A Amazônia brasileira tem o rosto de uma mulher. Pelo menos é o que mostram os dados do último Censo. Dos nove estados que compõem a região, apenas quatro apresentam maior presença masculina. Após cinco décadas, esta é a primeira vez que todas as regiões do Brasil possuem maioria feminina. No entanto, desafios persistem, como a desigualdade salarial e a violência de gênero. Para enfrentar essa realidade, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) desenvolve metodologias e ações voltadas ao fortalecimento do protagonismo e da autonomia financeira das mulheres nos territórios onde vivem.
Dentro do Programa Territorialidades, por exemplo, na linha de atuação de gênero e sustentabilidade, a organização busca ampliar a inclusão socioprodutiva feminina. A iniciativa envolve processos formativos, assessoria técnica e incentivo às boas práticas de uso dos recursos naturais e manipulação de alimentos. Segundo Waldiléia Rendeiro, analista socioambiental e coordenadora da linha de gênero e sustentabilidade, essas mulheres atuam em diversas frentes, protegendo a floresta amazônica enquanto promovem segurança alimentar, diversificação de produtos e agroecologia. “Nos processos formativos, buscamos potencializar o que elas já fazem. Trabalhamos a sensibilização sobre gênero dentro de organizações mistas, como cooperativas e associações”, explica.
Um exemplo dessa atuação é Edna Araújo, coordenadora da Cooperativa da Agricultura Familiar e Agroextrativista Regional (Cafar), localizada em Breves (PA). A agricultora integra a implantação de modelos de cozinhas extrativistas no Marajó, com apoio do IEB. “A cozinha coletiva representa um sonho realizado. Agora poderemos processar os produtos extraídos de nossos lotes e fornecer para programas como o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos] e o PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar]”, celebra.

A implantação dessas estruturas é vista pelo IEB como uma estratégia para transformar a visão histórica que marginaliza esses espaços. “As cozinhas emergem como centros de produção e gestão coletiva, com potencial para gerar renda, fortalecer a economia local e promover o compartilhamento de saberes”, enfatiza Waldiléia.
Ao longo das últimas duas décadas, o IEB tem impulsionado ações de articulação, formação e assessoria para a formulação de políticas públicas que garantam a autonomia das organizações comunitárias envolvidas no manejo sustentável dos recursos florestais. Katiuscia Miranda, coordenadora institucional da instituição, destaca que o fortalecimento de espaços públicos de diálogo tem sido uma das principais estratégias adotadas. “A constituição do Observatório do Manejo Florestal Comunitário (OMFC), em 2017, e a criação da Articulação de Mulheres Agroextrativistas da Amazônia (A-Mana), em 2021, são exemplos desse compromisso”, ressalta. A A-Mana, secretariada pelo IEB, reúne 25 organizações de mulheres do Pará e Amapá e tem como objetivo fortalecer a atuação desses coletivos e influenciar políticas públicas voltadas à autonomia feminina.
Maria Creusa, presidente da Cooperativa Mista Agroextrativista Três Rios (COOMAR), localizada na Reserva Extrativista Verde para Sempre, na comunidade Por Ti Meu Deus, do Rio Acaraí, município de Porto de Moz, destaca a importância dessas iniciativas. “Precisamos valorizar nossos territórios e cultura com base no nosso conhecimento. Não devemos esperar que alguém de fora fortaleça nosso território”, afirma.

Outro exemplo de protagonismo feminino é Érika Thaís, de Moju (PA), primeira Coordenadora de Juventude da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu), organização parceira do IEB. “Se é na associação e nas igrejas que as mulheres estão à frente, então temos o poder de liderar”, destaca. A Malungu e o IEB atuam no projeto “Fortalecimento de Redes de Juventudes Quilombolas pelo Direito ao Território”, no Pará, que capacita jovens na defesa de seus territórios tradicionais e na promoção de políticas públicas contra as drogas e a repressão estatal.
Outra iniciativa relevante é o Conselho Warao Ojiduna (CWO), criado em 2022 para representar 12 comunidades de refugiados indígenas Warao no Pará. Desde 2021, a organização conta com o apoio do IEB, em parceria com a Acnur. “A partir do Conselho, conseguimos avanços antes considerados impossíveis”, destaca Mariluz Mariano, coordenadora executiva do CWO.

