“O projeto é uma semente de ipê”: comunidades constroem coletivamente o Formar Gênero & Restauração na Resex Verde para Sempre

 

“Ver 200 hectares sendo reflorestados traz esperança para gente que vive da pesca. Isso vai melhorar a vida no rio, já que também restaura a mata ciliar, e isso já é muito.”
— Paulino Gonçalves Teles, pescador da comunidade São Sebastião, em Porto de Moz

Foi com essa imagem de esperança que começou a oficina de modelagem do Formar Gênero & Restauração, realizada no dia 25 de junho, em Altamira (PA). A atividade reuniu lideranças comunitárias, representantes de órgãos públicos e parceiros do projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes, que atua na Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, no município de Porto de Moz.

O objetivo do encontro foi construir, de forma participativa, o programa de formação continuada que terá início em agosto. A formação será voltada prioritariamente às mulheres da Resex, 70% das vagas garantidas para esse público . A ação vai aliar restauração ecológica produtiva, geração de renda e fortalecimento do protagonismo feminino nas decisões e nos cuidados com o território.

Desde a criação da Resex Verde para Sempre, o IEB tem buscado contribuir para os processos de fortalecimento organizacional e manejo de recursos naturais no território. Com o projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes, surge uma oportunidade importante de impulsionar a restauração com ênfase na inclusão socioprodutiva das mulheres, tendo como uma das ações a realização da formação com as famílias agroextrativistas da Resex

“Desde que o IEB voltou a trabalhar com a gente, estou esperançosa. Já estamos vendo a mudança acontecer. A formação vai valorizar o trabalho das mulheres e trazer mais reconhecimento para as comunidades”, contou Jovenilde de Braz Ferreira Ribeiro, da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e tesoureira da Associação do Arimum e do Comitê de Desenvolvimento Sustentável (CDS) de Porto de Moz.

Durante a oficina, representantes de 13 comunidades parceiras — como Arimum, Por Ti Meu Deus, Aruru, Juçara e Santa Luzia do Una — contribuíram para desenhar os rumos do curso, que será mais do que uma formação técnica: será um espaço de escuta, troca de saberes e fortalecimento dos vínculos com a floresta e entre as mulheres.

A agricultora Maria Creusa da Gama Ribeiro, da comunidade Por Ti Meu Deus. Foto: Roberta Brandão/IEB.

Para a agricultora Maria Creusa da Gama Ribeiro, da comunidade Por Ti Meu Deus, o projeto toca em dimensões que vão além da restauração ambiental.

“Se eu fosse uma semente de ipê, seria aquela que floresce, perde as folhas, mas volta mais forte. A semente que se espalha com o vento e multiplica saberes. Esse projeto é como um ipê: carrega dentro de si a força de replantar o que estava se perdendo.”

A conexão entre gênero e restauração também foi destacada por representantes de organizações envolvidas. Segundo Paula Vanessa Silva, gerente de sociobiodiversidade do Instituto Floresta Tropical Johan Zweede (IFT), o projeto representa uma abordagem mais profunda do que o habitual:

“É um projeto que não coloca o gênero como adendo, mas como eixo estruturante. A partir da vivência e das necessidades das mulheres, construímos caminhos para restaurar floresta, autoestima e renda.”

A oficina contou com a participação de parceiros estratégicos como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (IDEFLOR-Bio) e CDS. Elizabeth Mizo, engenheira agrônoma da Embrapa Amazônia Oriental, enfatizou o papel das sementes como símbolo e ferramenta da restauração:

“Pensar restauração é pensar semente, muda e também bioeconomia. O que as mulheres podem criar a partir da floresta? Óleos, biojoias, subprodutos. Estamos aqui para multiplicar possibilidades.”

Para Israel de Oliveira, gerente regional do IDEFLOR-Bio, o encontro serviu para alinhar ações e fortalecer a comunicação entre técnicos e comunitários.“A Verde para Sempre é a maior Resex do mundo, com dezenas de comunidades. Essa ação traz recuperação ambiental, mas também renda e dignidade. A oficina ajudou a nivelar entendimentos e alinhar as vozes rumo a um objetivo comum”, afirmou.

A gestão da unidade também reconhece o caráter inédito da proposta. Segundo Ranara, chefe da Resex pelo ICMBio, essa é a primeira experiência de restauração ecológica em larga escala dentro da unidade.“Estamos falando de restaurar mais de 200 hectares e envolver mais de 300 famílias. É um projeto que une restauração e formação de lideranças femininas, ampliando o impacto social e ecológico da iniciativa”, definiu a gerente.

Imagens da oficina de modelagem, em Altamira (PA). Foto: Roberta Brandão/IEB.

 

 

O projeto Sempre Vivas, Sempre Verdes é uma iniciativa do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e integra o programa Floresta Viva. A ação é financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com apoio da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, do banco alemão KfW, Fundo Vale, Grupo Energisa e Norte Energia. A gestão financeira é do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Compõem a rede de parceiros locais o IDEFLOR-Bio, ICMBio, CDS, Associação dos Pescadores de Porto de Moz (ASPAR), Associação Emanuela e Cooperativa Mista Agroextrativista Floresta Sempre Viva Três Rios (COOMAR).

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