Mulheres da Resex Verde para Sempre marcham em Porto de Moz e cobram acesso a direitos básicos

Mobilização reuniu mais de 500 extrativistas de 39 comunidades e terminou com a entrega de uma carta pública com reivindicações por direitos básicos e apoio à produção sustentável.

Mais de 500 mulheres de 39 comunidades da Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre marcharam pelas ruas de Porto de Moz (PA) no dia 8 de março para cobrar acesso a direitos básicos como saúde, água, educação e apoio à produção sustentável. A mobilização marcou o 1º Encontro de Mulheres da reserva e terminou com a leitura de uma carta pública dirigida aos governos federal, estadual e municipal.
A Resex Verde para Sempre, criada em 2004, é considerada a maior reserva extrativista do país e abriga mais de três mil famílias que vivem do extrativismo, da pesca e da agricultura familiar, distribuídas em comunidades ao longo de rios, furos e igarapés. A distância entre essas localidades e a sede municipal dificulta o acesso a serviços públicos básicos.

Para chegar à cidade, comunidades organizaram 39 embarcações, que trouxeram participantes pelos rios até Porto de Moz. “Hoje nós mulheres temos que sair para as ruas para gritar pelos nossos direitos — por educação, por uma água boa e por uma saúde que chegue de fato para as mulheres extrativistas”, afirmou a moradora da reserva Maria Creusa da Gama Ribeiro.

Segundo ela, a mobilização também foi uma forma de dar visibilidade à realidade das mulheres que vivem da floresta. “Eu vim dizer para o mundo que sou mulher extrativista e que os direitos das mulheres extrativistas precisam ser garantidos e respeitados.”

A extrativista Rosalina Magalhães, também participante do encontro, destacou que a mobilização reflete mudanças no papel das mulheres nas comunidades.

“Eu fico muito feliz em ver as mulheres procurando os seus direitos. Antes diziam que mulher era só para a cozinha, mas hoje nós também estamos no manejo, trabalhando nos planos de manejo e nas cooperativas. As mulheres vão para o campo e participam das decisões”, afirma Rosalina.

A marcha percorreu cerca de 2,5 quilômetros, saindo da sede local do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) até a Secretaria Municipal da Mulher. Ao longo do trajeto, as participantes fizeram paradas para abordar temas como autonomia econômica, enfrentamento à violência, acesso à saúde e direito à educação.

Durante o percurso, as participantes entoaram palavras de ordem e cantaram versões adaptadas de músicas da Marcha das Margaridas, considerada a maior mobilização de mulheres do campo da América Latina. Cartazes e flores em formato de margarida também foram utilizados como símbolos da mobilização.

A marcha também trouxe à tona o debate sobre violência contra as mulheres. Em Porto de Moz, um dos serviços disponíveis para atendimento a vítimas é a chamada “Sala Lilás”, espaço que reúne atendimento psicológico, jurídico e social dentro da delegacia do município.

Encontro reuniu centenas de participantes

O encontro havia sido planejado inicialmente para cerca de 300 mulheres, mas acabou mobilizando um público maior, reunindo mais de 500 participantes, além de homens e crianças que acompanharam a programação. A atividade foi organizada por instituições que atuam no território, entre elas o ICMBio, a Associação Emanuela e o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com apoio de organizações parceiras.

Segundo Deborah Pires, do IEB, o encontro também se conecta à mobilização nacional das mulheres do campo.
“Esse encontro também surge como uma preparação para a próxima Marcha das Margaridas, que será realizada em Brasília. A ideia é motivar e fortalecer novas lideranças mulheres dentro da Reserva Extrativista Verde para Sempre para que participem ativamente da luta por direitos.”

“Além da mobilização do 8 de março, o encontro também trouxe o debate sobre produção sustentável e acesso das mulheres a políticas públicas.”

Representantes do governo federal também participaram da programação. Para Larissa Passos, coordenadora-geral de Inclusão Produtiva, Enfrentamento à Pobreza e à Fome da Secretaria Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidado do Ministério das Mulheres, a mobilização demonstra a força das mulheres da floresta.

Larissa Passos, durante o primeiro encontro de mulheres da Resex Verde para Sempre

Segundo ela, encontros como esse ajudam a aproximar políticas públicas das mulheres que vivem em territórios rurais e florestais. “Nós viemos para ouvir, porque nossas políticas são construídas com as mulheres e para as mulheres.”

Além dos debates, o encontro também contou com atendimentos voltados às participantes, como emissão de documentos, orientações sobre direitos reprodutivos e cadastro em programas relacionados à dignidade menstrual.

Carta reúne principais reivindicações

Ao final da programação, as participantes leram uma carta pública elaborada coletivamente durante o encontro. O documento reúne as principais demandas das mulheres que vivem na reserva.

Entre os pontos destacados estão a ampliação do acesso à saúde, melhorias no transporte para atendimento médico, mais escolas no campo, acesso à água potável, energia, comunicação e assistência técnica voltada à produção extrativista.

“Ainda nos faltam acesso à saúde, educação de qualidade, segurança, comunicação, energia e água para consumo e produção”, afirmam as mulheres no documento.

A questão da água apareceu como uma das principais preocupações. Na reserva vivem mais de 3 mil famílias, mas programas recentes de acesso à água devem atender apenas parte delas.

A carta também destaca a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à produção e comercialização de alimentos da sociobiodiversidade, além de ampliar o acesso a crédito e assistência técnica. “Queremos produzir alimentos de qualidade por nós mesmas e garantir segurança alimentar para nossas filhas e filhos nas escolas”, registra outro trecho do texto.

Maria Creusa, durante leitura da carta

No documento, as mulheres reforçam que seu trabalho é fundamental para manter a floresta em pé e garantir a alimentação das comunidades. “Queremos nos sentir seguras, livres e ter o direito de viver plenamente — e não apenas sobreviver”, conclui a carta.

O encontro contou com apoio de organizações parceiras como Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Interelos, Conexus, Comitê de Desenvolvimento Sustentável de Porto de Moz (CDS), Instituto Floresta Tropical (IFT), Secretaria Municipal da Mulher e Prefeitura de Porto de Moz.

 

 

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