Novas perspectivas para o Desenvolvimento Rural

Evento na Universidade Federal do Pará reuniu especialistas no tema, hoje visto como um processo de transição em que novos paradigmas se configuram

Por Ruth Corrêa (coordenadora de projetos do IEB)

Edição, Lucas Filho (ASCOM IEB) 

 

No dia 23 de fevereiro o IEB participou do Workshop “Novas perspectivas para o Desenvolvimento Rural”, realizado pelo programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas, que faz parte do Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Pará (PPGAA,NCADR,UFPA). O evento teve a parceria da Embrapa, e outras instituições de pesquisa, e apoio da Coordenadoria de Capacitação da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Capacit/Progep)

O debate reuniu os pesquisadores Jan Douwe van der Ploeg (Professor de Sociologia Rural da Europe Wageningen University the Netherlands), Marcela Quinteiro (Ecóloga, Ciat – Colômbia) e Arilson Favareto (Doutor em Ciências Ambientais e Professor da Universidade Federal do ABC).

Os diálogos das novas perspectivas do “Desenvolvimento Rural” foi abordado de forma interdisciplinar que considera, em grande parte, o assunto um processo de transição em que novos paradigmas se configuram. Conheça algumas dessas reconfigurações destacadas por Jan Douwe van der Ploeg e contextualizadas no Brasil por Arilson Favareto.

Espaços rurais

A primeira ideia sobre “Desenvolvimento Rural” é a de que vivemos uma transição de paradigmas, em que se está superando a visão conservadora de que os espaços rurais são atrasados e não desenvolvidos em relação aos espaços urbanos.

Os espaços rurais, diferentemente do que se acreditava no passado, desencadeiam processos e práticas inovadoras, diversificadas e com um amplo leque de atividades para além da produção agrícola. Esta análise, a partir do contexto europeu, tem grande aderência ao contexto histórico brasileiro da agricultura familiar, segundo o Professor Arilson Favareto.

Recampenização

Outra contribuição diz respeito à ideia de recampenização. “Não se trata de reedição de uma forma social de agricultura pretérita”, destaca Favareto. Trata-se da inserção de novos elementos associados às práticas tradicionais no meio rural.  “[Há] valorização das lógicas familiares junto a novas práticas, nova roupagem, novos conteúdos”. O conceito de pluriatividade ganha expressão. Essa perspectiva apresenta desafios tanto para os agricultores (as) familiares quanto para as organizações que trabalham com eles (as).

Para Favareto operar uma transição para o desenvolvimento rural no Brasil, a partir das questões abordadas por Van der Ploeg, implica em “nos desapegarmos” da agenda pública do desenvolvimento rural que, no contexto político brasileiro atual, orbita entre duas agendas: a liberal, que prega a volta aos anos 90 e a progressista que conclama a volta aos anos 2000.

Essa polarização não oferece uma ambiência estável para a transição em discussão. “Há que se inaugurar uma nova narrativa”, sendo necessário ampliar os espaços e acessos para a agricultura familiar e diminuir o espaço da agricultura empresarial. Nesse sentido, o tema não envolve só a questão tecnológica, “da porteira para dentro”, envolve “uma expressiva distribuição de ativos, capital cultural, social, político (para influenciar) e capital econômico”, não só para a agricultura familiar, para os agricultores e agricultoras, mas para o conjunto da sociedade brasileira. “O desenvolvimento rural não diz respeito somente aos agricultores, mas à sociedade brasileira”, enfatiza Favareto.

Avanços

Apesar das mudanças ocorridas no atual governo serem contrárias ao processo de transição ao desenvolvimento rural de Van der Ploeg, houve avanços ao longo dos últimos anos que precisam “ganhar corpo” para a consolidação do desenvolvimento rural. 

I) crescimento das cidades pequenas e médias que são oportunidades de mercado mais próximos dos agricultores familiares;

II) aumento da escolarização;

III) universidades, governos com setores compromissados com essa agenda;

IV) sensibilidade na sociedade, sobretudo, quanto às questões ambientais, que podem se desdobrar para as questões socioambientais (esse imaginário social precisa ser reforçado);

 V) um grande número de organizações sociais cada vez mais plurais que atuam na mudança de paradigmas.

Regionalização

Por fim, o debate trouxe a necessidade de discutir o caráter regional do desenvolvimento, uma vez que os biomas demandam políticas muito próprias aos seus agroecossistemas. Neste aspecto, é fato que a partir dos anos 80 houve uma desconstrução da política regional de desenvolvimento, dada a crise de financiamento do desenvolvimento. Ao mesmo tempo “o imaginário brasileiro se moldou por certa homogeneidade do desenvolvimento”, destacou Favareto.

A partir dos anos 2000 há um ensaio de retomada da questão estratégica regional para o Nordeste e para a Amazônia, mas que não ganhou fôlego e perdeu força para o macro modelo de desenvolvimento. Desta forma, deve-se repensar esse modelo baseado na industrialização e urbanização para um novo modelo que faça das regiões e territórios um ator do desenvolvimento. Este é um tema “reemergente” e ganha força. 







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