Agricultores familiares e quilombolas constroem estratégias de comercialização justa na Chapada dos Veadeiros

Projeto Baru da Chapada oferece assessoria técnica à Associação Quilombo Kalunga e à CooperFrutos do Paraíso para apoiar no fortalecimento de estratégias de comercialização e geração de renda

No Cerrado, comercializar não é apenas vender. É decidir como, para quem, por quanto e em que condições o fruto do trabalho coletivo circula. É transformar produção em renda sem romper laços comunitários, sem desvalorizar saberes e sem perder o controle sobre o próprio território. Entre armazéns, feiras, cooperativas e mercados, a comercialização se torna um campo estratégico onde se disputam autonomia, justiça e futuro.

Imagem 1: Produção de agricultores familiares e extrativistas da Chapada dos Veadeiros. Foto: Arquivos CooperFrutos

É a partir dessa compreensão que vem sendo desenvolvida a assessoria técnica da Central do Cerrado, apoiada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), às parceiras Associação Quilombo Kalunga e a cooperativa CooperFrutos do Paraíso.

A iniciativa acontece no âmbito do projeto Baru da Chapada, e tem como objetivo promover a conservação do Cerrado e a geração de renda por meio do fortalecimento da cadeia produtiva do baru e de outros frutos da sociobiodiversidade, articulando organização comunitária, estratégias de mercado e valorização dos territórios.

Imagem 2: Roda de conversa sobre estratégias de diversificação de mercados durante a assessoria técnica. Foto: Camila Behrens/IEB

Armazém Quilombo Kalunga: governança, comercialização e organização coletiva

Em Cavalcante (GO), a assessoria técnica se concentra no fortalecimento do Armazém Quilombo Kalunga, inaugurado em março de 2025, e que vem se consolidando como um espaço estratégico de comercialização, organização produtiva e valorização da produção local. 

Nos dias 25 e 26 de janeiro, foi realizada a Oficina de Estratégias de Comercialização com a Associação Quilombo Kalunga (AQK), voltada à construção do manual de funcionamento do armazém e à definição de seu modelo de gestão.

A atividade aprofundou debates sobre governança, formação da comissão de gestão, formas de contratação de equipe, precificação, pagamento aos produtores, capital de giro e comunicação com a comunidade. 

Imagem 3: Aula expositiva com participantes da assessoria na AQK. Foto: Camila Behrens/IEB

Para Carlos Pereira, presidente da Associação, o processo de construção coletiva e a troca com organizações que já atuam em mercados solidários têm sido fundamentais.

“Essa parceria é muito importante porque a gente vai aprendendo com quem já está no caminho há mais tempo, construindo estratégias de comercialização, agregando valor, identidade e cultura aos nossos produtos. 

Paralelamente, ele complementa sobre a importância de que os produtos comercializados, além de terem qualidade, sejam acessíveis à própria comunidade, e não apenas aos públicos com maior poder aquisitivo.

“Para nós, não adianta um kalunga produzir um mel, por exemplo, e vender ele no armazém por um preço que outro kalunga não possa pagar. O comércio precisa ser justo para quem produz, para quem consome, para quem transporta, para todo mundo.”

Imagem 4: Troca de experiências entre participantes da assessoria na AQK. Foto: Camila Behrens/IEB

O armazém funciona como uma ponte entre quem produz no campo e quem compra na cidade, especialmente os turistas. Henrique Kalunga, engenheiro agrônomo e morador do território Kalunga, destaca que o espaço amplia o poder de venda dos produtores e fortalece a agricultura familiar.

“Aqui os produtores vão ter um ponto no centro urbano para comercializar, sem precisar ficar o dia todo na cidade. Com a estruturação de uma cooperativa, será possível acessar políticas públicas como o PAA e o PNAE, emitir nota fiscal, vender pela internet, comprar insumos coletivamente e aumentar a renda da comunidade.”

Imagem 5: Participantes da assessoria técnica com a Associação Quilombo Kalunga (AQK). Foto: Camila Behrens/IEB

Diversificação de mercados com a CooperFrutos do Paraíso

Em Alto Paraíso de Goiás, a assessoria da Central do Cerrado acontece junto à CooperFrutos do Paraíso, cooperativa agroecológica de agricultores familiares e extrativistas fundada em 2006, que atua na promoção da economia solidária e na valorização da sociobiodiversidade. Nos dias 29 e 30 de janeiro, foi realizada a Oficina de Diversificação de Mercados, com foco na construção de estratégias para ampliar e qualificar os canais de comercialização da cooperativa.

