Desafios e Resistência: O Projeto ENRAÍZA e a Luta das Comunidades Pantaneiras

Entre os dias 27 de outubro e 4 de novembro, o Projeto ENRAÍZA reuniu comunitários e lideranças do Pantanal para mapear as comunidades tradicionais da região e atualizar suas demandas frente aos impactos das mudanças climáticas.

O Pantanal, a maior área úmida contínua do planeta, é um bioma de extrema importância para a biodiversidade nacional e o equilíbrio climático. Sua rica diversidade ecológica, que inclui vastas planícies alagadas e uma infinidade de espécies, está intimamente ligada aos saberes e práticas de povos indígenas e comunidades tradicionais que há séculos habitam essa região.

Esses povos, com seus conhecimentos ancestrais sobre os ciclos da água, o manejo sustentável dos recursos naturais e a preservação do meio em que vivem, desempenham um papel fundamental na conservação do Pantanal. No entanto, esses modos de vida tradicionais, bem como o próprio bioma, vêm enfrentando ameaças crescentes, devido a modelos de desenvolvimento predatórios, queimadas ilegais e acelerada expansão da agropecuária industrial.

Pescadores da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira (RCTP) plantando árvores nativas para restaurar áreas degradadas. Foto: Camila Behrens

O Projeto ENRAÍZA: Apoio às Comunidades Tradicionais

É nesse contexto que surge o Projeto ENRAÍZA, uma iniciativa que visa fortalecer os modos de vida das comunidades tradicionais do Cerrado e Pantanal, ampliando suas habilidades de gestão territorial e ambiental. O projeto, realizado pelo IEB com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, tem como principais objetivos promover a inclusão socioprodutiva, a gestão territorial e o fortalecimento de quatro organizações comunitárias no enfrentamento às mudanças climáticas.

Agricultores familiares de Poconé (MT) reunidos em mutirão para plantio de mandioca. Foto: Camila Behrens

Entre 27 de outubro e 4 de novembro, o IEB promoveu encontros com comunidades tradicionais em Barão de Melgaço, Cáceres e Poconé, no Mato Grosso, em parceria com a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira (RCTP), organização beneficiária do projeto. As atividades buscaram mapear as comunidades da região e fomentar diálogos sobre os desafios enfrentados em seus territórios. Confira o vídeo abaixo e conheça a Rede e o impacto do Projeto Enraíza em suas iniciativas.

Desafios Enfrentados pelas Comunidades Pantaneiras

As dificuldades enfrentadas pelas comunidades pantaneiras são imensas. A seca prolongada, a redução das cheias do rio e os impactos das usinas hidrelétricas, como a de Furnas, que afeta a qualidade da água e os ciclos pesqueiros, têm prejudicado severamente os modos de vida tradicionais.

Além disso, segundo os pescadores da região, a “Cota Zero”, lei aprovada em 2023, que proíbe o transporte, armazenamento e comercialização de peixes nos rios do Mato Grosso, tem causado prejuízos a quem vivia da pesca. Segundo dados da Ecoa, essa medida afetou mais de 16 mil pescadores, que perderam sua principal fonte de sustento. Aldair Reais, que atuou como secretário na Colônia de Pescadores de Barão de Melgaço e foi eleito vice-prefeito do município para 2025, desabafou:

Recentemente, fomos muito prejudicados com a lei da “cota zero”, que proibiu a gente de pescar os nossos peixes. A gente vive dessa pesca há gerações. Esses peixes nem estavam em risco de extinção. Não tem estudo que prove isso. O governo proibiu a pesca e não nos deu nenhuma compensação. Essas situações acontecem e não tem ninguém para nos ajudar. Fomos deixados na mão. A “cota zero” foi a última pá de terra que jogaram em cima dos povos pantaneiros.

Mulheres e crianças de comunidade ribeirinha em Cáceres (MT) discutindo ações locais. Foto: Camila Behrens

A falta de chuva e o esgotamento dos poços artesianos têm dificultado a produção agrícola e a segurança alimentar de muitos, como relatou Roque Souza, agricultor familiar e membro da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira (RCTP):

A produção na roça praticamente parou porque não tem mais água. Não tem mais chuva, o rio não enche mais, até o poço artesiano secou. A gente está dependendo de caminhão-pipa, que às vezes fica mais de uma semana sem aparecer. Antigamente, a gente tinha seis meses de chuva. Agora, é só três meses e olhe lá.

Mutirão de plantio em Poconé (MT). Foto: Camila Behrens

Ações Práticas no Enfrentamento dos Impactos

O Projeto ENRAÍZA, em parceria com as comunidades locais, busca dar apoio às comunidades diante desses desafios. Ednalda Pereira, secretária executiva da Rede Pantaneira, destacou o profundo conhecimento dos pantaneiros sobre as águas e a importância de suas práticas tradicionais de manejo e conservação: 

Eles (alguns políticos) dizem que os pantaneiros estão acabando com o rio. Mas são os pantaneiros tradicionais que conhecem o ciclo da água. Quando é cheia, quando está seco, quando é o período de reprodução dos peixes… A gente não quer acabar com o rio. A gente depende dele pra viver. Quem acaba com o rio é quem vem de fora só pra explorar e lucrar em cima.

Onça-pintada avistada em Cáceres (MT). Foto: Camila Behrens

A produção de materiais informativos, o mapeamento das comunidades tradicionais, a capacitação em elaboração de projetos e o apoio a ações de enfrentamento da vulnerabilidade diante de emergências climáticas, são algumas das principais frentes do projeto. Outro destaque é o apoio na divulgação e realização de atividades do ‘Viveiro Véio do Rio’, berçário de mudas nativas dedicado à restauração do Pantanal. Conheça essa iniciativa no vídeo abaixo:

A Luta pela Conservação do Pantanal e a Valorização dos Saberes Tradicionais

A luta das comunidades tradicionais pantaneiras é também uma luta pela preservação do Pantanal, um bioma de enorme importância para a biodiversidade e o equilíbrio climático do  Brasil. A valorização dos saberes tradicionais, a integração com novas tecnologias de gestão ambiental e a formação de redes de apoio são essenciais para enfrentar os desafios que se colocam diante dessas comunidades e do próprio bioma.

A continuidade das ações do Projeto ENRAÍZA pode ser acompanhada pelo instagram do IEB ou aqui pelo site. Acompanhe também a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira (RCTP) em seu site oficial clicando aqui, ou em seu instagram, clicando aqui.

Texto: Camila Behrens

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