Seminário realiza formação dos educadores(as) das EFA’s do Amapá

No evento ocorreu o manifesto das EFAs e a assinatura da “Carta de Macapá”

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Essas são palavras do educador Paulo Freire, defendidas e vivenciadas pelas pessoas que fazem das Escolas Famílias (EFA’s) um sinônimo de resistência no Amapá.

 Para discutir esta modalidade de educação que transforma e as relações entre a pedagogia da alternância e a agroecologia, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) em parceria com a Rede das Associações das Escolas Família do Amapá (RAEFAP) e a Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), promoveram no período de 17 a 20 de maio, em Macapá/AP, o Seminário de Formação dos (as) Educadores (as) das Escolas Família do Estado (EFAs). O evento teve como objetivo promover formação pedagógica de educadores (as), visando o fortalecimento da educação do campo nas Escolas Famílias do Amapá. Participaram do evento membros da sociedade civil e de instituições públicas.

EFAs no Amapá

No Brasil, historicamente a educação no campo foi negligenciada, apesar de ser um direito do cidadão, um dever do Estado e de estar assegurada na constituição Federal de 1988, que estabelece igualdade das condições de acesso e permanência na escola para todos.

Dentro desse contexto de carência, destacam-se iniciativas como a das EFAs do Amapá. A EFA é um modelo de escola que surgiu na França, em 1935, e chega ao Brasil em 1968, com a proposta de pensar uma educação significativa para os jovens do campo que alterna tempos de aprendizagem escolar e de trabalho produtivo, denominada de Pedagogia da Alternância.

Pedro Ramos, representante do Conselho Nacional de Extrativistas, explica como se deu o surgimento das escolas no Amapá. “Em 1987 começamos as primeiras construções na região do Pacuí. Enquanto eram construídas as escolas, mandamos estudantes para o Espírito Santo, visando que eles aprendessem sobre a pedagogia da alternância, para que pudessem implementar aqui. Depois da volta deles,  criamos a Escola do Carvão, com muitas dificuldades que até hoje são presentes, principalmente no âmbito financeiro e administrativo das escolas.”

A criação das EFAs do Pacuí e do Carvão contribuiu para a criação das EFAs da Perimetral, Maracá, Cedro e mais recentemente a EFA do Macacoari, totalizando 6 EFAs atualmente no Estado.

Seminário

O Seminário de Formação dos (as) Educadores (as) das Escolas Família do Estado foi o momento de refletir sobre as bases da Pedagogia da Alternância e seus instrumentos didático-pedagógicos, destacando o plano de formação das EFAs, pautado nos princípios e dimensões agroecológicas que norteiam os currículos de formação das escolas do campo.

A pedagogia da alternância foi ressaltada por Conceição Magave, presidente da Rede das Associações das Escolas Família do Amapá (RAEFAP), como uma necessidade na formação das populações rurais do Amapá. “As escolas não só promovem a educação no campo, mas fazem isso a partir da pedagogia da alternância, que se adequa as necessidades da população rural ao alternar tempo escola e tempo comunidade, visando uma problematização da realidade e reflexão a partir dos conhecimentos aprendidos durante a realização da formação”.

Ana Cláudia Peixoto, professora do colegiado de pedagogia da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) e coordenadora pedagógica da RAEFAP, destacou o comprometimento das EFA’s com a agroecologia, visando o desenvolvimento local do território. “A formação dos atores envolvidos tem como enfoque principal o fortalecimento da agricultura familiar e inserção profissional dos jovens no meio rural, priorizando a preservação do meio ambiente”.

Com mais de 60 educadores (as) participantes, provenientes das seis EFA’s do Amapá, o Seminário permitiu a troca de conhecimentos sobre o tema. “É extremamente importante o que estamos fazendo aqui hoje, porque além de nivelar todos os ingressos sobre a pedagogia da alternância, é uma oportunidade de partilha, o que gera interação entre os mais diversos docentes e reflete de maneira positiva nas escolas família”, afirma Bianca Souza, diretora da EFA do Pacuí.

Manifesto

Após a mesa de abertura foi lido um manifesto assinado pela RAEFAP e outras organizações da sociedade civil. O documento reivindica a retomada do apoio do governo estadual para a manutenção das EFAs, bem como a disponibilização do recurso do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), direito assegurado legalmente pelas EFA’s.

Para Raimundo Aguiar, diretor da EFA do Cedro, a crise enfrentada se dá pela falta de interesse governamental. “Desde 2013 foi assinado um decreto pelo FUNDEB, a partir do qual as EFAs teriam o direito de receber recursos financeiros de forma parcelada. Por meio do convênio, o Governo do Estado fez os repasses do dinheiro, porém teve intermitências em 2013 e 2014, e desde 2015 está há mais de dez meses atrasado. O que consequentemente tem retardado há mais de dez meses o pagamento de cozinheiras, motoristas, coordenadores e professores”, reivindica.

O Governo do Amapá também chegou a afirmar em 2015 que celebraria um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com as EFAs, visando reestabelecer o repasse de verbas.  Porém, a discussão está estagnada devido a rotatividade de promotores na pasta de educação.

A partir desse cenário, um encaminhamento do Seminário foi a sistematização das reivindicações das Escolas Família, que resultaram na “Carta de Macapá”.  Após ser lido e aprovado em plenária, o documento foi encaminhado, através das RAEFAP, para o pró-reitor de extensão e assuntos comunitários, Rafael Pontes. Segundo Ana Cláudia Peixoto, o objetivo é que a universidade contribua para mediar o diálogo com o governo e facilitar o repasse da verba para as EFA’s.

 

 







Comentários