Implantados nas comunidades Santa Rosa e Camaraú, na zona rural de Cachoeira do Arari (PA), microssistemas movidos a energia solar levam água às casas e passam a ser mantidos pelos próprios moradores.
Em municípios do arquipélago do Marajó, no Pará, o acesso à água tratada ainda é limitado. Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) apontam que apenas 12,9% da população de Cachoeira do Arari*, por exemplo, possui água encanada.
Na comunidade Camaraú, na zona rural de Cachoeira do Arari, essa era a realidade vivida por Adriana Batalha. Sem água encanada, ela costumava buscar água na casa de vizinhos, carregando grandes recipientes para conseguir dar conta das tarefas domésticas. “Eu carregava em dois boiões grandes de sabão para conseguir fazer as coisas em casa”, lembra.

Hoje, a água chega direto às casas da comunidade em que mora e tarefas simples do dia a dia, como tomar banho ou lavar a louça, deixaram de depender de baldes cheios trazidos de outras casas. “Quando vi a água saindo do chuveiro, foi uma maravilha”, conta Adriana.
A mudança aconteceu com a implantação de Tecnologias Sociais que envolvem microssistemas comunitários de abastecimento, que captam água de poço semiartesiano e utilizam bombas movidas a energia solar para abastecer reservatórios que distribuem água para as casas da comunidade.
Ao todo, foram instalados três microssistemas comunitários de abastecimento: dois na comunidade Camaraú e um em Santa Rosa. Cada sistema possui reservatório com capacidade de cinco mil litros. Todas as residências também receberam sistemas de filtragem domiciliar que atendem um total de 50 famílias das duas comunidades. O bombeamento prioriza o uso de energia solar, com possibilidade de conexão à rede elétrica quando disponível.
“A falta de água e as falhas no fornecimento de energia afetam diretamente a saúde, o trabalho e a rotina das famílias nessas comunidades. Por isso, a implantação das tecnologias sociais também buscou fortalecer a organização comunitária para que os próprios moradores possam gerir e cuidar dos sistemas”, afirma Raphael Castro, analista socioambiental do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB).

Antes da chegada da Tecnologia Social, conseguir água potável exigia esforço diário de muitas famílias. Em alguns casos, era preciso percorrer longas distâncias ou depender de poços compartilhados entre várias casas.
Na comunidade Camaraú, um único poço chegou a atender diversas famílias. “Era um poço para várias casas. Quando a água faltava, a gente tinha que esperar ela assentar para poder usar”, lembra a moradora Maria Alice.
Em Santa Rosa, também na zona rural de Cachoeira do Arari, a situação exigia deslocamentos ainda maiores para buscar água. “Eu pegava água a mais ou menos três quilômetros daqui”, conta Luiz Alberto Serra. “Quando falaram que poderia ter esse projeto, a comunidade toda se abraçou para ajudar.”
Gestão comunitária
Em Camaraú, os moradores já discutem como organizar essa responsabilidade coletiva. “Quando precisar, a comunidade se reúne para cuidar”, diz Raimundo Batalha, morador da comunidade.
“A gente vai precisar fazer reunião para decidir quem limpa a caixa e avisar quando for desligar a água para fazer a manutenção”, explica Maria Alice.
Para Marvson Andrade, da Fundação Avina, a formação dos moradores é parte essencial do projeto. “A comunidade recebe orientações sobre como usar e fazer a manutenção do sistema. Com esse processo, a ideia é que ele continue funcionando por muitas gerações”, afirma.
Para os moradores, o sistema resolve um problema antigo do dia a dia. Para quem acompanha iniciativas de acesso à água na região, experiências como a de Camaraú e Santa Rosa – e também em Breves e Portel – ajudam a testar soluções que podem orientar políticas públicas de abastecimento em áreas rurais do Marajó.
A iniciativa integra o Águas do Marajó, um componente do Projeto Marajó Resiliente, que busca testar soluções comunitárias de acesso à água para consumo humano e produção em áreas rurais do arquipélago.
O Marajó Resiliente é realizado pela Fundação Avina em parceria com o Instituto Belterra, o IEB e a Conexsus, com financiamento do Fundo Verde do Clima (GCF).
No componente voltado ao acesso à água, a iniciativa também conta com o apoio da The Coca-Cola Foundation e da Global Water Challenge.
*Monitor ODS Pará 2023 – Fapespa. Disponível para consulta no link: https://monitorodspa.fapespa.pa.gov.br/legado/2023/cachoeira-do-arari-agua-potavel-e-saneamento/