Imagem 6: Troca de experiências entre cooperados durante a assessoria na CooperFrutos do Paraíso. Foto: Camila Behrens/IEB

A atividade buscou fortalecer e complementar as vendas já realizadas por meio de mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), ao mesmo tempo em que explorou outras possibilidades, como a venda direta, a organização de cestas e o fortalecimento de circuitos curtos.

Para a presidente da CooperFrutos do Paraíso, Thamilis de Menezes, a assessoria tem contribuído diretamente para enfrentar um dos principais desafios da cooperativa.

“Essas assessorias têm sido muito importantes para nós, principalmente porque estamos tratando de um tema que é um gargalo para a gente: a diversificação de mercados para ampliar a geração de renda. Esse processo tem sido muito positivo, principalmente pela forma como as pessoas estão se envolvendo e assumindo responsabilidades, o que é essencial para a cooperativa, porque fortalece o sentimento de pertencimento.”

Imagem 7: Atividade de construção de estratégias de comercialização com a CooperFrutos do Paraís. Foto: Camila Behrens/IEB

A diretora comercial da cooperativa, Nayara Gomes, ressalta que ampliar os canais de comercialização também significa dar mais segurança para quem produz.

“A diversificação dos mercados é muito importante para a Cooperfrutos porque isso significa aumentar a produção e venda dos produtores. Hoje a gente trabalha com o PAA e o PNAE, que são chamadas públicas, e o volume de compra muitas vezes acaba sendo baixo. Com isso, muitos produtores ficam com receio de produzir e depois perder seus produtos. Quando a gente diversifica as formas de venda, a gente consegue estimular essa produção, aumentar a renda dos produtores e dar mais segurança para eles. Essas assessorias e formações estão ajudando muito nisso, mostrando que a gente pode ir muito além do que já está fazendo hoje.”

Imagem 8: Participantes da assessoria técnica com a CooperFrutos do Paraíso. Foto: Arquivos IEB

Complementando a perspectiva das lideranças locais, para Luis Carraza, coordenador executivo da Central do Cerrado e facilitador das assessorias, o processo desenvolvido no âmbito do Projeto Baru da Chapada tem como foco transformar formação em prática concreta nos territórios.

“A assessoria está ajudando a transformar os aprendizados em ações concretas, fortalecendo os vínculos entre os cooperados e consolidando as organizações. Na CooperFrutos, estamos construindo protocolos de diversificação de mercados e desenhando estratégias de logística e distribuição para ampliar o escoamento da produção. Já no território Kalunga, o trabalho tem sido voltado à elaboração participativa do manual de funcionamento do Armazém Kalunga, definindo governança, critérios de compra, pagamento e estratégias de venda que garantam viabilidade econômica e respeito à organização comunitária.”

Complementando a perspectiva institucional do projeto, Michael Jackson, coordenador adjunto do Programa Povos do Cerrado no IEB, destaca a importância da iniciativa para o fortalecimento das organizações e da geração de renda nos territórios.

“Essa iniciativa cria condições e ferramentas para organizar a produção, melhorar a comercialização e aumentar a escala. Muitos produtos ficam distantes dentro das comunidades, e a ideia é justamente organizar isso junto com as associações para que eles cheguem às cidades e encontrem novos mercados. A diversificação de clientes aumenta a renda de quem produz, valoriza os saberes e ajuda essas pessoas a permanecerem bem nos seus territórios, com dignidade, dando mais robustez a um trabalho que elas já vêm fazendo.”

Imagem 9: Luis Carrazza facilitando atividade sobre estratégias de mercado e organização coletiva. Foto: Camila Behrens/IEB

Armazéns, mercados e salvaguardas

De forma transversal, as ações de assessoria também dialogam com a proteção e a valorização do conhecimento tradicional associado à sociobiodiversidade. Está prevista como próxima etapa uma oficina específica sobre salvaguardas, abordando marcos legais nacionais e internacionais, direitos de povos e comunidades tradicionais e repartição de benefícios. 

Ao integrar organização coletiva, estratégias de mercado e formação em direitos, o Projeto Baru da Chapada reafirma a comercialização como instrumento de autonomia, justiça econômica e fortalecimento territorial, tendo como eixo central o protagonismo de povos e comunidades tradicionais do Cerrado na construção de seus próprios caminhos de desenvolvimento.

O Projeto Baru da Chapada é executado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Seu objetivo é promover a conservação do Cerrado e a geração de renda para povos e comunidades tradicionais, tendo a castanha-do-baru e outros frutos da sociobiodiversidade como elementos centrais. No âmbito do projeto, as assessorias de mercado estão sendo realizadas pela Central do Cerrado, contribuindo para o fortalecimento da organização produtiva, das estratégias de comercialização e da geração de renda nos territórios.

Texto: Camila Behrens

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