IEB Belém completa 20 anos: duas décadas de compromisso com a Amazônia e suas comunidades

Desde sua fundação em 2005, o escritório regional do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) em Belém, no Pará, tem desempenhado papel estratégico no fortalecimento de comunidades locais, na conservação ambiental e na formulação de políticas públicas voltadas ao manejo florestal e ao desenvolvimento sustentável.

O ano era 2004, e em uma sala do Centro Comercial Gilberto Salomão, situada no Lago Sul de Brasília, colaboradores de uma Organização Não Governamental (ONG) se reuniam para o seu exercício anual de avaliações e planejamento estratégico.

A uns 10 minutos daquela sala, no Palácio do Planalto, o primeiro governo Lula impulsionava políticas públicas voltadas à inclusão social, à valorização das comunidades tradicionais e ao fortalecimento da participação popular. No plano econômico, o país experimentava estabilidade, crescimento e havia aumento da confiança de organismos internacionais em parcerias para conservação e desenvolvimento sustentável.

Ao mesmo tempo, a Amazônia brasileira enfrentava graves pressões: o desmatamento batia recorde, ultrapassando 27 mil km² naquele ano, gerando forte mobilização de organizações da sociedade civil e exigindo uma atuação mais próxima, técnica e comprometida com os territórios.

Foi nesse contexto que o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) tomou a decisão estratégica de instalar seu primeiro escritório regional na Amazônia, com sede em Belém (PA). A decisão de estar presente fisicamente nos territórios era mais que uma escolha logística — era um posicionamento político, metodológico e institucional que ia ao encontro do Brasil dos anos 2000.

Na época, duas grandes iniciativas já apontavam para a necessidade de presença física na região: o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional Sustentável e o Consórcio Alfa, apoiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).

Era necessário ter um braço institucional enraizado na Amazônia. Estávamos em um processo de crescimento institucional, com dois grandes projetos na época voltados à Amazônia, então o escritório nasceu dessa urgência de estar perto, viver os territórios, dialogar com os povos da floresta”, relembra Manuel Amaral Neto, um dos participantes daquele planejamento de 2004, e atual coordenador executivo do IEB.

Oficina de manejo de açaí, realizada em 2005, na região do Xingu, no Pará. Foto: Acervo IEB

As iniciativas que começaram a ser desenvolvidas pelo escritório de Belém, formalmente instituído em 2005, reforçavam a institucionalização do IEB, criado a partir do apoio da State University of New York – SUNY ADC Training Program com recursos da USAID.

O IEB acredita que gente é o caminho pra sustentabilidade, e isso começa dentro de casa

Assim como fazia em suas formações, o escritório de Belém foi sendo modelado a várias mãos, primeiro por pessoas que estavam diretamente ligadas à sede de Brasília, como Maria José, em um nível mais estratégico e institucional; Ailton Dias, com sua expertise metodológica; Henyo Barreto, com sua coordenação acadêmica; e Gordon Armstrong, coordenador técnico do IEB, falecido em 2011, que com sua liderança leve, atuava como uma espécie de mentor na dimensão mais técnica e na fundamentação dos projetos para aderência aos editais.

 “Hoje quando a gente a gente ganha autonomia relativa aqui para aprovar projetos bem pontuados em editais competitivos, por exemplo, a gente deve isso muito ao Gordon, que nos ensinou como se lê e interpreta um edital, como é que se interpreta aquilo que se quer para formular um bom projeto”, rememora Manuel.

Já a coerência, a estratégia, o zelo ao plano institucional, o diálogo com os doadores, a forma de nutrir as relações de parcerias institucionais, a Maria José foi um grande espelho nesse sentido”, pontua Manuel.

No início, a atuação do escritório regional era quase exclusiva ao Manejo Florestal Comunitário e Familiar (MFCF) — tema que segue sendo um dos pilares da identidade institucional —, mas a partir de 2010, começou uma expansão para outras frentes como regularização fundiária, restauração produtiva, economias da sociobiodiversidade, gênero e salvaguardas socioambientais.

