Famoso por suas dunas avermelhadas, fervedouros de águas cristalinas e artesanato de capim-dourado, o Jalapão atrai turistas de todo o Brasil e do mundo. Localizado principalmente no bioma Cerrado, conta também com áreas localizadas em regiões de transição com a Caatinga, guardando assim uma riqueza cultural e natural única.
Nos últimos anos, porém, as comunidades locais vêm enfrentando desafios como o avanço da agropecuária industrial, o uso excessivo de agrotóxicos, o turismo desordenado e a exploração ilegal de recursos naturais. Essas pressões impactam não apenas a paisagem e os rios, mas também os modos de vida dos povos tradicionais, que desempenham um papel essencial na preservação do Cerrado.

Projeto Enraíza: Fortalecendo Comunidades e Conhecimentos Locais
Foi nesse contexto que, em 2024, nasceu o Projeto ENRAÍZA: Raízes do Cerrado e Pantanal. Realizado pelo IEB com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), mais especificamente a Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (SNPCT), o projeto tem como foco a inclusão socioprodutiva, a gestão territorial e o fortalecimento de quatro organizações comunitárias, sendo três no Cerrado e uma no Pantanal.
Entre os dias 15 e 17 de novembro, o projeto apoiou o 1º Encontro de Plantas Medicinais e Remédios Caseiros de Mateiros, promovido pela Associação Comunitária dos Artesãos e Pequenos Produtores de Mateiros (ACAPPM), uma das organizações beneficiárias. O evento reuniu cerca de 30 pessoas por dia, incluindo representantes da Cooperativa CoopSertão Veredas (MG), da Comunidade Quilombola Cedro de Mineiros (GO) e da fundadora do projeto RAÍZES (Encontro de Raizeiros, Parteiras, Benzedeiras e Pajés na Chapada dos Veadeiros de Goiás), e do Instituto Natureza do Tocantins (NATURATINS), entre outros parceiros.

Fortalecendo Saberes Tradicionais e a Inclusão Socioprodutiva
O encontro teve como objetivo principal resgatar e compartilhar conhecimentos sobre o uso ancestral e seguro das plantas medicinais do Cerrado. Oficinas e rodas de conversa fortaleceram a autonomia em saúde, valorizando práticas transmitidas de geração em geração. Essa iniciativa surgiu a partir de uma demanda dos próprios comunitários de Mateiros, que escolheram o tema em uma assembleia organizada pela ACAPPM.
No primeiro dia do evento, a roda de conversa sobre plantas medicinais do Cerrado foi um dos grandes destaques. A atividade reuniu três raizeiros do território jalapoeiro: Seu Zé Menininho, da comunidade Fazenda Nova; Dona Deuza, da Associação AsColômbolas Rios; e Darlene, da comunidade quilombola do Prata, em São Félix, além de Stander Morais e Dona Ângela Maria, da Comunidade Quilombola Cedro de Mineiros (GO). Durante a roda, os participantes compartilharam suas experiências, os desafios enfrentados como raizeiros em seus territórios e as plantas medicinais que mais utilizam.

Além de promover o uso seguro de remédios caseiros em um cenário de acesso limitado à saúde, o evento abriu caminhos para a geração de renda. Elzita, presidenta da Associação Ascolombolas Rios, expressou:
“Nós, jalapoeiros, fomos criados só com remédios caseiros. Um dos meus objetivos é resgatar as plantas medicinais para que a gente possa produzir também. Esse é o meu sonho. Tô aqui pra aprender e levar esses conhecimentos pra minha comunidade.”
O encontro também deu visibilidade às lutas enfrentadas pelas comunidades do Jalapão. Márcia Mumbuca, uma das participantes, destacou:
“O Estado me tirou o direito de cuidar e usufruir da minha comunidade com o conhecimento que meus antepassados me ensinaram. Eles estão tentando arrancar a nossa raiz.”

Essas comunidades não apenas preservam o Cerrado, mas também cultivam um conhecimento ancestral que une sabedoria popular e ciência, oferecendo soluções concretas para muitos desafios do dia a dia. Esses saberes vão além do uso prático: são fundamentais para a saúde, a convivência harmoniosa com a natureza e a regeneração dos ecossistemas. O Projeto ENRAÍZA apoia iniciativas como o extrativismo de fava d’anta e sucupira, plantas medicinais cujas propriedades já eram conhecidas pelas comunidades locais muito antes de serem utilizadas por grandes farmacêuticas na produção de medicamentos. Entre eles, destacam-se veinotônicos à base de rutina, usados para tratar varizes e problemas circulatórios, e cápsulas de óleo de sucupira, reconhecidas por aliviar dores articulares como artrite e artrose. Elzita, presidenta da Ascolobolas Rios, expressou:
“Aqui no Jalapão, quase todas as plantas são medicinais. Um dos meus objetivos pra minha associação é resgatar as plantas medicinais pra que todo mundo também possa produzir. Esse é o meu sonho. Fico feliz de ver exemplos de outras pessoas fazendo isso. A gente tá aprendendo aqui diferentes técnicas pra produzir os remédios.”

Stander Moraes, da Comunidade Quilombola do Cedro, ressaltou a importância de iniciativas como esta:
“Aprendi a valorizar as plantas medicinais quando fui morar na capital e vi como era lá. O agro tomou conta do Cerrado e não trouxe compensação nenhuma. Muitas vezes eu faço os remédios da minha comunidade e levo pra cidade pra ajudar os amigos que precisam, porque na cidade eles não conseguem se tratar. A saúde não é acessível.”
Raízes Fortes para um Futuro Resiliente
A realização do 1º Encontro de Plantas Medicinais e Remédios Caseiros de Mateiros marcou um passo importante para as comunidades locais da região e para o projeto Enraíza. Ao fortalecer os saberes tradicionais e promover a autonomia em saúde e geração de renda, o projeto reafirma seu compromisso com a valorização dos modos de vida e a conservação da sociobiodiversidade dos biomas Cerrado e Pantanal.
A continuidade das ações do projeto pode ser acompanhada pelo instagram do IEB ou aqui pelo site. Acompanhe também a Associação Comunitária dos Artesãos e Pequenos Produtores de Mateiros (ACAPPM) em seu instagram, clicando aqui. Assista abaixo um pequeno vídeo com momentos ao longo do Encontro.

Texto: Camila Behrens


