Seminário discute Impactos de Mega-projetos na agricultura familiar

Evento foi realizado durante I Encontro de Práticas Formativas do Pará

Por Juliana Lima/ Ascom IEB

No último dia 01 de julho, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), participou em Barcarena/PA, do I Encontro de Práticas Formativas do Pará – EPAFOR.  Durante o encontro, o IEB realizou o Seminário “Mega-projetos de infraestrutura na Amazônia: Impactos e riscos socioambientais para agricultura familiar”. O objetivo do evento foi promover uma discussão crítica e qualificada com os participantes do EPAFOR acerca dos impactos do modelo de desenvolvimento na agricultura familiar da Amazônia. Participaram do Seminário cerca de 30 agricultores de diversas regiões do Pará.

Contexto

Os grandes empreendimentos se intensificaram na Amazônia na década de 1970 e 1980, motivados pela política de ocupação, então disseminada pelo Estado brasileiro. Na época, muitos municípios amazônicos possuíam como base econômica a agricultura familiar e a pesca, porém a chegada dos grandes projetos, implementados de forma compulsória, mudou a dinâmica cultural, socioambiental, econômica e política. A região passou a conviver com a pesada indústria mineraria, que aumentou o fluxo de pessoas e consequentemente levou ao inchaço populacional.  Somando-se a esse contexto têm-se os impactos sobre o meio ambiente, que também marcam negativamente a presença dos grandes complexos industriais.

O novo modelo de ocupação propunha integração da região, porém sob a lógica da desintegração das formas de vida de suas populações locais, especialmente as comunidades agroextrativistas e povos originários. Guilherme Carvalho, Coordenador do programa Amazônia da Fase e palestrante do Seminário, afirma que a região está conectada, porém não integrada. “Alguns afirmam que na Amazônia está sendo desenvolvida uma política de integração compulsória, um tipo de integração que a gente não quer, mas que nos é imposta. Eu, particularmente, chamo de conexão, porque na verdade não estamos integrados, estamos apenas conectados aos mercados globais tão somente para atender as demandas insurgentes”, explica.

 Atualmente, o governo incentiva a implantação acelerada de empreendimentos de infraestrutura no chamado “arco do norte”, região que compreende os estados de Rondônia, Amazonas, Amapá, Pará e segue até o Maranhão, transformando a região em um grande canteiro de obras de infraestrutura e logística. Tais projetos estão relacionados à expansão mineraria, agropecuária e a implantação de Usinas Hidroelétricas (UHE), que geram grandes impactos socioambientais e econômicos às populações rurais do território.

 Rogério Paulo Hör, da direção do Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens (MAB), palestrou durante o seminário sobre os impactos das UHE na região Amazônia. Rogério afirma que a tendência é o aumento da construção de usinas na Amazônia, assim como infraestrutura para recebê-las no território. “As usinas hidroelétricas têm avançado não só por garantir energia, mas lucros para as empresas proprietárias, com a construção de grandes infraestruturas. Na Amazônia tivemos apenas de 10% do potencial explorado, e o que dá para notar pelo planejamento governamental é uma ofensiva cada vez maior na construção de UHE na região”.


 Maria Rosa de Almeida, secretaria de políticas sociais da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Pará (Fetagri-Pará), teme a ofensiva citada por Rogério. De Oriximiná/PA, a líder comunitária presenciou a chegada de grandes projetos de exploração mineral na região em 1970, e acompanhou as consequências que assolaram o seu território. Hoje, Maria Rosa se pergunta se terá que viver novamente os impactos dos grandes projetos, agora motivados pela construção no seu município da UHE de Cachoeira Porteira . “A Hidroelétrica é a nova ameaça à minha região, a população conseguiu impedir há alguns anos o inicio da construção, mas eu me pergunto até quando... Será que mais uma vez teremos famílias retiradas de suas casas como animais, o sumiço de lagos por causa de rejeito de materiais químicos e também a perda da nossa dignidade?”

Alternativa

Lindalva Santos, Associação das Mulheres do Campo e da Cidade (AMCC – Barcarena/PA), também não possui boas lembranças da chegada dos grandes projetos. A comunitária afirma que os complexos industriais trouxeram não apenas a degradação da natureza, como desagregação e até extinção de algumas populações. “Os grandes projetos impactaram município de Barcarena não só por ser uma área de concentração de minérios, mas porque o grande capital criou uma infraestrutura para o beneficiamento da bauxita”, explica.  Lindalva ainda reivindica. “As populações tiveram que ser remanejadas, sem que tivessem poder de escolha. Quem era agricultor ou pescador, teve que ocupar outras áreas da economia. Este foi um fator motivador para que o homem fosse expulso do campo no território”.

Como forma de enfrentamento dessa realidade, Petronilo Progênio, comunitário de Barcarena e representante da Frente Nacional de Resistência Urbana (FNRU), afirma que foi implantado na região vários movimentos de resistência, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a FETAGRI, além da articulação de associações e cooperativas para refletirem sobre a realidade da região. O Fórum de Diálogo Intersetorial de Barcarena, cujo processo de instalação iniciou em 2008, foi outra iniciativa que surgiu nesse contexto. O Fórum favorece a abertura de um espaço para debates e ideias inovadoras em busca da construção de um modelo de desenvolvimento sustentável no município. A ação reúne organizações da sociedade civil, as empresas instaladas na região, a Prefeitura Municipal de Barcarena e o IEB, este último na condição de Secretaria Executiva.

Para Rony Santos, militante do movimento Barcarena Livre, apesar das iniciativas já desenvolvidas no território, falta união e integração em rede de todos os setores da sociedade para que a realidade mude. “A única alternativa que vejo é nos articularmos e fazermos as nossas lutas conhecidas por outros grupos, além de conscientizar a população local da necessidade de participar dessas discussões, até porque a sociedade precisa entender que isso influencia na qualidade de vida de todos. Só teremos sucesso se entendermos que essa não é uma luta individual, mas coletiva.”, finaliza.

 







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