Em entrevista, Telma Taurepang fala sobre luta das mulheres indígenas na defesa de direitos

No Dia Internacional da Mulher Indígena, coordenadora da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira conta sobre papel histórico das mulheres indígenas e seus principais desafios

Nesta terça-feira, 5 de setembro, é comemorado o Dia Internacional da Mulher Indígena, instituído em 1983 pela ONU Mulheres. O dia foi escolhido porque em um dia 5 de setembro de 1982 a líder indígena Bartolina Sisa, a etnia quéchua, foi brutalmente assassinada pelas forças realistas durante a rebelião anticolonial de Túpaj Katari, no Alto Peru.

Para celebrar essa data tão importante, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) conversou com a Coordenadora Geral da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, Telma Taurepang, sobre o papel histórico desempenhado pelas mulheres indígenas e os principais desafios enfrentados por elas em um momento de retirada de direitos individuais e coletivos.

Qual a importância da mulher indígena para a sua comunidade e a relevância dela na luta histórica dos povos indígenas?

A importância da mulher indígena está no contexto de luta e defesa do seu povo. Anteriormente, ela ficava mais dentro da sua aldeia, da sua comunidade, cuidando mais internamente. Mas hoje, algumas mulheres ganharam um espaço maior no sentido de participarem de discussões juntamente com seus caciques e seus tuxauas, fazendo valer uma participação mais direta, aumentando o protagonismo e empoderamento das mulheres indígenas.

Além disso, dentro das organizações indígenas, temos diversas mulheres atuando na linha de frente, como Sônia Bone Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB); Nara Baré, que assumiu recentemente a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Temos como referência também Maria Bethânia, Secretária do Movimento de Mulheres Indígenas do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

 Ou seja, as mulheres indígenas saíram dos bastidores e são protagonistas da luta junto com seus caciques.

E qual a importância da mulher indígena nesse contexto atual do Brasil em que direitos duramente conquistados pelos povos indígenas estão ameaçados?

A importância da mulher indígena nesse grande retrocesso que afeta os povos indígenas é a participação dela nesse contexto da luta, pois ela conhece como ninguém a realidade do seu povo. É ela que durante as retomadas está à frente com seus filhos, netos, seu povo.

A luta da mulher indígena não começou agora, é histórica e antiga. Quando seus caciques vão tomar decisões, conversam com elas e as mulheres indígenas orientam, com toda sua força e conhecimento.

Assim acontece no contexto atual, a mulher indígena vive hoje junto com suas lideranças e está na linha de frente das lutas para que o mundo os vejam de forma diferente. Sempre estivemos na luta, mas hoje estamos mais visíveis.

Quais os principais desafios de ser uma mulher indígena hoje em dia?

O primeiro desafio é ser indígena em primeiro lugar, e, infelizmente, por ser mulher isso piora. Eu acredito muito que ela ainda passa por discriminação, mas hoje houve um avanço, pois a mulher indígena saiu de dentro de casa e foi parar em uma universidade. São várias mulheres indígenas dentro desse cenário dentro da universidade, formadas, fazendo valer os seus direitos.

E você acredita que esse direito das mulheres indígenas de estarem dentro das universidades está ameaçado?

Em partes. Há uma ameaça em nossos direitos, mas eu acredito que na união dos povos indígenas. Os homens fortalecem as mulheres, e as mulheres os homens. A tendência é um fortalecer o outro.

Qual a importância de ter uma data Internacional para comemorar a mulher indígena?

Eu acredito que essa data ganha cada vez mais força porque hoje a mulher indígena está bem mais atuante. Ela está dentro da universidade lutando pelo seu espaço. Não há briga, mas sim uma conjuntura de entendimento de que a mulher indígena sempre fortaleceu o movimento e hoje isso está bem mais visível para todos.

Quais são os principais projetos e lutas encabeçados pelas mulheres indígenas hoje em dia?

Nós estamos no fortalecimento contra todo retrocesso que os povos indígenas passam hoje. Nenhum direito a menos. A história não é somente dos povos indígenas, mas da própria mulher indígena. Porque se não houvesse a mulher indígena, não haveria caciques, filhos para lutar. Então há uma participação nesse fortalecimento e nessa luta contra todo esse retrocesso. A bandeira da mulher indígena é hoje a luta contra o retrocesso. Sem a nossa terra não teríamos educação nem saúde.

Vocês também estão encabeçando a luta contra o Marco Temporal, certo?

Exatamente. As mulheres indígenas têm uma participação muito grande e efetiva contra todo esse Marco Temporal que tá acontecendo. A luta da mulher está constantemente fortalecendo o movimento contra esse retrocesso. A história das comunidades e do movimento indígena começa muito antes de 88, começa muito antes.

Você acha que há o que comemorar nessa data do dia 5 de setembro?

Houve avanços, mas comemorar de fato, ainda não. Pois a luta continua, ela não parou. Enquanto tivermos governantes que não entendam que os povos indígenas são os originários, que os índios precisam da sua terra, nós continuaremos lutando contra isso.







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