Manejo Florestal Comunitário e Familiar (MFCF) continua sendo um dos pilares do escritório regional Belém do IEB. Foto do seminário Manejo Florestal Comunitário e Familiar na Amazônia, realizado nos dias 26 a 28 de junho de 2024, em Belém (PA). Foto: Acervo IEB

Diversos nomes contribuíram nesta trajetória, como Katiuscia Miranda, que chegou em 2006, contribuindo com o diagnóstico do MFCF na Amazônia brasileira e continua na casa até hoje; Ruth Corrêa; Daltro Paiva, importantíssimos para nosso trabalho na região de São Félix do Xingu; Maura Moraes e Edane Acioli, abrindo frente na atuação em Barcarena; Waldileia Rendeiro, na temática de gênero; dentre tantos outros profissionais que deixaram e deixam suas marcas na atuação do escritório regional, que atualmente conta com cerca de 30 colaboradores diretos.

Uma das fundadoras do IEB, Maria José Gontijo destaca que a criação do escritório regional reinventou práticas e aprofundou sentidos institucionais. “O trabalho feito por nosso pessoal em Belém complementa e inova o IEB como um todo. Nascido pra implementar um Programa de Manejo Florestal Comunitário ao longo dessas duas décadas vimos a potência dessa visão integral florescer nos quintais, nos rios, nas feiras, nas roças, nas redes de mulheres, nas juventudes que se formam e se reinventam. E é por isso que seguimos — porque seguimos com elas e com eles. A caminhada da nossa organização no Pará traduz com muita sensibilidade o que sempre acreditamos: cuidar do território é também cuidar das pessoas, da cultura, da comida e da vida”, pontua Maria.

O impacto da atuação do escritório contribuiu no desenvolvimento de organizações locais e na formação de lideranças. Um dos exemplos é a Cooperativa Mista da Flona Tapajós (Coomflona), criada em 2005 e considerada uma referência em manejo florestal comunitário.

À frente da Coomflona entre 2008 e 2014, Sérgio Pimentel relata que a gestão da cooperativa participou de várias capacitações, especialmente na área financeira. “Teve uma pessoa do IEB que passou três meses aqui com a gente, junto com o financeiro, pra capacitar nessas questões de recebimento, pagamento, nota fiscal. Também tivemos capacitações em outras áreas, como cooperativismo, então eu considero o IEB como um braço direito naquele período do início da cooperativa”, conta Sérgio.

Atual diretor da Federação da Flona do Tapajós, Sérgio Pimentel relembra atuação do IEB no início da Coomflona. Foto: Acervo IEB

Para o IEB, um dos marcos do fortalecimento da cooperativa foi uma carta enviada ao Instituto, agradecendo a parceria e sinalizando que os serviços do IEB já não eram mais necessários. “Muitas organizações poderiam ficar chateadas, que isso era uma afronta, mas para nós isso foi um indicador de sucesso, atestando a transformação da Coomflona ao longo dos anos, em processos que tivemos participação ativa“, avalia Manuel.

Atual coordenadora adjunta do IEB, Katiuscia Miranda reforça que as comunidades e povos tradicionais, em geral, têm suas formas próprias de organização, desenvolvidas durante séculos, que dão conta de suas relações sociais, políticas e econômicas, tanto internamente quanto com comunidades e povos com quem mantêm relações.

O IEB acredita, apoia e desenvolve esforços em um trabalho de base mais consistente, de cunho educacional. A criação ou o fortalecimento das organizações comunitárias deriva do fortalecimento de suas lideranças e do tecido social através da participação ativa de todos. É preciso interpelar os grupos comunitários sobre suas expectativas e esperanças em relação às suas organizações, discutir a fundo os propósitos e objetivos que motivam a criação ou manutenção dessas organizações”, afirma Katiuscia.

Curso de gestão da produção, realizado pelo IEB em 2009, na Coomflona, em Santarém. Foto: Acervo IEB

O desenvolvimento de lideranças nos territórios também é um dos impactos celebrados pelo IEB. Um dos expoentes, fruto do trabalho realizado na região do Xingu, é a agroextrativista Maria Creusa Ribeiro, da Reserva Extrativista Verde para Sempre, em Porto de Moz (PA).

