Iniciativa apoiada pelo IEB em Breves integra rede de quatro cozinhas e amplia oportunidades para comunidades agroextrativistas.
Breves (PA) — Em um território onde grande parte da produção de alimentos ainda é comercializada sem beneficiamento e com baixo retorno financeiro, uma cozinha agroextrativista inaugurada no município de Breves começa a mudar essa realidade. A estrutura já está em funcionamento e permite o beneficiamento de alimentos da sociobiodiversidade, ampliando a qualidade dos produtos e as possibilidades de comercialização.
“Antes de existir a cozinha a gente produzia e vendia alimentos, mas tudo in natura, como o frango, açaí, e a parte de hortaliças”, conta Edneide Araújo, uma das mulheres que compõe a cozinha Raízes Marajoara, localizada em Breves.
“Hoje, com a cozinha, a gente trabalha com mais estrutura e já consegue pegar encomendas, de pequenos a grandes eventos”, complementa Nazaré Oliveira, que também atua na cozinha. A iniciativa faz parte do projeto Sanear, realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com o Fundo Amazônia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Fundação Banco do Brasil. O projeto apoia outras três cozinhas agroextrativistas, situadas em Portel. Juntas, elas formam uma rede que envolve cerca de 60 mulheres e amplia a capacidade de beneficiamento da produção local.
Mais do que um espaço físico, a cozinha funciona como uma tecnologia social voltada à autonomia produtiva. Com estrutura adequada para manipulação e preparo de alimentos, permite agregar valor a produtos como açaí, pescado, mandioca e frutas locais, que antes eram vendidos in natura ou com baixo retorno financeiro. Com a operação já iniciada, a comunidade passou a produzir 1.250 marmitas por mês, em um contrato de oito meses, por meio de uma parceria com uma organização não governamental.
“Depois da cozinha, as coisas melhoraram muito, a gente começou a vender o nosso produto já preparado para ser servido, conseguiu ter acesso a projetos que nos possibilitam fornecer comida para famílias em situação de vulnerabilidade e estamos visando outras possibilidades dentro do próprio município. A nossa renda melhorou muito”, compartilha Edineide.
Com a estrutura adequada, a cozinha também possibilitou a participação das produtoras em políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A adequação às exigências sanitárias e de processamento permite que os grupos locais forneçam produtos beneficiados para a merenda escolar, ampliando o acesso a mercados e garantindo maior estabilidade na geração de renda.
Rede em expansão e trajetória acumulada
A nova cozinha se integra a um esforço mais amplo de fortalecimento da economia local baseado no uso sustentável dos recursos naturais. Além das quatro estruturas apoiadas atualmente, a iniciativa reforça uma estratégia contínua de atuação do Instituto Internacional de Educação do Brasil na região.
A experiência da organização nesse campo vem sendo construída ao longo dos últimos anos. Em outros projetos, o instituto apoiou cozinhas agroextrativistas que deram origem à publicação de dois livros de receitas, reunindo saberes, modos de preparo e histórias associadas à sociobiodiversidade amazônica.
“O IEB concebe essas cozinhas coletivas agroextrativistas como ferramentas estratégicas para novas possibilidades, rompendo com a visão histórica desse espaço como invisível e desvalorizado, reflexo da divisão sexual do trabalho, estruturada de uma base patriarcal”, explica Waldileia Rendeiro, analista socioambiental do IEB.
“Em vez disso, elas se afirmam como centros de produção e de conhecimentos, contribuindo para o fortalecimento da economia local, empoderamento econômico das mulheres, valorização social e econômica dos produtos agroextrativistas”, complementa Waldileia.


