Em Belém, indígenas Warao concluem formação focada em autonomia, protagonismo e fortalecimento comunitário

Realizado pelo IEB em parceria com o ACNUR, o Formar Warao envolveu 28 indígenas que compõem o Conselho Warao Ojiduna.

Entre os dias 1º e 4 de outubro, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) realizou, em Belém (PA), o segundo círculo do “Formar Warao – Autogestão e incidência política”, formação desenvolvida para auxiliar o Conselho Warao Ojiduna — uma das primeiras organizações de indígenas refugiados no Brasil — em seus processos de desenvolvimento organizacional e institucional. A ação contou com a parceria da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e apoio do Centro Universitário do Pará (Cesupa).

Povo originário do Delta Amacuro na Venezuela, os Warao têm lutado para ter acesso a direitos como povo indígena no Brasil. Desde 2021, IEB e ACNUR apoiam o fortalecimento organizacional dos Warao, promovendo a participação social de seus representantes e apoiando suas ações de incidência política. A criação do Conselho Warao Ojiduna, em 2022, é um dos resultados desse processo.

Inserido no projeto “Povos das Águas: Waraotuma Kokotuka Saba”, o Formar Warao foi elaborado com o objetivo de fortalecer a autogestão e a autonomia do Conselho Warao Ojiduna. O primeiro círculo da formação foi realizado em maio, focado em aspectos relacionados à legislação indigenista, estratégias de mobilização e de fortalecimento intercomunitário. No segundo círculo, realizado em outubro, os temas centrais foram comunicação institucional e interna do Conselho, além de estratégias de mobilização social, elaboração e gestão de pequenos projetos.

Durante a manhã do primeiro dia, Carlinhos Luz, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) abordou aspectos dos três eixos de comunicação do MST — informar, formar e organizar — conduzindo os Warao em um processo de reflexão sobre as potencialidades de mobilização de seu Conselho.

Carlinhos Luz, do MST, trocou experiências sobre comunicação popular e mobilização social

No período da tarde, os cursistas se dividiram entre três oficinas de comunicação, uma focada em comunicação institucional, outra em mídia social e a última em fotografia e vídeo. As oficinas foram ministradas por Uriens Ravena, Juliane Frazão e Roberta Brandão. No final, os Warao apresentaram alguns produtos construídos ao longo das oficinas.

Entre o lúdico e exercícios práticos, o segundo dia de formação foi marcado por dinâmicas que abordaram aspectos da comunicação interna do Conselho. A facilitação foi conduzida por Clémentine Maréchal e Vitor Gonçalves, antropólogos e analistas socioambientais do IEB.

“Após realizarmos alguns exercícios e jogos interativos, revisamos o regimento interno do Conselho a partir das contribuições dos Warao e terminamos o dia com um exercício para eles pensarem os acordos de convivência e comunicação nas suas comunidades”, conta Clémentine Maréchal (IEB).

“Os Warao foram divididos por comunidades e identificaram os principais problemas de comunicação e tentaram elaborar soluções através de possíveis acordos. Alguns elementos trazidos por eles foram muito interessantes, como por exemplo a existência de uma regulação própria nas comunidades Warao na Venezuela em caso de violências contra a mulher ou outros atos considerados como crimes ou delitos pelos Warao”, complementa a antropóloga.

O telefone sem fio foi uma das dinâmicas utilizadas para estimular uma comunicação clara entre os conselheiros e conselheiras do Conselho Warao Ojiduna

No terceiro dia, Manuel Amaral, coordenador executivo do IEB, ministrou uma oficina sobre os desafios para as organizações comunitárias acessarem financiamento, abordando questões de fortalecimento organizacional e gestão eficaz de recursos. Os conhecimentos foram complementados no período da tarde, com uma oficina sobre escrita de projetos, ministrada por Wilson César, integrante da Escola de Conselhos do Pará da Universidade Federal do Pará (UFPA). No quarto e último dia, Wilson César e Gilberto Suzuki (Cesupa) apresentaram ferramentas para gestão financeira de organizações indígenas.

“O evento serviu como espaço para refletir sobre os desafios de fortalecimento organizativo do Conselho Warao Ojiduna para acessarem e fazerem boa gestão de recursos para que possam implementar projetos de vida para os Warao. Além disso, reafirmar o compromisso do IEB com o Conselho, visando sua incidência em espaços de discussões para atrair políticas públicas para o desenvolvimento do povo Warao”, analisou Manuel Amaral, do IEB.

Coordenador executivo do IEB, Manuel Amaral falou sobre a importância da elaboração de projetos

Coordenadora do Conselho Warao Ojiduna, Isneiris Nuñez avalia que a formação representa mais um passo para o fortalecimento interno do Conselho. “Nós estamos buscando autonomia, uma educação boa, saúde boa, terreno bom, para que possamos seguir com os nossos costumes, nossa ancestralidade. Então para nós é muito importante estarmos aqui, nos fortalecendo, para melhorar a luta do povo Warao e o nosso bem viver”, reflete Isneiris.

Inseiris Nuñez entrega Plano de Ação do Conselho Warao Ojiduna para Carlinhos Luz (MST)

O conselho Warao Ojiduna representa mais de 800 indígenas Warao, entre crianças, jovens e adultos, situados nos municípios de Belém, Ananindeua, Benevides e Abaetetuba. Para Freddy Cardona, o Conselho possibilita a visibilidade à luta Warao por acesso a direitos. “Queremos que seja atendida cada comunidade, cada criança, cada adolescente e cada pessoa da terceira idade. Nessa atividade que estamos realizando eu aprendi muito, vou ter mais experiência para buscar essa força na organização”, conclui Freddy.

Próximos passos – O Formar Warao segue o princípio da Alternância Pedagógica, onde os tempos e espaços de formação são alternados com o Tempo Comunidade (TC), visando uma problematização da realidade e à reflexão a partir dos conhecimentos técnico-científicos obtidos durante a realização das etapas de formação presencial. Após a etapa presencial do segundo círculo do Formar Warao, os conselheiros e conselheiras seguem para o Tempo Comunidade, que será dedicado à elaboração de acordos de convivência junto às comunidades.

 

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