O IEB apoiou o meu desenvolvimento oferecendo várias oportunidades de formação como o Formar Gestão, o Formar Gênero e um dos processos mais marcantes foi o curso Liderar. Tudo isso fortaleceu e impulsionou o nosso conhecimento e autonomia enquanto liderança”, afirma Maria Creusa, que desde 2005 começou a se envolver nas formações realizadas pelo IEB em Porto de Moz, no Pará.

Maria Creusa é uma das lideranças impulsionadas pelo IEB em processos de formação. Na foto, Maria Creusa participa em evento sobre arcabouço de políticas públicas ligadas à estratégia da rede de sementes no Pará. Foto: Acervo IEB

Em março passado, eu estava na sede do Ibama, participando de um seminário do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e Maria Creusa estava lá, fazendo uma fala qualificada para lideranças do governo brasileiro. Uma verdadeira potência, que me fez recordar da trajetória dela ao longo dos anos”, reforça Manuel.

Entre desafios e conquistas

A história do escritório inclui também momentos difíceis. Entre 2019 e 2022, uma crise financeira quase paralisou as atividades. O enfrentamento veio com reestruturação da gestão, captação de novos projetos e retorno a um modelo de coordenação mais executivo. “Foi uma travessia dura, mas necessária. Reaprendemos a caminhar a partir daquilo que construímos como identidade”, afirma o coordenador do IEB.

Nos últimos anos, o escritório regional Belém comemora expansões, seja em temas de restauração produtiva ou de salvaguardas comunitárias. “Mais recentemente, o que a gente tem se desafiado e aprendido muito, e hoje faz parte do nosso cardápio, é essa agenda de salvaguardas socioambientais, fundamentalmente no tema de defesa de direitos, que é a agenda que a gente desenvolve com o povo Warao”, compartilha Manuel.

Para o gestor do escritório regional, o escritório de Belém tem construído uma forma peculiar de trabalhar com povos indígenas. “Os povos indígenas nunca estiveram nas nossas formulações, seja porque a gente já tem um programa consolidado de povos indígenas no IEB, seja porque o nosso carro chefe de atuação era o manejo florestal comunitário”, explica Manuel.

Indígenas Warao durante oficina de revisão do Protocolo de Consulta Warao, realziada no Ministério Público Federal do Pará, em 2024. Foto: Acervo IEB

O trabalho que a gente desenvolve com os Warao nos descortina para outras possibilidades, e através do fortalecimento comunitário, do engajamento socioprodutivo de mulheres Warao, a gente acumulou conhecimentos e se desafiou para um trabalho com eles e nas condições em que eles se encontram aqui em Belém e região metropolitana”, avalia Manuel.

Futuro: raízes mais profundas, copas mais altas

A conjuntura de 20 anos após sua criação, traz ao escritório regional do IEB em Belém o desafio de seguir fortemente sua missão de fortalecer as capacidades de lideranças de organizações comunitárias a defenderem seus projetos na esfera pública. A retomada das conquistas nas políticas socioambientais desmontadas no último período está entre as prioridades, entre elas o Programa Nacional de Manejo Florestal Comunitário e Familiar.

Nesse contexto, para os próximos anos, o escritório vislumbra o fortalecimento de agendas como salvaguardas comunitárias, adaptação climática, negócios comunitários e restauração produtiva. “Temos a intenção de consolidar nossa incidência, desde Belém, na Amazônia Oriental. Além do Marajó, Amapá e Xingu em que já temos uma inserção estratégica, queremos expandir nossa atuação para o Nordeste Paraense e pré-Amazônia Maranhense, pois esses temas nos levam a esses territórios. Queremos crescer com responsabilidade, atentos aos desafios e ao nosso papel na construção de um futuro mais justo e sustentável para os povos e populações que vivem na Amazônia”, conclui Manuel.

 

 

 

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