Maria Creusa, Érika Santos, Edna Araújo e Mariluz Mariano fazem parte das aproximadamente 12 milhões de mulheres que vivem na Amazônia. Em números gerais, o Brasil possui 104.548.325 mulheres (51,5%) e 98.532.431 homens (48,5%). Quatro estados da Amazônia Legal ainda possuem predominância masculina: Mato Grosso e Roraima (50,3%), Tocantins (50,1%) e Acre (50,04%). Nos demais estados da região Norte, a população feminina já supera a masculina.
Articulação de Mulheres Agroextrativistas Amazônidas (A-Mana)

Composta por diversos coletivos de mulheres e jovens organizados de diferentes formas — associações, cooperativas e grupos informais —, a Articulação de Mulheres Agroextrativistas Amazônidas (A-Mana) atua no manejo de produtos naturais e na produção de alimentos voltados à soberania e segurança alimentar, além de artesanatos, biocosméticos e outros itens da sociobiodiversidade. Criada em 2023, a rede reúne cerca de 1.500 integrantes distribuídas entre 20 grupos nos estados do Pará e Amapá.
A missão da A-Mana é fortalecer o protagonismo feminino por meio da organização de uma rede articulada que mobiliza parcerias, promove a troca de conhecimentos e impulsiona a comercialização colaborativa. O objetivo é garantir que essas mulheres alcancem o desenvolvimento humano e territorial de forma justa, respeitando a biodiversidade e os valores culturais da Amazônia.
“Hoje eu tenho a A-Mana, que ampara diversas organizações de mulheres, independentemente de raça, cor ou religião. Ela funciona como um guarda-chuva, trazendo conhecimento e fomentando as atividades desenvolvidas. Para mim, essa rede representa oportunidades e fortalecimento, pois agrega o trabalho dos coletivos do Pará e Amapá”, pontua Maria Creusa, integrante da articulação.
A independência econômica é um fator fundamental para a redução da violência contra a mulher, pois garante autonomia, poder de decisão e a possibilidade de romper ciclos de abuso. Muitas permanecem em situações de violência devido à dependência financeira, o que limita suas opções de denúncia e fuga. Iniciativas como a A-Mana são essenciais nesse contexto, ao fortalecer a autonomia feminina por meio do trabalho coletivo e da comercialização de produtos da sociobiodiversidade amazônica.
Apesar dos avanços, a violência de gênero ainda é um desafio na região. Em 2024, o Brasil registrou uma queda de 5,1% nos casos de feminicídio, totalizando 1.128 mortes até outubro, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). No entanto, na Amazônia Legal, cinco dos nove estados apresentaram taxas superiores à média nacional. Mato Grosso liderou com 2,5 casos por 100 mil mulheres, seguido por Acre, Rondônia e Tocantins (2,4) e Roraima (1,9).
Diante desse cenário, o IEB atua em processos formativos e na articulação de redes para fortalecer a autonomia feminina, promover a geração de renda e incentivar a implantação de quintais agroflorestais, cozinhas comunitárias e assessoria no campo organizacional. Um exemplo é a cooperativa agroextrativista Amazonbai, no Amapá, que recebeu apoio para a revisão de uma política de salvaguarda de mulheres e meninas no trabalho com o açaí. “Mapeamos riscos e situações de violência que meninas e mulheres podem sofrer nas atividades produtivas, qualificamos as questões de gênero e colaboramos na criação de estratégias para mitigá-los”, explica Waldiléia.
Pela primeira vez, mulheres integram a diretoria da Amazonbai. “Gerir uma cooperativa é um grande desafio, mas também uma oportunidade de ocupar espaços e mostrar nossa força”, afirma Gabrielle Corrêa, vice-presidente eleita em fevereiro deste ano.


