Edital do Projeto “Entre Ciências” recebe 67 propostas de arranjos intercientíficos e revela alta demanda e interesse de PIPCTAFs para pesquisa colaborativa intercultural em sociobiodiversidade

Iniciativa apoiará pesquisas colaborativas interculturais em sociobiodiversidade de oito arranjos entre organizações comunitárias e academia, com protagonismo dos povos e comunidades
Encontro de pareceristas, equipe do IEB, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e parceiros, realizado em Brasília. Foto: Acervo IEB.

Como construir pontes entre os conhecimentos de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares (PIPCTAFs) e o conhecimento da academia, reconhecendo a contribuição de diferentes sistemas de saber e fortalecendo a diversidade de olhares sobre a sociobiodiversidade brasileira?

Essa é a provocação central do Projeto “Entre Ciências: Territórios de Saber em Diálogo”, projeto que busca fortalecer o protagonismo desses grupos na pesquisa sobre biodiversidade, ampliando o diálogo entre diferentes sistemas de conhecimento como estratégia para a conservação dos biomas e o cuidado com os territórios.

Lançado em novembro de 2025 durante a COP 30, e aberto até o dia 6 de fevereiro, o edital recebeu 67 propostas de arranjos intercientíficos. Desse total, 60 foram habilitadas e seis iniciativas foram selecionadas para participar do programa, que já contava com dois arranjos piloto selecionados. As propostas contempladas receberão formação continuada em pesquisa intercultural, três anos de bolsas de pesquisa para pesquisadores e pesquisadoras dos territórios, intercâmbios entre iniciativas e apoio à gestão de dados e aos processos e protocolos comunitários relacionados à pesquisa.

“Recebemos mais de 60 propostas dos biomas Amazônia e Cerrado, o que demonstra o grande interesse e a relevância do tema. Infelizmente, ainda não conseguimos apoiar todas as iniciativas neste momento, mas esse retorno mostra a potência e a demanda existente nos territórios”, afirma Bruno Martinelli, servidor do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e coordenador do projeto Entre Ciências.

Coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e executado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), o Entre Ciências conta com a parceria institucional do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) por meio do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) é sub-executora do componente de gestão e governança de dados. O financiamento é do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), com implementação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

A construção participativa do edital

O processo começou muito antes da abertura das inscrições, com a construção coletiva do edital. Em agosto de 2025, representantes da academia e de organizações de Povos Indígenas, Comunidades Tradicionais e Agricultura Familiar (PIPCTAFs) participaram de uma oficina para discutir os rumos da chamada. A partir desse encontro, uma consultora acadêmica elaborou a primeira versão do edital, que foi revisada por sete representantes PIPCTAFs. Após ajustes e uma nova rodada de discussões em outubro, a versão final foi consolidada.

“É um edital muito diferente dos editais convencionais, porque traz a possibilidade de juntar os conhecimentos tradicionais com a ciência feita na academia, de uma maneira que seja horizontal, que não seja hierárquica”, afirma Carlos Bianchi, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), atuante na formação intercultural de professores e lideranças indígenas no Instituto de Formação Superior Indígena Takinahakỹ, e parecerista do edital Entre Ciências.

“A gente precisa avançar para uma pesquisa que não seja mais sobre as comunidades, mas com as comunidades, reconhecendo esses grupos como participantes legítimos da produção de conhecimento”, afirma Adriana Lima, mulher caiçara, educadora popular, pesquisadora local, representante de povos e comunidades tradicionais no Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e parecerista do edital Entre Ciências.

Com o edital finalizado, o lançamento ocorreu em 17 de novembro de 2025 durante a COP 30, com ampla comunicação em sites, redes sociais, WhatsApp e e-mails. Em dezembro, uma live de tira-dúvidas no YouTube orientou candidatos, e um documento de Perguntas Frequentes foi disponibilizado, com canal permanente para esclarecimentos. O prazo, inicialmente previsto para 31 de janeiro, foi estendido até 6 de fevereiro de 2026, quando se encerrou o recebimento das 67 propostas.

Após o encerramento das inscrições, a equipe do projeto analisou a documentação enviada e as propostas habilitadas seguiram para a análise técnica, realizada por pareceristas externos representantes da academia e/ou de organizações de PIPCTAFs.

“Aqui a gente tem a oportunidade de visibilizar a ciência dos povos e das comunidades e reconhecer que existem diferentes formas de produzir conhecimento. Esse encontro amplia as possibilidades de saber e de conhecer sobre os territórios”, afirma Carolina Levis, professora no programa de pós-graduação em Ecologia na UFSC, e consultora para a elaboração do edital e parecerista.

