Formar florestal certifica turma de 2016

Vinte e três educandos de nove territórios da Amazônia receberam a certificação

Por Juliana Lima/ Ascom IEB

Após três módulos, realizados em um período de quatro meses, o curso de Formação Inicial e Continuada em Manejo Florestal Comunitário- Formar Florestal 2016 finalizou suas atividades com a solenidade de certificação de 23 educandos, no último dia 11 de agosto, em Belém/PA .  A iniciativa é realizada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com o Instituto Federal de Educação do Pará (IFPA-Campus Castanhal e Breves).

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“Eu estou no Formar Florestal representando não apenas o meu território, mas as pessoas que vivem nele. Represento o desejo de uma vida mais justa para cada criança de lá e a oportunidade ansiada por cada jovem. Queremos apenas que a vida continue, mas para isso é preciso que a floresta sobreviva...” Essas são palavras de Deonis Santos, educanda do Formar Florestal e representante da comunidade “Vila Só Jesus”, em Portel.  

A luta da comunitária começou em 2006, quando uma grande madeireira invadiu seu território e dizimou uma área de quase 500 hectares, ou seja, praticamente toda a extensão sob domínio comunitário. Neste período, os membros da comunidade se uniram e embargaram o processo de exploração em execução. “Nessa época entendemos que se apenas o líder comunitário lutasse, nós não teríamos ganho nenhum, precisávamos nos unir. Mas, aí surgiu a pergunta: “E daqui pra frente, o que fazemos?”.

Formação e troca de saberes

Uma das primeiras dificuldades encontradas pelos comunitários de “Vila Só Jesus” foi a falta de informações e a burocracia. Por isso, foram aconselhados por sindicatos de municípios vizinhos a participarem de cursos formativos, pois apenas com a formação teriam êxito na luta contra as problemáticas socioambientais do território. Em uma dessas buscas por capacitação, Deonis conheceu o Formar Florestal.

“Após saber sobre a existência do Formar, eu e toda a minha comunidade nos mobilizamos para que eu estivesse aqui. Hoje estou tendo a oportunidade de concluir essa etapa formativa e volto para casa motivada a transformar a minha realidade. Em minha opinião, o que mais me motivou foi a troca de experiências, comprovamos que é possível nos organizarmos socialmente e produzirmos de forma sustentável”, afirma Deonis.

A troca de experiências a que a comunitária menciona é propiciada pela diversidade de educandos de 9 municípios da Amazônia. Deonis pertence a uma comunidade que está no processo inicial de organização social e dividiu a sala de aula com o educando Pedro Whatson, que pertence a Cooperativa Mista da Florestal Nacional do Tapajós (Coomflona), em Belterra/PA, uma das maiores referências em organização social e sustentabilidade na Amazônia.

Pedro ressalta que o fato das comunidades representadas no Formar estarem em diferentes níveis de desenvolvimento, enriquece mais ainda o processo formativo. “A Coomflona foi criada em 2005 e passou por um longo período de organização social. Esbarramos em inúmeras dificuldades que muitas outras comunidades estão enfrentando agora, mas conseguimos superar. Hoje em dia desenvolvemos o manejo florestal madeireiro e não madeireiro na nossa região e podemos contribuir com o nosso exemplo para que experiências como essa sejam multiplicadas.” O educando também ressalta que a troca se dá em via de mão dupla. “Durante o Formar, eu também aprendi bastante com os meus colegas sobre diversificação produtiva, que é um dos próximos passos que pretendemos dar na cooperativa que faço parte. Ou seja, a construção do conhecimento foi realmente conjunta.”

Deonis e Pedro são apenas dois exemplos de atores amazônicos que vivem na prática os desafios, os gargalos e as conquistas, características da luta por uma vida socioambientalmente mais digna para as comunidades tradicionais na região. “O Formar Florestal traz em sua essência a troca de conhecimento como ponte entre esses atores, para que se fortaleçam estratégias de governança sobre os recursos naturais dos seus territórios,diz Manuel Amaral, coordenador Executivo do IEB Belém.

Parceria

Existente há três anos, o Formar Florestal é resultado da parceria entre IEB e IFPA - campus Castanhal e, mais recentemente, IFPA-Campus Breves. Manuel Amaral, explica que a iniciativa já certificou no total mais de 70 educandos, atuando diretamente com 20 organizações comunitárias. Há cerca de um mês, o programa formativo recebeu o Prêmio Gestão Ambiental no Bioma Amazônia, do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), por ser considerado uma das melhores práticas da Amazônia.

 Acácio Melo, professor do IFPA Castanhal, ressalta que os resultados do curso são provas de que a parceria entre o IEB e o IFPA tem dado certo. “Nós já trabalhávamos com comunidades tradicionais e o IEB, como uma Instituição muito importante na área do Manejo Florestal, veio fortalecer esse trabalho. O resultado e o nosso principal objetivo é esse que estamos vendo: mais empoderamento e reconhecimento aos povos da floresta”.

Mário Médice, professor do IFPA-campus Breves, falou sobre o entusiasmo do Instituto no Marajó ser o mais novo parceiro do Formar Florestal. “Já éramos parceiros em outras ações do IEB, entretanto agora também trouxemos a experiência do Formar para o campus Breves. Nesse sentido, pretendemos formalizar um convênio entre ambas as instituições e quem ganha com isso são as comunidades marajoaras.”

Certificação

O findar da terceira edição do Formar Florestal foi marcado pela solenidade de certificação dos 25 educandos participantes da iniciativa.  Edoniete Gonçalves viajou cerca de dois dias, de Novo Apurinã/ AM até Belém/PA, para participar do último módulo do curso formativo. Quando perguntado se o esforço valeu a pena, a resposta é rápida: “Claro que valeu! Esforcei-me para participar de todos os módulos e hoje estou feliz por estar concluindo o curso.” Já com o certificado em mãos, o educando ainda complementa: “Vale ressaltar que nem um de nós deve ter a sensação de dever cumprido, pois o cumprimento do nosso dever começa quando nós voltarmos para as nossas comunidades e colocarmos em prática o que aprendemos”.

Emocionada, a educanda Rosilene Mota, de Santarém/PA, finalizou o evento falando em nome de toda a turma de 2016.  “Agradecemos a todos aqueles que fazem o Formar por não desistirem da gente. Aprendemos que nós também devemos insistir em nossas lutas em prol da Amazônia, mas hoje em dia entendemos que só podemos fazer isso se estivermos organizados e pensando no outro. Todas as vezes que lutarmos pela sustentabilidade na nossa região, estaremos levando um pouquinho do Formar com a gente”.







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