Missão de avaliação de meio termo acompanha avanços do Projeto Baru da Chapada nos territórios da Chapada dos Veadeiros

A atividade reuniu comunidades, organizações locais e parceiros para refletir sobre resultados, desafios e próximos passos da iniciativa voltada à conservação do Cerrado e ao fortalecimento da cadeia do baru

Entre frutos saborosos, estradas de terra, rodas de conversa e histórias compartilhadas, a missão de avaliação de meio termo do Projeto Baru da Chapada revelou que os resultados de um projeto podem ir muito além de indicadores técnicos. Realizada entre os dias 12 e 14 de maio, a atividade marcou um momento de escuta, reflexão coletiva e fortalecimento das estratégias construídas junto às comunidades da Chapada dos Veadeiros.

Com participação de representantes do FUNBIO, do IEB, da Associação Quilombo Kalunga (AQK), da Cooperativa Agroecológica Cooperfrutos do Paraíso e da consultoria responsável pela avaliação, a missão percorreu diferentes espaços do território para acompanhar de perto os impactos, desafios e aprendizados acumulados ao longo da execução do projeto.

Integrantes do FUNBIO, IEB, AQK e Cooperfrutos durante visita ao Armazém Quilombo Kalunga, em Cavalcante (GO). Camila Behrens/Acervo IEB

Mais do que um processo de monitoramento técnico, a avaliação em campo buscou fortalecer um acompanhamento próximo, participativo e conectado às realidades locais. A missão também reafirmou o compromisso do projeto com a conservação do Cerrado, a geração sustentável de renda e o protagonismo de povos e comunidades tradicionais. 

“Essa viagem faz parte de uma missão do Projeto Baru da Chapada. Esse é um momento de pausa e reflexão, para pensar no que queremos daqui pra frente”, destacou Andréia Bavaresco, diretora executiva do IEB, durante a atividade. “São quase três anos de parceria que parecem décadas caminhando juntos.”

 

Andreia Bavaresco, diretora executiva do IEB, facilitando atividade para refletir sobre avanços, desafios e próximos passos do Projeto Baru da Chapada. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

A programação teve início no sede  do IEB, em Brasília, com uma reunião entre a equipe técnica, representantes e responsáveis pelos projetos GEF do FUNBIO e a consultora responsável pela avaliação, Joana Amaral. No dia seguinte, a missão seguiu para a Cidade da Fraternidade, em Alto Paraíso de Goiás, onde foram realizadas reuniões de governança e uma visita à sede da Cooperfrutos. Já no terceiro dia, o grupo participou do intercâmbio e visita de campo no território Kalunga, incluindo a sede da AQK, áreas de sistemas agroflorestais (SAFs) e o Complexo do Prata.

Ao longo da missão, as falas das lideranças locais reforçaram como o baru ultrapassa a dimensão produtiva e econômica, assumindo também um papel cultural, político e territorial.

“A comunidade do Sertão é onde a gente tem a maior concentração de baru da região. O baru faz parte da nossa vida, da nossa história tradicional”, afirmou Del, liderança da Associação dos Produtores e do Meio Ambiente do Sertão (APROMAS) e cooperada da Cooperfrutos do Paraíso. “É sabido que, muitas vezes, chega gente de fora para explorar e capitalizar em cima dos nossos conhecimentos. Mas o Projeto Baru da Chapada chegou de um jeito diferente e veio se adaptando às nossas realidades.”

A confiança construída ao longo da parceria foi um tema recorrente nas conversas. Del relembrou o primeiro contato com a equipe do IEB, durante um encontro na fase preparatória de elaboração do projeto: 

“A honestidade delas (representantes do IEB) me surpreendeu. Elas disseram que o projeto ainda nem estava aprovado e que nada estava garantido, mas que estavam aqui para pensar a proposta do projeto junto com a gente. Ali eu já vi que seria diferente.”

 

Momento de fala realizada pela Del, durante roda de conversa com diferentes parceiros do projeto. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

Uma cadeia do baru construída coletivamente

O Projeto Baru da Chapada atua no fortalecimento da cadeia produtiva da castanha do baru como instrumento de conservação do Cerrado e geração de renda justa e sustentável para comunidades locais da Chapada dos Veadeiros. Executado pelo IEB, em parceria com a Associação Quilombo Kalunga (AQK) e a Cooperfrutos do Paraíso, o projeto busca fortalecer organizações comunitárias, implementar ações de governança, monitoramento e comunicação, além de fomentar estratégias de comércio justo e valorização da sociobiodiversidade do Cerrado.

Entre as ações desenvolvidas pela iniciativa está o Formar Baru, processo formativo continuado composto por 6 módulos presenciais e 5 tempos comunidade,  voltado ao fortalecimento da cadeia do baru e das organizações comunitárias, com atividades relacionadas à gestão de empreendimentos comunitários, boas práticas, beneficiamento, comercialização e conservação do Cerrado.

 

Participantes da missão de avaliação de meio termo em visita ao território Kalunga, durante intercâmbio e atividades de campo do Projeto Baru da Chapada. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

A iniciativa é implementada pelo FUNBIO, financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), e atua, entre 2022 e 2027, nos municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, São João d’Aliança, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás

Mulheres no centro da transformação

Um dos temas mais presentes durante a missão foi o protagonismo das mulheres na cadeia do baru e na organização comunitária.

