O Cerrado pulsou em Brasília entre os dias 10 e 13 de setembro, durante o XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado. Nesse espaço de celebração e luta, um momento especial marcou o sistema socioprodutivo do baru: o lançamento do Cartaz de Boas Práticas do Baru.
O cartaz, resultado de quatro módulos do Formar Baru, foi construído de forma participativa e em coautoria com a Associação do Quilombo Kalunga (AQK), a Cooperfrutos do Paraíso e a Associação dos Produtores e do Meio Ambiente do Sertão (APROMAS). Ele reúne orientações fundamentais para garantir a qualidade, a segurança e a valorização do baru em todas as etapas da cadeia.
O material será amplamente compartilhado entre agroextrativistas, educadores e parceiros, fortalecendo o trabalho coletivo. Mais do que um recurso didático, o cartaz representa a força da rede baruzeira no Cerrado brasileiro. Sua elaboração contou também com a parceria do CEPPEC, Copabase, Coopnorte, Coopsertão Veredas, Central do Cerrado e ISPN, além do apoio fundamental do Fundo Global para o Meio Ambiente (gef) e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio).

“Esse cartaz é a nossa identidade. Ele representa cada um de nós, de diferentes cantos, e tudo o que construímos juntos. Estou muito orgulhosa e muito grata a todo mundo que trabalhou com a gente e ajudou a tornar possível o lançamento desse cartaz tão lindo, que fala tanto de quem somos” afirmou Dona Edna, agricultora familiar, extrativista e participante do Formar Baru.

O que é o Formar Baru
O Formar Baru é um programa de formação continuada concebido e implementado pelo IEB em parceria com povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares e quilombolas da Chapada dos Veadeiros, no norte de Goiás, do norte de Minas Gerais e do Mato Grosso do Sul. O objetivo é fortalecer as organizações de base comunitária nos territórios, para que extrativistas e produtores possam atuar de forma alinhada, com maior autonomia e protagonismo no caminho do baru.
Nos encontros presenciais, são trabalhados temas como gestão de empreendimentos comunitários, governança, fortalecimento institucional das organizações de base, boas práticas de manejo, beneficiamento dos frutos do Cerrado e estratégias de comercialização. Além disso, os tempos comunidade, momentos de disseminação, validação e aprimoramento dos conhecimentos adquiridos nos módulos, reforçam a troca entre os participantes e a aplicação prática do aprendizado no dia a dia das comunidades.
Foi desse processo pedagógico que foi elaborado o Cartaz de Boas Práticas na Prática, construído coletivamente, passo a passo, com a participação direta de agricultores familiares, extrativistas e quilombolas. O material reúne imagens, etapas, fazeres e saberes da cultura de quem mantém o Cerrado em pé e conhece profundamente seus frutos.

GT Baru e a construção coletiva
O lançamento aconteceu na Tenda Cerrado em Pé, durante a oficina do Grupo de Trabalho do Baru (GT Baru). O GT Baru é um coletivo intersetorial criado para articular toda a cadeia do fruto. Reúne comunidades extrativistas, associações, cooperativas, organizações da sociedade civil, pesquisadores e movimentos sociais. A ideia é simples, mas poderosa: juntar os diferentes elos do sistema produtivo para pensar o baru de forma colaborativa, justa e sustentável, desde a coleta no Cerrado até a chegada ao mercado.
Para Andreia Bavaresco, coordenadora executiva do IEB, o processo de criação do cartaz foi tão importante quanto o resultado:
“Para além das boas práticas do baru, ele passou por um processo pedagógico para ser construído. Isso começou com a gente sentado no chão, desenhando como cada um fazia a coleta do baru… Esse material tem autoria coletiva. Não são donos, são autores. Nós colocamos nossa cabeça e nosso coração na construção dele e estamos muito orgulhosos do resultado.”
O aspecto pedagógico também se refletiu no impacto direto entre as comunidades. Uma participante do GT Baru destacou:
“Eu quero parabenizar pelo cartaz, porque dentro da minha comunidade as pessoas não sabem ler, mas com esses desenhos você nem precisa saber ler para entender.”
Reconhecimento e futuro do baru da Chapada
O lançamento do cartaz foi celebrado como um passo estratégico para fortalecer o sistema produtivo do baru e ampliar suas possibilidades de mercado.

“Se a gente quer um dia chegar a exportar o nosso baru, ou colocar na alimentação escolar, a gente precisa se organizar. E esse trabalho do IEB está organizando pessoas. Por isso o valor dessas OCSs que estão nos apoiando: IEB, ISPN, Central do Cerrado… Sem essas OCSs nós nem estaríamos aqui hoje reunidos. E esse é um valor que extrapola dinheiro”, afirmou Claudia Lulkin, nutricionista da Secretaria Municipal de Educação de Alto Paraíso de Goiás.
A avaliação positiva também veio de diferentes parceiros:
“Eu, que atuo na cadeia há mais de 10 anos, confesso que fiquei muito surpresa e feliz com o resultado do cartaz. O trabalho ficou lindo, didático, acessível e, o mais importante, veio da base, das pessoas que fazem o trabalho acontecer”, disse Dionete, fundadora da Copabase.
Na mesma linha, André Ramos, colaborador da Conexsus, ressaltou:
“Está lindo. Dá para ver que foi feito com muito cuidado e, principalmente, respeitando a cultura das populações que estão envolvidas na base. A gente sabe que isso é uma cultura ancestral, e nós, enquanto GT Baru, não queremos que a cadeia se desenvolva perdendo sua identidade. Eu achei o cartaz fantástico.”

Um marco dentro de um encontro maior
O lançamento integrou a programação do XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, a maior mobilização em defesa do bioma. O evento reuniu povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais de 12 estados, além de uma feira de sociobiodiversidade, debates e apresentações culturais.
Para o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), a atividade representou não apenas um reencontro com os parceiros do Formar Baru, mas também a celebração de uma trajetória coletiva que fortalece comunidades e valoriza o Cerrado.
Fortalecendo o caminho do baru
O Cartaz de Boas Práticas na Prática do Baru reafirma a identidade das baruzeiras e baruzeiros e projeta o futuro do sistema produtivo do fruto. Fruto de um processo participativo, ele se consolida como referência para a comercialização responsável, a valorização dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado e a conservação do bioma.
👉 Baixe o cartaz clicando no link abaixo, compartilhe com sua comunidade e ajude a espalhar esse conhecimento por todo o Cerrado!
Cartaz de Boas Prática na Prática do Baru da Chapada
Texto: Camila Behrens, Andréia Bavaresco e Bianca Lima


