compromisso com a proteção do Cerrado.

“Tô muito alegre de estar participando desse momento. Um momento muito importante para o nosso Cerrado e para as nossas comunidades tradicionais. Isso aqui é o que eu respiro e amo. (…) Quero aproveitar para cumprimentar e agradecer a todos os envolvidos: o IEB, a Cooperfrutos do Paraíso, a AQK e vocês, estudantes, formandos, que vão levar isso para a comunidade e multiplicar — porque o Cerrado é vivo, e ele é tudo pra gente. Se a gente não cuidar, não sabemos o que será de nós no dia de amanhã. E como prefeito municipal de Cavalcante, que vim da roça, lá do Sertão, eu fico muito feliz em saber que a nossa cultura está sendo mantida e fortalecida. Fui presidente da AQK, da Ipotecampo, hoje tô como prefeito municipal de CVC, fui o 1º prefeito reeleito em 193 anos. Isso mostra que o homem do campo também precisa de oportunidade. Então vamos aproveitar essa oportunidade e vamo multiplicar dentro do território, que a gente só tem a ganhar. Quero que vocês contem comigo também. Prefeito Vilmar Kalunga, que veio da roça, e hoje estou aqui lutando pelos direitos dos mais que foi sempre esquecido. Então, Obrigada a todos, obrigada formar baru, e conte com o prefeito vilmar kalunga tb. Vou ler essa carta com muito carinho, que eu sei que é muito importante para vocês. E se é importante pra vocês, é importante pra mim também.”

Alcileia Torres e Carlos Pereira entregando a carta ao prefeito Vilmar Kalunga, de Cavalcante (GO).
Participantes do Formar Baru realizando apresentação cultural durante a festa de encerramento do 4º módulo.

O forró, a comilança e a quadrilha animaram a todos, colocando todo mundo para dançar e cantar, encerrando o encontro com muita alegria. Mais que uma festa, foi um rito coletivo, uma expressão viva de quem entende que lutar também é celebrar, pois manter o Cerrado em pé é, acima de tudo, afirmar a vida.

Celebração do encerramento do 4º módulo do Formar Baru.

Leia abaixo a carta completa “Formar Baru pela Defesa do Cerrado em Pé”.

CARTA DO FORMAR BARU PELA DEFESA DO CERRADO EM PÉ

Às senhoras
Cláudia de Pinho – Diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (MMA);
Bruna de Vitta – Diretora do Departamento de Políticas de Estímulo à Bioeconomia (MMA);
Priscila Ribeiro – Coordenadora de Políticas Públicas para Quilombolas (MIR); e
Ariandeny Furtado – Coordenadora de Articulação para o Etnodesenvolvimento Quilombola e de Povos e Comunidades Tradicionais da SETEQ (MDA)

Nós, o Formar Baru trazemos nesta carta demandas importantes pela defesa do Cerrado em pé e de seus povos múltiplos e diversos a partir da visão de quem vive o território. Somos um grupo de agricultores, quilombolas, extrativistas, sertanejos, assentados da reforma agrária. Somos das regiões da Chapada dos Veadeiros, do Norte e Noroeste de Minas Gerais e do Pantanal sul-matogrossense. Somos o Cerrado em pé, e vivo. Somos baruzeiros e baruzeiras que oferecem ao mundo um modo de viver que respeita a terra e valoriza as pessoas.

Nos organizamos coletivamente em associações e cooperativas (Associação Quilombo Kalunga (AQK); Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais do Município de Alto Paraíso de Goiás e Região LTDA (CooperFrutos do Paraíso); Associação dos Produtores e do Meio Ambiente do Sertão (APROMAS), Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (CEPPEC); e Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo (Copabase)) e temos como valores a união, a confiança, a persistência e a resistência, com base em nossos saberes tradicionais e nosso pertencimento, nossa tradição e nossa identidade, que nos conectam profundamente aos nossos territórios.

Falar de baru é falar de vida, de luta e de resistência. E porque, muitas vezes, o que parece ser apenas um produto — uma castanha, um óleo, uma semente — é, na verdade, a alma de povos e de territórios.

O atual modelo de desenvolvimento empurra os pequenos para a beirada. Valoriza o lucro de poucos e invisibiliza o esforço dos povos que sustentam o bioma com o próprio corpo. Nessa lógica, o atravessador ganha mais que o extrativista, o especulador lucra mais do que quem vive da terra. É uma economia que explora e que não cuida.

