
Curso une formação social, práticas agroextrativistas e fortalecimento de lideranças nos assentamentos federais do estado
Com o filho pequeno nos braços, Rosane de Souza Correia, moradora do assentamento Matão do Piaçaca, participou ativamente da primeira etapa do FORMAR Raízes, formação realizada entre os dias 6 e 8 de junho, no Centro Diocesano de Macapá (AP). “Sempre quis estudar e ocupar esses espaços, mas tinha dificuldade porque ele ainda mamava. Ser acolhida aqui, com apoio para cuidar do meu filho enquanto eu prestava atenção em tudo, foi muito importante”, contou emocionada a tesoureira da associação local.


O FORMAR Raízes é uma ação do projeto Enraizando o Desenvolvimento Sustentável no Estado do Amapá, implementado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e organizações parceiras, com foco em quatro assentamentos federais: Manoel Jacinto, Matão do Piaçaca, Pancada do Camaipi e Munguba. A iniciativa articula formação social, manejo sustentável, economia da sociobiodiversidade e organização comunitária, com abordagem sobre gênero, juventude e participação social. A meta é formar 40 agentes multiplicadores nesses territórios.
Primeira etapa: cidadania e governança territorial
O primeiro círculo formativo abordou conceitos como cidadania, políticas de reforma agrária e território, relacionando a história das comunidades com seus desafios atuais. Durante três dias, os participantes refletiram sobre a estrutura fundiária, o papel das associações e o protagonismo das mulheres e dos jovens.
Para Ana Gracielle dos Santos, do PA Munguba, a capacitação vai fortalecer tanto sua atuação comunitária quanto o curso técnico em agropecuária que ela realiza com apoio do Pronera. “Vamos construir um relatório e desenvolver um projeto que articule o que aprendemos aqui com a formação que já temos. Isso fortalece a nossa atuação nos dois espaços.”
Educação popular e reconhecimento do território
O FORMAR Raízes adota metodologia baseada em alternância pedagógica, com momentos presenciais e atividades práticas nos territórios. Os conteúdos foram apresentados de forma dialogada e crítica, promovendo a troca de experiências entre os educandos e facilitadores. Além de aulas e rodas de conversa, a programação contou com a “Noite de Cultura e Conhecimento Camponês”, em que os próprios participantes compartilharam vivências, saberes e expressões culturais.
A jovem Aldete Pitanguense, do PA Manoel Jacinto, destacou o impacto da formação para sua atuação futura. “Aprendi muito sobre a história do assentamento, sobre como era antes e como está agora. Isso vai me ajudar a seguir junto com os colegas na luta pelos nossos direitos”, afirmou.
Práticas sustentáveis e comunicação contra a desinformação
A formação também envolveu diálogos sobre manejo de açaí em Sistemas Agroflorestais (SAFs) — atividade que será aprofundada no segundo momento do curso — e sobre o papel da comunicação na governança territorial. Durante a micro-oficina, foi debatido como identificar e combater a desinformação nos assentamentos. A partir disso, os participantes compartilharam experiências de notícias falsas que impactam o cotidiano rural, como boatos sobre o fim da aposentadoria rural ou falsas promessas de regularização fundiária.
Além disso, vídeos como “Acorda Raimundo, Acorda!!!” (https://www.youtube.com/watch?v=snLsvVfF9X8) e “Tem floresta em pé, tem mulher!” (https://www.youtube.com/watch?v=cOIbre5jdDA) ajudaram a provocar reflexões sobre o papel da mulher na luta pela terra e pelo território.
Parceiros e caminhos coletivos

A Amazonbai, cooperativa regional do Amapá, é parceira do projeto e conduzirá parte das ações do “Tempo Comunidade”, com oficinas de manejo e conservação da biodiversidade. Representando a organização, Amiraldo Picanço falou sobre a importância de construir políticas públicas junto com os produtores: “O estado ainda carece de políticas para o setor florestal. A gente está nesse processo de debate tentando ajudar na construção do que o Amapá precisa.”
Ele também reforçou a relevância do protagonismo feminino na Amazônia e agradeceu ao IEB pela parceria: “Esse trabalho com gênero é muito importante nesse momento, para enfrentar desigualdades e valorizar as lideranças femininas nas comunidades.”
A cartilha produzida pela Amazonbai, com conteúdos da formação, será lançada no dia 20 de junho e ficará disponível nas redes sociais e site da organização.
O Projeto Raízes é financiado por meio de uma operação de crédito entre o Governo do Estado do Amapá e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES ). Ou seja, trata-se de um investimento público estadual com recursos provenientes de um contrato firmado com o BNDES. Já a iniciativa nomeada Enraizando Amapá é executada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e organizações parceiras. O apoio financeiro ao Enraizando Amapá decorre de uma seleção pública promovida pelo BNDES.
O Enraizando Amapá ainda conta com o apoio das organizações parceiras para o desenvolvimento deste projeto, sendo que em 2025 estarão em campo, o Instituto Terroá, Grupo de Políticas Públicas da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq – GPP), Universidade Estadual do Amapá (UEAP) e A cooperativa dos produtores extrativistas do Bailique e Beira Amazonas (AMAZONBAI). Além da ajuda fundamental das organizações dos assentamentos, como a Associação Ambiental e Agroextrativista do Assentamento da Pancada do Camaipi (AAPCI), Associação de Produtores Agroextrativistas e Pescadores da Agrovila do Assentamento Pancada do Camaipi (ASPROEX), Associação de Produtores Agroextrativistas e Pescadores da Agrovila do Assentamento Pancada do Camaipi (ASPROEX), Associação dos Agricultores do Munguba (AAM), Associação dos Produtores Rurais do Munguba (APRM), Associação dos Produtores Rurais do Assentamento Munguba (APRAM), Associação dos Agricultores do Projeto de Assentamento Manoel Jacinto (AAPAMJ), Associação dos Produtores Rurais da Comunidade Bela Vista (AMPROBEL) e Associação dos Produtores Rurais da Comunidade Bela Vista o Matão do Piaçacá (APROVALE)


