IEB e Organizações parceiras se reuniram com Lideranças comunitárias para alinhar os próximos passos do projeto Enraizando Amapá
Nos dias 25 e 26 de abril, em Macapá, o Projeto Enraizando Amapá reuniu 22 lideranças dos quatros Projetos de assentamentos rurais (PAs) beneficiários do Programa de Reforma Agrária, que integram a iniciativa. São eles: Pancada do Camaipi, Manoel Jacinto, Matão do Piaçaca e Munguba. Durante o encontro, momentos de troca, formação, planejamento e fortalecimento marcaram a caminhada coletiva que o projeto propõe. José Ivan, mais conhecido como Zezão Camaipi — em homenagem ao assentamento onde vive há 20 anos, no município de Mazagão — resumiu o sentimento que atravessou a reunião ao lembrar uma lição de Paulo Freire: “Apesar do povo já estar muito desesperançoso, eu ainda uso uma palavra que gosto muito: esperançar. Esse esperançar a gente aplica todos os dias no nosso território, para um, para dois, para cem, para ninguém e para mim mesmo”, afirmou o assentado.
Paulo Freire defendia que esperança não é um ato passivo de esperar, mas um movimento ativo de transformação. Para ele, “esperançar” significava levantar-se, buscar, construir e não desistir diante das dificuldades. Em obras como Pedagogia da Esperança, Freire reforça que é preciso agir com compromisso para mudar a realidade, pois a verdadeira esperança nasce da prática e do desejo de transformação social. Para Zezão e para tantos outros presentes, o Enraizando Amapá representa novas perspectivas de pertencimento, crescimento e fortalecimento das comunidades.
O processo de regularização fundiária dos assentamentos está dentro do conceito esperançar de Paulo Freire, pois reúne a ação e articulação das organizações parceiras e dos assentados. Segundo Daltro Paiva, analista socioambiental do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), a realização de mutirões para a vistoria dos lotes foi um passo fundamental. “Essa etapa, que aconteceu em novembro do ano passado, consistiu em visitas in loco para avaliação das áreas. Neste momento, está sendo realizada uma força-tarefa formada pelo IEB, Instituto de Extensão, Assistência e Desenvolvimento Rural do Amapá (RURAP) e o Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (INCRA), buscando equacionar as pendências identificadas na plataforma de gestão territorial. A expectativa é resolver cerca de 70% dos processos até o final de maio”, explicou.
A regularização fundiária é estratégica não apenas para o sucesso do Projeto Enraizando, mas sobretudo para garantir aos assentados o acesso a políticas públicas de crédito e fomento agrícola. “Sem a situação fundiária regularizada, os beneficiários do Programa Nacional de Reforma Agrária não conseguem acessar políticas fundamentais para seu sucesso como famílias assentadas, como é o caso do crédito rural”, destacou Daltro. Ele reforçou que o fortalecimento das comunidades passa pela integração entre iniciativas da sociedade civil e políticas públicas: “O IEB não trabalha desconectado das políticas públicas. Pelo contrário, buscamos reforçá-las e nos fortalecermos nelas para ampliar os resultados que chegam às comunidades”.

A Conexão Necessária: Enraizando Amapá e Raízes
O Projeto Enraizando é uma iniciativa construída de forma colaborativa, que alia conhecimentos técnicos e científicos ao saber tradicional das famílias assentadas. Seu objetivo é fortalecer a agricultura familiar, os arranjos socioprodutivos e a conservação da biodiversidade nos quatro assentamentos federais participantes, por meio de práticas de plantio, manejo florestal, boas práticas produtivas, gestão comunitária e promoção da bioeconomia. O Enraizando Amapá propõe o desenvolvimento integrado dos territórios, com atenção especial à promoção da igualdade de gênero e ao fortalecimento das formas coletivas de organização através de processos formativos.
Essa proposta se conecta diretamente com o Projeto Raízes, formando uma estratégia complementar: enquanto o Enraizando atua mais diretamente no campo, nas práticas e na formação dos agricultores e agricultoras, o Raízes trabalhará para garantir a infraestrutura necessária, como energia elétrica, assistência técnica, saneamento básico e apoio à regularização fundiária. Em uma alegoria, é como se o Enraizando fosse o processo de fazer as raízes crescerem e se fixarem firmemente na terra, enquanto o Raízes molha o solo, e garante os nutrientes para que essas raízes possam prosperar. Juntos, os dois projetos constroem as bases para transformar os assentamentos em territórios vivos, produtivos e sustentáveis.
O Projeto Raízes é financiado por meio de uma operação de crédito entre o Governo do Estado do Amapá e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES ). Ou seja, trata-se de um investimento público estadual com recursos provenientes de um contrato firmado com o BNDES. Já a iniciativa nomeada Enraizando Amapá é executada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e organizações parceiras. O apoio financeiro ao Enraizando Amapá decorre de uma seleção pública promovida pelo BNDES.
O Enraizando Amapá ainda conta com o apoio das organizações parceiras para o desenvolvimento deste projeto, sendo que em 2025 estarão em campo, o Instituto Terroá, Grupo de Políticas Públicas da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq – GPP), Universidade Estadual do Amapá (UEAP) e A cooperativa dos produtores extrativistas do Bailique e Beira Amazonas (AMAZONBAI). Além da ajuda fundamental das organizações dos assentamentos, como a Associação Ambiental e Agroextrativista do Assentamento da Pancada do Camaipi (AAPCI), Associação de Produtores Agroextrativistas e Pescadores da Agrovila do Assentamento Pancada do Camaipi (ASPROEX), Associação de Produtores Agroextrativistas e Pescadores da Agrovila do Assentamento Pancada do Camaipi (ASPROEX), Associação dos Agricultores do Munguba (AAM), Associação dos Produtores Rurais do Munguba (APRM), Associação dos Produtores Rurais do Assentamento Munguba (APRAM), Associação dos Agricultores do Projeto de Assentamento Manoel Jacinto (AAPAMJ), Associação dos Produtores Rurais da Comunidade Bela Vista (AMPROBEL) e Associação dos Produtores Rurais da Comunidade Bela Vista o Matão do Piaçacá (APROVALE).
Apesar do ambiente de comprometimento e esperança construído durante o encontro, as lideranças comunitárias foram enfáticas ao apontar desafios históricos e estruturais que persistem nos assentamentos. Entre os principais gargalos estão a precariedade dos ramais e estradas vicinais, que dificultam o escoamento da produção, a falta de acesso à energia elétrica de qualidade e a ausência de políticas públicas específicas para a juventude rural — especialmente no campo da educação profissional e do ensino médio contextualizado. Esses entraves, embora não possam ser resolvidos integralmente por um único projeto, foram reconhecidos pelo IEB como demandas legítimas e urgentes, que precisam ser levadas aos parceiros institucionais e aos gestores públicos.
Para Daltro Paiva, analista socioambiental (IEB), a reunião realizada em Macapá marcou um momento de virada para o projeto Enraizando. “Foi uma culminância que fecha um primeiro ciclo de aproximação com as lideranças e abre um novo, voltado para o planejamento conjunto das ações para 2025. Saímos com 22 lideranças mais comprometidas e preparadas para contribuir com o sucesso do projeto”, avaliou. Daltro também ressaltou que, apesar dos desafios estruturais, o ambiente de confiança e esperança construído durante o encontro reforça ainda mais a importância da conexão entre Enraizando Amapá e Raízes, para que os assentamentos sejam, de fato, territórios de vida.
Conheça algumas informações sobre os assentamentos, obtidas através do levantamento inicial:

A agricultora Jonária Silva Nascimento, presidente da Associação dos Produtores Rurais do Assentamento Munguba (APRAM), compartilhou sua visão sobre essa etapa do projeto. Para ela, o encontro reacendeu a motivação de quem vive da terra e reafirmou o valor da agricultura familiar. “A gente vê uma esperança, como eu sempre digo, voltada para que a gente busque o sentido do objetivo que são os assentamentos: que a agricultura familiar possa voltar, que as pessoas comecem a ter essa esperança novamente, que se sintam a vontade de estar dentro da agricultura de verdade — que não seja só no nome, mas que vivam de suas atividades”, afirmou. A fala de Jonária reforça o desejo coletivo de retomar o protagonismo dos agricultores e agricultoras nos territórios onde constroem sua história todos os dias.

FORMAR
Outro ponto importante que foi construído, debatido e planejado, de forma coletiva, durante o encontro, foi a realização do Formar Raízes. Uma capacitação que inclui três círculos de oficinas formativas que devem ser realizado entre os meses de abril à setembro deste ano de 2025, e o último a ser executado em 2026.
O Formar busca fortalecer capacidades locais com base em temas estratégicos. O primeiro ciclo abordará governança territorial e cidadania, o segundo focará em práticas de manejo para a conservação da biodiversidade, e o terceiro tratará de boas práticas de produção e negócios sustentáveis. A expectativa é formar 40 pessoas — entre jovens, mulheres e representantes das comunidades — com ênfase em garantir que, no mínimo, 50% das vagas sejam ocupadas por mulheres e jovens. Apesar dos desafios geracionais e estruturais enfrentados pelos assentamentos, o engajamento das lideranças em incluir a juventude e promover a equidade de gênero reforça o compromisso coletivo com a construção de um futuro mais justo e sustentável para os territórios.
Uma reunião realizada, no dia 24 de abril, com as organizações parceiras do projeto resultou na formação de dois cômites, o pedagógico e o de governança. Outro destaque da programação foi a instalação do comitê de governança do projeto, que reúne diferentes organizações e parceiros institucionais para acompanhar e fortalecer a implementação do Enraizando. Para Simone Ranieri, do grupo de políticas públicas da Fealq, esse momento de articulação coletiva é essencial. “Essa etapa é muito importante porque a gente está encontrando todos os parceiros no início do projeto. É fundamental se alinhar, conhecer o que cada um vai fazer no Amapá. Participar do comitê de governança também é muito importante, porque vamos estar discutindo as coisas que estão dando certo, acompanhando o projeto, avaliando o que precisa ser melhorado”, afirmou.
Com vozes diversas, trocas significativas e compromissos renovados, a reunião realizada em Macapá marca o início de uma nova etapa para o Enraizando. Uma etapa que, como reforçado pelas lideranças e parceiros, será guiada pelo diálogo, pela colaboração e pelo esperançar coletivo que move quem acredita no potencial transformador da agricultura familiar e na força dos territórios como lugares de vida. Claudenes Campos, presidente da Associação Bela Vista, do Assentamento Matão do Piaçacá, resumiu em poucas palavras o sentimento que ficou entre os participantes: “Foi uma reunião excelente, favorável a todos os produtores. Agora é ter fé, esperança, seguir em frente, avançar no projeto e prosperar.”



