Projeto já implantou 185 Tecnologias Sociais de saneamento em áreas rurais de Breves e Portel. A iniciativa é realizada pelo IEB, em parceria com o Fundo Amazônia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Fundação Banco do Brasil.
Até pouco tempo, parte das famílias da comunidade Monte Hermon, no município de Portel, no arquipélago do Marajó (PA), consumia água diretamente do rio. Nos períodos mais críticos, episódios de vômito e diarreia eram frequentes entre crianças e adultos.
“Antes era muito comum ter casos de vômito e diarreia por causa da água do rio nessa época do ano. Depois da água tratada, isso deixou de acontecer”, relata Delcilene Silva, moradora da comunidade.
A mudança veio com a implantação de sistemas de abastecimento e saneamento que passaram a atender 51 famílias da comunidade. Além da água filtrada chegando às casas, foram construídos banheiros com destinação adequada dos resíduos — uma alteração que impactou não apenas a saúde, mas a rotina e a segurança dos moradores.

“Evita a contaminação do solo, protege nossas crianças e dá segurança às mulheres e aos idosos, que antes tinham que entrar no meio do mato, subindo ou descendo ladeiras. É uma mudança estrutural”, afirma Gracionice Correa, presidente da associação local. Antes, muitas famílias precisavam se deslocar para áreas afastadas, enfrentando chuva, terreno irregular e risco de acidentes.
O cenário regional ajuda a dimensionar o impacto da iniciativa. Nos municípios do arquipélago do Marajó, a rede geral de esgoto atende menos de 1% dos domicílios, segundo dados censitários. Em cidades como Portel e Breves, a maior parte das famílias depende de soluções alternativas ou realiza o descarte de dejetos diretamente no solo e em cursos d’água.
Entre 2000 e 2010, o uso de fossas sépticas cresceu, mas permaneceu em patamares baixos. Em Portel, por exemplo, passou de 6,41% para 14,10% dos domicílios no período. A ausência de rede estruturada faz com que o saneamento continue sendo um dos principais desafios da região, com impactos ambientais e de saúde pública.
Como funciona o sistema
Na comunidade Monte Hermon, a intervenção combina perfuração de poço semiartesiano, dois microssistemas de abastecimento com energia solar autônoma, filtragem para consumo humano e distribuição de água encanada até as residências. Cada poço tem capacidade suficiente para abastecer todas as famílias atendidas.

A escolha técnica priorizou soluções de baixo custo de manutenção e maior durabilidade. “Optamos por uma solução com menor dependência de peças caras e menor custo futuro para a comunidade. A ideia foi garantir autonomia no longo prazo”, explica o engenheiro ambiental Giordan Costa, responsável pela execução das obras.

Distante da sede do município (3 horas de lanche a até 10 horas de barco), implantar a estrutura exigiu logística fluvial para transporte de materiais e mobilização de mão de obra local. A obra mobilizou até 14 trabalhadores simultaneamente, além da participação de moradores na organização das frentes de trabalho. A cozinha comunitária, impulsionada pelo projeto Sanear Marajó, também foi contratada para fornecer alimentação à equipe, gerando renda interna durante o período de construção.
Expansão em Breves e Portel
A experiência de Monte Hermon integra uma etapa mais ampla do projeto Sanear Marajó, que já implantou 185 sistemas de saneamento em áreas rurais de Breves e Portel. Em Portel, as estruturas foram construídas nas comunidades Santo Ezequiel Moreno (45 unidades), Menino Deus Lega (49) e Monte Hermon (51). Em Breves, outras 40 foram instaladas ao longo da PA-159. A iniciativa também incluiu cinco microssistemas autônomos de abastecimento de água, ampliando o acesso coletivo em territórios rurais.
Segundo Marcos Silva, do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), a escolha das comunidades priorizou áreas ainda não atendidas por políticas estruturadas de saneamento e que apresentavam organização comunitária capaz de garantir a continuidade da tecnologia.
“Antes do início da implementação, são realizados acordos com diferentes instâncias comunitárias, aliadas a processos de capacitação para manutenção das Tecnologias Sociais. Em cada território, o IEB utiliza uma abordagem de fortalecimento das organizações locais, integrando diferentes Tecnologias Sociais”, afirma Marcos.
“Em Breves e Portel, em parceria com as organizações locais, promovemos a integração entre viveiros, quintais produtivos, cozinhas agroextrativistas e as estruturas de saneamento”, complementa Marcos.
A melhoria nas condições sanitárias também repercute na economia local. Monte Hermon, por exemplo, fornece alimentos para programas públicos como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com volume anual que, segundo estimativas da comunidade, pode ultrapassar 10 toneladas destinadas à merenda escolar.
Para quem trabalha com processamento de alimentos, a água tratada é condição básica para atender exigências sanitárias. “A água de qualidade não é detalhe, garante que a gente possa produzir com segurança”, destaca Sônia Maria, agricultora da comunidade. “Antes a gente não tinha banheiro adequado e consumia água sem tratamento. Hoje temos água de qualidade e uma estrutura que melhora o nosso trabalho e a nossa vida”.