Como foi feita a seleção: as etapas do processo

A seleção das propostas foi organizada em duas etapas complementares, com critérios definidos no edital e aplicados por uma comissão de pareceristas com diferentes trajetórias.

Primeira etapa (análise quantitativa)

Cada proposta foi avaliada individualmente com base em critérios objetivos: protagonismo da organização proponente, qualidade do arranjo intercientífico, adequação aos objetivos do projeto, experiência da equipe e relevância para a conservação da sociobiodiversidade e gestão territorial. Cada proposta recebeu uma pontuação fundamentada nos parâmetros do edital.

Segunda etapa (análise qualitativa):

Os pareceristas se reuniram presencialmente em Brasília nos dias 10 e 11 de março para aprofundar a leitura das propostas, considerar suas particularidades territoriais e contextos específicos, e construir coletivamente uma visão sobre o conjunto de propostas submetidas ao edital. A análise qualitativa permitiu identificar padrões e especificidades que a avaliação individual não capturaria isoladamente.

“Ser parecerista, para a gente que é dos territórios, é também olhar propostas que refletem a nossa realidade. Esse diálogo mostra que o conhecimento dos povos indígenas e o conhecimento acadêmico são complementares, e não separados — eles se conectam e se fortalecem”, afirma Ângela Kaxuyana, mulher indígena do povo Kaxuyana, do Pará, na Amazônia, e parecerista do edital Entre Ciências.

Quem avaliou as propostas

A comissão responsável pela avaliação foi composta por um grupo plural de pareceristas, escolhidos para refletir a diversidade de saberes e experiências que o próprio projeto busca promover. Cada proposta foi avaliada por duplas compostas preferencialmente por um especialista indígena ou de comunidade tradicional e um representante da academia, que poderia ser um  especialista indígena ou de comunidade tradicional ou não. As duplas foram unidas prezando pela paridade de gênero e redução de potenciais conflitos de interesses. Após as avaliações individuais, cada dupla dialogou sobre as propostas analisadas e consolidou seus pareceres  durante o encontro presencial em Brasília. As 17 propostas com melhor pontuação foram discutidas em plenária com a Comissão Avaliadora e a equipe do projeto.

Analisar essas propostas tem sido um desafio muito positivo de estabelecer um diálogo entre a academia e as comunidades. Esse processo traz uma provocação para que a academia entenda melhor a realidade do contexto social e a dinâmica das comunidades, e também nos permite compreender o universo acadêmico. Essa troca tem sido muito positiva”, afirma Johnny Lima, pescador artesanal  e parecerista do edital Entre Ciências.

Resultados do encontro de avaliação

Ao final da oficina em Brasília, foram consolidados:

  • As análises quantitativa e qualitativa de cada proposta;
  • A lista de classificação das propostas submetidas;
  • Identificação de padrões e temas recorrentes no conjunto de propostas;
  • Subsídios para a decisão final de seleção;
  • Elementos para o aprimoramento de futuras edições do projeto.

Números da chamada

Por grupo:

Distribuição das 60 propostas elegíveis por grupo: povos indígenas (25), povos e comunidades tradicionais (28) e agricultura familiar (7).

Por bioma:

Gráfico de distribuição das 60 propostas elegíveis por bioma: Amazônia (35) e Cerrado (25).

Por estado:

Gráfico da distribuição das propostas elegíveis por estado, abrangendo 80 municípios nos biomas Amazônia e Cerrado.

Parcerias acadêmicas

As 60 propostas habilitadas envolveram 55 instituições de ensino e pesquisa como parceiras dos arranjos intercientíficos:

  • 27 Universidades Federais (UFAM, UFPA, UFMG, UnB, UFRR, UFMT, UFT, UFOPA, UFSC, UNIFESP, UFRJ, UFPB, UNIR, UFRPE, UFVJM, UFOP, UFJF, UFSCar, entre outras);
  • 8 Universidades Estaduais (UEMA, UEFS, UNEMAT, UEPA, UNIMONTES, UEG);
  • 9 Institutos Federais (IFNMG com múltiplos campi, IFAC, IFTO, IFMT, IFRR, IFAP, IFB, IFG);
  • 3 Institutos de Pesquisa Públicos (INPA, Fiocruz, EMBRAPA);
  • 3 Institutos da Sociedade Civil que contém pesquisa em seus objetivos (CIFOR-ICRAF, IPAM, ISA)
  • 5 Outras instituições.

