O sul do Amazonas se prepara para um futuro com a floresta em pé

Curso de gestão integrada une indígenas, extrativistas e gestores da região
Foto: Sara Gaia/IEB
Foto: Sara Gaia/IEB

Texto: Equipe do Programa Povos Indígenas do IEB

Indígenas, extrativistas, gestores da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do sul do estado do Amazonas, se unem para enfrentar o processo de avanço do desmatamento da região. Por meio do Curso Gestão Integrada de Terras Indígenas e Unidades de Conservação no Sul do Amazonas foram realizadas discussões e debates visando somar esforços para a conservação e sustentabilidade da região. O curso foi apoiado pela Fundação Moore e implementado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) em parceria com a Funai, o ICMBio e diversas organizações indígenas e extrativistas.

O propósito do curso foi de reafirmar a aliança entre os povos da floresta e planejar ações conjuntas que contribuam para o fortalecimento das áreas protegidas no sul do Amazonas. O curso foi realizado em três módulos, intercalados por atividades intermediárias. Participaram do processo formativo representantes de 10 associações extrativistas e 7 associações indígenas, além de gestores da CR1 do ICMBio e gestores da Funai das CRs Alto Purus, Médio Purus e Humaitá. O desenho do curso foi elaborado de forma participativa por meio de uma oficina preparatória realizada em março de 2016, no município de Lábrea, no estado do Amazonas. Na oficina, os parceiros pactuaram os critérios de seleção para participação no processo de formação e as estratégias de mobilização regional. Também foram debatidos os temas e metodologias a serem abordadas na capacitação.  

O interessante foi no começo do curso, no dia em que nós chegamos, indígenas e extrativistas. Isso foi um impacto, que estava todo mundo. Porque a gente se encontrava e queria se alinhar mas, ao mesmo tempo, se arranhava. E depois, no decorrer das discussões na sala, a gente viu que a gente foi se entendendo. Esse momento de diálogo e de discussão durante o curso, pra mim, foi muito legal”. Vanderleide Ferreira de Souza – CNS Lábrea 

O primeiro módulo do curso foi realizado em junho de 2016, no Centro de Cultura e Formação da Kanindé, localizado em Porto Velho, Rondônia. Nesse momento os principais esforços foram voltados a sensibilização dos participantes sobre a importância da gestão integrada frente às diversas ameaças sobre as Terras Indígenas e Unidades de Conservação no sul do Amazonas.

Para tanto, foram trabalhados os históricos de ocupação extrativista e indígena na região e discutidos alguns dos conceitos fundamentais para a gestão integrada (terra, território, gestão, integrado, sustentabilidade, entre outros). Também foram realizadas atividades sobre as características e o contexto que unifica povos indígenas e extrativistas. Ao final do módulo, foi discutida a experiência do Projeto Frutos do Cerrado, realizado por meio da parceria entre a Associação Wyty-Cate e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), no sul do Maranhão e norte do Tocantins.

Por a gente não conversar, a gente acabava ocasionando sérios conflitos. E a Gestão Integrada, ela vem para quebrar esse paradigma do índio em um canto e o extrativista no outro. E eu acho que se a gente pensar do jeito que a gente está fazendo, a gente vai bastante longe”. Angelisson Tenharim – OPIAM Humaitá

O segundo módulo foi realizado em agosto de 2016 e contemplou um conjunto de informações sobre a estrutura e funcionamento do Estado brasileiro, as competências e atribuições da Funai e ICMBio e a legislação indigenista e ambiental. Nesse momento foram discutidas as estratégias tradicionais de gestão territorial e ambiental, a sobreposição territorial e as possibilidades para gestão integrada de áreas protegidas, com destaque para os Mosaicos da Amazônia Meridional e Oriental. 

O cenário nacional, ele não nos oferece confiança dentro daquilo que é conquista do movimento, da União dos Povos da Floresta, e a gente está vendo esses direitos ameaçados. Então a gente vê, como solução, se integrar para ir contra os nossos inimigos verdadeiros que, muitas vezes, são essas políticas mal aplicadas e a nossa voz, que não é ouvida como deveria ser”. José Roberto de Lima – STTR Pauini

O terceiro módulo foi realizado entre os dias 17 e 21 de outubro de 2016, no município de Lábrea, Amazonas. Os participantes tiveram a oportunidade de conhecer a experiência do Projeto Pacto das Águas, que possui a cadeia de valor de castanha como principal mote. A experiência desenvolvida no Mato Grosso e Rondônia fechou um ciclo de troca de experiências enriquecendo a bagagem dos participantes para futuras iniciativas.

Em seguida, os participantes discutiram o uso de metodologias participativas e o ciclo de planejamento participativo. O processo de diagnóstico foi colocado em prática por meio da elaboração de um mapa das ameaças e experiências de gestão integrada na região. Apropriando-se das metodologias participativas, os cursistas elaboraram o Plano de Ação de Gestão Integrada de TIs e UCs do sul do Amazonas. Ao todo, 19 propostas de gestão integrada foram formuladas para serem executadas nos próximos anos por meio de ações conjuntas entre indígenas, extrativistas e gestores do ICMBio e Funai. 

Tanto as populações indígenas quanto as populações extrativistas, elas não são vistas com bons olhos. E a ideia é que a gente mostre que nós temos a nossa própria forma de sustentabilidade, a nossa própria forma de se organizar, nossas próprias políticas, nossos acordos”. Evangelista Apurinã – CTL/Funai Pauini

Os processos formativos continuados se constituem como ação prioritária do Instituto Internacional de Educação do Brasil. O curso de Gestão Integrada do Sul do Amazonas é um caso pioneiro de processo formativo rico e inovador que tem grande potencial para ser replicado em outras regiões do Brasil. Os atores qualificados para atuarem de forma ativa da gestão integrada de UCs e TIs no Sul do Amazonas, resultado principal desse processo, são o principal ganho dessa iniciativa. Uma rede de atores comprometidos com a gestão integrada de áreas protegidas possuem um novo desafio, de dar continuidade difundir e disseminar ações práticas e discussões sobre o tema em suas regiões. Por meio dessa rede espera-se que um futuro de sustentabilidade e união entre os povos da floresta.







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