“Agora temos uma diretoria exclusivamente feminina. Nosso PAA é composto basicamente por mulheres”, contou Thamilis Menezes, presidente da Cooperfrutos. “O Projeto Baru da Chapada trouxe a presença do IEB com uma potência enorme. Tem sido muito importante para o nosso fortalecimento, para ajudar a gente a falar e ocupar os espaços.”

Presidente da cooperativas, Thamilis Menezes, e diretora comercial, Nayara Gomes, em fala de boas-vindas na Cidade da Fraternidade. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

A discussão sobre gênero também apareceu associada ao reconhecimento histórico do trabalho das mulheres extrativistas.

“O baru por muito tempo foi visto como coisa de mulher, de preguiçoso ou de quem precisava muito”, relembrou Del. “O projeto ajudou a desinvisibilizar as mulheres que sempre trabalharam catando baru e despertou orgulho por esse trabalho.”

Outro avanço destacado foi a criação de condições para ampliar a participação feminina nas atividades da cooperativa e do projeto.

“Todos os projetos e eventos da Cooperfrutos passaram a prever recursos para cuidadoras, para que as mulheres possam participar das reuniões e atividades. Isso a gente aprendeu com o IEB”, destacou Thamilis.

Momento de acolhida e convivência entre participantes da missão de avaliação de meio termo na Cidade da Fraternidade, em Alto Paraíso de Goiás. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

Conservação, renda e fortalecimento territorial

Ao longo das visitas, a missão também evidenciou como o fortalecimento da cadeia do baru vem contribuindo para impulsionar outros processos no território: acesso a políticas públicas, organização comunitária, formação de jovens, fortalecimento institucional e valorização da sociobiodiversidade do Cerrado.

“O baru foi uma peça-chave para valorizar outros frutos, as políticas públicas e o nosso território”, relatou Ezita Kalunga, vereadora e membra do conselho fiscal da AQK. “O IEB também está apoiando a construção de estruturas para beneficiar os nossos frutos e a nossa biodiversidade.”

Carlos Pereira, presidente da AQK, destacou a importância das parcerias para a estruturação do território quilombola:

“O nosso território, por muito tempo, era muito falado, mas pouco estruturado. Hoje conseguimos construir o primeiro armazém quilombola. E esse armazém, e várias estruturas novas daqui vieram de projetos do FUNBIO e também do IEB.”

Representantes do FUNBIO, IEB, consultoria e parceiros locais durante visita de campo e momentos de escuta no território Kalunga. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

As falas também revelaram desafios ainda presentes nas comunidades, como a falta de água, estradas precárias e ameaças ligadas à expansão da mineração e da soja. Ainda assim, as lideranças ressaltaram a força cultural, política e organizativa do território Kalunga, além da crescente ocupação de espaços institucionais por quilombolas e jovens do território. Nesse contexto, fortalecer as ações voltados para a cadeia do baru, e dos frutos da sociobiodiversidade como um todo, também significa fortalecer a permanência das comunidades em seus territórios, seus modos de vida e suas formas de organização coletiva.

Monitoramento como construção coletiva

Para o FUNBIO, agência GEF no Brasil e parceiro estratégico da iniciativa, a missão reafirma a importância de um acompanhamento próximo, ético e conectado aos territórios.

“A gente tem uma preocupação muito grande de não aparecer nos lugares só para tirar. E também de não prometer e mexer com os sonhos das pessoas para depois não poder cumprir”, afirmou Fábio Leite, Coordenador da Unidade de Gestão de Programas e Projetos do FUNBIO. “O FUNBIO se preocupa em fazer um trabalho honesto, escutando sempre quem vive nos territórios. A gente acompanha os relatórios do projeto, mas chegar aqui e ver acontecendo está sendo bom demais.”

A consultora Joana Amaral, responsável pela avaliação de meio termo, destacou que o objetivo do processo é justamente apoiar ajustes e aprendizados ao longo da caminhada.

“O que eu quero aqui é ajudar a pensar o que está dando certo, o que está dando errado, para avaliarmos nossa rota e adaptar o que for necessário.”

Entrega de lembranças e produtos da sociobiodiversidade durante momento de integração entre parceiros e comunidades participantes da missão. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

Entrega de lembranças e produtos da sociobiodiversidade durante momento de integração entre parceiros e comunidades participantes da missão. Foto: Acervo IEB/Camila Behrens

A missão também evidenciou que os resultados do Projeto Baru da Chapada vão além das metas previstas formalmente. Eles aparecem nas relações construídas, no fortalecimento das organizações locais, no protagonismo das mulheres, na valorização dos conhecimentos tradicionais e no sentimento coletivo de pertencimento ao território.

“Hoje estamos aqui só na gratidão”, resumiu Emília Kalunga, liderança do território kalunga de Teresina de Goiás, e secretária da AQK. “A nossa família se uniu. Virou a família baru com esse projeto.”

Trocas, afeto e fortalecimento de vínculos entre parceiros do Projeto Baru da Chapada. Foto: Camila Behrens/Acervo IEB
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