Nossos territórios estão ameaçados pelo desmatamento desenfreado, pela seca gerada pelo uso intensivo de água pelo agronegócio. Nesse cenário, os incêndios e queimadas se agravam, num ciclo vicioso. Esse mesmo agronegócio também pulveriza agrotóxicos com drones e máquinas sem preocupação pelas pessoas que vivem no entorno e que são atingidas, seja em sua saúde, ou na impossibilidade de receber selo orgânico por ter seu pedaço de terra próximo dessas monoculturas. Isso tudo é possibilitado muitas vezes pelo racismo estrutural que nos afeta em nosso dia a dia, de um olhar torto ao desprezo de um gerente de banco que ignora nosso direito de acessar crédito, ou na falta de financiamento às organizações de base, a falta de pagamento por serviços ambientais e até mesmo o não-reconhecimento legal dos Povos e Comunidades Tradicionais.

É por isso que precisamos fortalecer nossas próprias economias — as economias do território, da partilha, do coletivo, do cerrado vivo. Nossa luta não é apenas por comercializar. É por produzir de maneira sustentável, construindo uma outra economia — que não explore, não exclua, não desmate e não destrua.

Quando vendemos um produto do Cerrado, não estamos vendendo só comida ou remédio. Estamos oferecendo ao mundo um modo de viver que respeita a terra e valoriza as pessoas. Por isso, precisamos garantir que a repartição de benefícios seja justa — que quem trabalha, colhe, limpa, transforma e organiza receba sua parte com dignidade.

As políticas públicas, apesar de existentes, estão ameaçadas, e muitas vezes funcionam apenas no papel. 

Primeiramente, precisamos endereçar a mãe de todas as lutas, que é a titulação, regularização e proteção de nossos territórios. Mas não só. Precisamos valorizar e ampliar a produção agroecológica e o extrativismo facilitando o acesso às políticas públicas pelas comunidades e organizações de base. Entre elas estão o acesso ao crédito verde (Pronaf, PNAE, PAA e SocioBio+) ampliando a fatia do orçamento destinada a ele.

Para isso, também é importante a assistência técnica qualificada e presente. Um bom caminho para isso seria a qualificação e contratação de profissionais locais, valorizando o trabalho de jovens e mulheres. Além disso, é fundamental garantir o financiamento direto das organizações de base, possibilitando a contratação de quadros locais e execução de projetos por nossas organizações. Em nossos territórios, um caminho possível é o fortalecimento do turismo de base comunitária. 

As demandas são muitas, mas trabalhando juntos, podemos ir avançando e construindo uma nova forma de estar no mundo, com mais respeito aos nossos modos de vida, tão fundamentais no contexto de emergência climática em que estamos vivendo.

Respeitosamente,

Grupo de Baruzeiras e Baruzeiros do Formar Baru

Admilson Moreira Carvalho 

Railson Dias Soares

Alcileia Conceição Cesário de Torres

Juliana Moraes Frazão

Carlos Antonio Francisco dos Santos

Charles Nogueira de Alvarenga Couto 

Coraci Pereira dos Santos 

Emilia Soares Prado

Evanilda dos santos pereira 

Evanilsa Cunha Sena 

Nilda Da Costa Serafim

Paulo Ricardo Vieira Dos Santos 

Rivaldo Francisco dos Santos 

Suzideth Soares da Cunha 

Ana Julia Soares Gabriel

Teodora Fernandes Costa Moreira

Valdeni Rodrigues da Conceição

Atalias Santiago de Sousa

Claudia Isabel Lulkin

Cleoni Pereira de Oliveira 

Delmar Ferreira Rezende

Delmy Torres Almeida 

Edna Rodrigues Nogueira 

Fernanda Elias Trindade

Giovane Angelo Canale 

Igor Donizeth Rezende Bernardes

José Rodrigues Nogueira 

Nayara Gomes de Amorim 

Santina Cesário dos Santos 

Thamilis Jesus de Menezes

Luzia Ribeiro Dias

Joana Torres da Silva

Edgar Antonio Piva

Julia Ferreira de Almeida

Nathália Matos Cordeiro 

Rosana Claudina da Costa Sampaio 

 

Compartilhe este conteúdo
Acessar o conteúdo