Temáticas abordadas

As propostas contemplam as seguintes linhas temáticas (com múltipla escolha):

Tema Propostas
Conhecimentos, práticas e atividades comunitárias que mantêm e geram a sociobiodiversidade 44
Salvaguarda dos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade 39
Levantamentos da Biodiversidade voltados à gestão ambiental e territorial 35
Impactos socioambientais nos territórios 34
Uso e manejo sustentável da biodiversidade 33
Mudanças climáticas e ambientais 32
Estratégias de recuperação de territórios ameaçados 31
Cadeias produtivas da sociobiodiversidade 27

 

As 67 propostas recebidas revelam algo importante: há um campo promissor de pesquisa sendo construído a partir dos territórios, protagonizado por povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. São saberes que existem há muitas gerações, e que estão buscando canais de apoio para dialogar de forma mais estruturada com a ciência acadêmica. O número expressivo de propostas, vindas de 15 estados, com temas que cobrem desde a salvaguarda de conhecimentos até o monitoramento de impactos climáticos, mostra que essa é uma área de conhecimento viva, potente e que merece ser reconhecida, apoiada e investida. Que este edital seja o primeiro de muitos.

“A gente recebeu tantas propostas incríveis, o que evidencia a importância do tema e o interesse dos territórios. Isso também é um incentivo para que a gente faça um projeto muito bem feito e busque no futuro ampliar o número de iniciativas apoiadas”, afirma Adriano Maneo, analista socioambiental do IEB.

“Eu sinto que esse é só um primeiro momento, e saio esperançosa de que, a médio e longo prazo, essa iniciativa possa se expandir para mais projetos e outros biomas no Brasil”, afirma Carolina Levis.

Próximos passos

A partir dos resultados consolidados no encontro de pareceristas seis iniciativas foram selecionadas para se juntar aos dois arranjos pilotos já participantes do projeto. São elas:

Projetos piloto:

Vozes Kuikuro da Amazônia: co-construindo conhecimentos e integrando ciências para proteger o território e a sociobiodiversidade do Alto Xingu
Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu (AIKAX) + Museu Paraense Emílio Goeldi

Pesquisa colaborativa intercultural sobre os impactos socioambientais da UHE Belo Monte
Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX) + Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

Projetos selecionados no Edital Entre Ciências:

Esculateira dois mundos: Impactos dos projetos de desenvolvimento sobre as espécies importantes para a manutenção da cultura alimentar Kalunga
Associação Quilombo Kalunga (AQK) + Universidade de Brasília, representada pelos Programas de 1) Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (Mader); 2) Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (MESPT); e 3) Licenciatura em Educação do Campo (LEDOC).

Comunidades tradicionais, águas, clima e saberes no território do Alto Jequitinhonha, Cerrado mineiro
Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica – CAV + Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) + Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – Campus Almenara + Associação Comunitária de Desenvolvimento Educacional Familiar e Agropecuária de Veredinha – ACODEFAV

Conhecimentos indígenas e agroecologia no enfrentamento a crise fitossanitária da mandioca
Associação de Mulheres Indígenas em Mutirão – AMIM + Instituto Federal de Educação do Amapá – IFAP + Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé

Instituto de Ciências Baniwa e Koripako Medzeniako
Organização Baniwa Koripako Nadzoeri (Nadzoeri) + Universidade de Brasília (UnB) + Universidade Federal Fluminense + Faculdade de Educação — Universidade de São Paulo + Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN)

Formando pesquisadores guardiões da caça na Reserva Extrativista Cazumbá Iracema
Associação dos Seringueiros do Seringal Cazumbá (ASSC) + Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Acre (IFAC) + Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio

Cuidar para Permanecer: o protagonismo das mulheres retireiras no manejo ético do pirarucu
Coletivo Mulheres Retireiras do Araguaia + Instituto Juruá + Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia – (INPA)

O apoio do Projeto aos arranjos intercientíficos incluem:

  • Formação continuada em pesquisa intercultural;
  • Bolsas de pesquisa para pesquisadores e pesquisadoras locais;
  • Financiamento direto para implementação da pesquisa;
  • Intercâmbios entre territórios;
  • Apoio à gestão de dados e aos processos e protocolos comunitários relacionados à pesquisa.

Sobre o projeto: O Entre Ciências é uma iniciativa do MCTI em parceria com o IEB, MPI e MMA, com financiamento do GEF e implementação do PNUMA. Seu objetivo é apoiar arranjos intercientíficos liderados por povos indígenas e comunidades tradicionais para a produção colaborativa de conhecimentos sobre sociobiodiversidade nos biomas Amazônia e Cerrado.

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