No segundo círculo do Formar Florestas de Vida, lideranças de sete municípios participaram de atividades sobre geoprocessamento, monitoramento territorial e troca de experiências entre comunidades tradicionais.
“Eu consegui identificar até o meu território lá no mapa, o meu pedacinho.” Foi diante da tela de um computador, durante uma atividade de mapeamento territorial, que a agroextrativista Cosmerina percebeu algo que, até então, parecia distante da realidade de muitas comunidades tradicionais do Marajó: transformar o conhecimento vivido sobre o território em informação organizada, registrada e capaz de apoiar o planejamento comunitário.
Entre os dias 20 e 24 de maio, 35 lideranças de sete municípios marajoaras participaram, em Portel (PA), do segundo círculo do curso “Formar Florestas de Vida”. A formação reuniu representantes de comunidades tradicionais, assentamentos agroextrativistas e territórios quilombolas dos municípios de Portel, Breves, Gurupá, Salvaterra, Soure, Ponta de Pedras e São Sebastião da Boa Vista.
Realizada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) e o Centro de Análise de Crimes Climáticos (CCCA), a iniciativa integra o projeto Florestas de Vida, apoiado pela Rainforest Trust. A programação contou com a participação da promotora de Justiça Ione Nakamura, do Núcleo Agrário e Fundiário do MPPA.
Neste segundo círculo, os participantes aprofundaram discussões sobre uso sustentável dos recursos naturais e ferramentas de geoprocessamento voltadas à gestão territorial.
Mapas para reconhecer e planejar o território
Durante as atividades, as lideranças aprenderam a utilizar ferramentas de construção de mapas digitais e interpretação de dados territoriais, associando informações técnicas ao conhecimento acumulado pelas próprias comunidades.

Para Nandara Bortoli, analista do Centro de Análise de Crimes Climáticos (CCCA), o objetivo é aproximar as comunidades de instrumentos que possam fortalecer processos locais de organização e planejamento.
“O objetivo é que as comunidades consigam se enxergar no mapa, entender o território onde vivem e transformar essas informações em ferramentas de incidência e planejamento”, afirma.
A atividade mobilizou experiências práticas de localização de áreas produtivas, identificação de usos do território e reconhecimento de espaços ambientalmente estratégicos para as comunidades.
Para Cosmerina D’Ávila, participante da formação e moradora de Ponta de Pedras, a experiência de visualizar o próprio território no mapa foi um dos momentos mais marcantes da semana.
“Eu consegui identificar até o meu território lá no mapa, o meu pedacinho. Quando eu for lutar pelo meu território, eu tenho argumentos para dizer: ‘olha, me pertence bem aqui’”, relata.

Conhecimento que retorna às comunidades
O curso prevê atividades presenciais e ações desenvolvidas nos próprios territórios participantes. A proposta é que os conhecimentos compartilhados durante os encontros sejam replicados nas comunidades, fortalecendo iniciativas locais de organização territorial e gestão ambiental.
Para Soniele Souza, integrante de uma associação extrativista de Gurupá, uma das principais contribuições da formação é justamente transformar conhecimentos cotidianos em instrumentos mais estruturados de planejamento.
“A gente conhece o nosso território, mas muitas vezes não consegue transformar isso em documentação. Agora a gente vai conseguir fazer esse mapeamento”, afirma.
Ao longo dos próximos meses, os participantes seguirão desenvolvendo atividades em seus territórios até o terceiro círculo formativo do curso, que abordará temas relacionados à governança socioambiental, participação social e articulação com políticas públicas voltadas aos territórios coletivos do Marajó.
A próxima etapa discutirá estratégias de fortalecimento das organizações comunitárias, espaços de governança territorial e mecanismos de diálogo entre comunidades, poder público e outros atores sociais.
De acordo com Marcos Silva, do Instituto Internacional de Educação do Brasil, a proposta da formação é fortalecer processos já conduzidos pelas próprias comunidades marajoaras.
“O curso foi pensado a partir das demandas apresentadas pelos próprios territórios. A ideia é fortalecer ferramentas de gestão territorial, organização comunitária e troca de experiências entre as lideranças”, explica.


