Curso discute monitoramento e controle dos recursos naturais no Marajó

“Monitoramento e controle ambiental” foi o tema refletido por 25 comunitários de 7 municípios marajoara

O sol se põe no horizonte, anunciando que chegou a hora da partida. Ele se despede da esposa e olha para além da janela da sua casa. No lado de fora vê uma mata verde, e a água refletindo toda aquela beleza incomum como uma pintura. Logo depois não consegue desviar os olhos dos filhos, os abraça, e mesmo querendo ficar, entende porque deve partir: para que suas crianças um dia olhem pela janela e consigam ter a mesma visão que hoje ele tem. Com esta motivação, Elivam Freitas, comunitário da Resex Mapuá, não hesitou em enfrentar 14 horas de viagem para participar do segundo módulo do Curso de Capacitação de Lideranças em Gestão dos Recursos Naturais (GRN), em Breves, no arquipélago do Marajó.

O curso aconteceu de 05 a 07 de abril, e foi realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), no âmbito do projeto Embarca Marajó. Com o tema “Gestão dos Recursos Naturais: Monitoramento e Controle Ambiental”, a iniciativa teve como objetivo a capacitação de lideranças para a problematização das necessidades e possibilidades na prática da gestão dos recursos naturais, visando construir sustentabilidade em suas diferentes dimensões no território. Participaram do curso 25 lideranças comunitárias, de 7 municípios do Marajó.

A estrada do conhecimento...

Filho de agricultores, nascido em uma família humilde, na Reserva Extrativista (Resex Mapuá), a estrada de Elivam começa no mesmo ponto de muitos outros comunitários marajoaras: na falta de oportunidades.  Ainda na infância, começou a trabalhar com o pai e os irmãos, e sentiu na pele as necessidades que sua comunidade vivia. A falta de estrutura fez com que ainda bem cedo trocasse o caderno pela enxada. Já a ausência de serviços de saúde, o tornou testemunha do sofrimento do irmão, que perdeu a perna por falta de infraestrutura básica no local onde vive.

Após esses episódios, Elivam chegou à conclusão de que o único caminho para mudar a realidade de sua família e de sua comunidade era a educação e o engajamento na luta socioambiental do seu território. Por isso, em 2005 o comunitário se tornou conselheiro deliberativo da Resex Mapuá, localizada no município de Breves. Depois de se empoderar sobre as questões ambientais, notou que sustentabilidade e educação andam juntas, por isso em 2007 foi uma das lideranças que ajudou a fundar a Casa Familiar Rural na Reserva Extrativista. Em 2014 se formou como técnico florestal e entendeu que o trajeto pela estrada do conhecimento estava apenas começando.

Em uma dessas estradas, Elivam chegou ao curso de GRN, onde o comunitário tem descoberto não só a gerir melhor os recursos naturais do seu território, mas também que a bússola para esse caminho sempre apontará para a coletividade. “Aprendi que a sustentabilidade se faz junto, de forma coletiva e participativa. É necessário fortalecer nossas comunidades e muni-las de conhecimento para que lutemos pelos nossos direitos”.

Curso de GRN

Com mais de 40 mil quilômetros quadrados, o arquipélago do Marajó é um manancial de riquezas que estão constantemente ameaçadas. Exploração ilegal de madeira, queimadas, grilagem, são fatores que têm dizimado aos poucos os recursos naturais existentes nas Unidades de Conservação do território, segundo o GreenPeace. Por isso, a necessidade de fortalecer os conhecimentos das populações que o habitam não é só urgente, mas uma questão de sobrevivência.

O curso de GRN veio ao encontro dessa necessidade no seu segundo módulo e refletiu sobre o protagonismo dos comunitários na gestão dos recursos naturais da região, a partir do empoderamendo das ferramentas que proporcionam o monitoramento e controle ambiental do lugar que habitam.

Segundo a consultora do IEB, Maria Antônia Nascimento, que abordou durante o curso o tema Sistema de ‘Monitoramento e Controle Ambiental’, há duas formas no território: a “formal”, referente as leis e as estruturas de monitoramento ambiental via os órgãos governamentais; e a social, referente à organização dos comunitários em associações, cooperativas ou em espaços de governança (comitês, conselhos, etc), visando proteger seus territórios e a  fazer uma melhor gestão dos recursos naturais existentes.

O monitoramento ambiental no Marajó é feito ainda de forma tímida, porque a atual legislação requer conhecimentos técnicos e maior participação da sociedade civil. O pouco conhecimento sobre as leis limita as organizações sociais ou comunitárias a fazerem a gestão dos recursos naturais de forma mais eficaz, esclarece Carlos Ramos, consultor do IEB e facilitador do tema Mecanismos legais de Monitoramento ambiental. O consultor ainda diz que para um monitoramento eficiente é necessário que os comunitários compreendam a importância dos recursos naturais que têm em mãos. “Quem protege mais a floresta são os moradores. Quando eles têm entendimento do valor da terra em que eles vivem, o Brasil todo ganha com isso”.

Com o intuito de socializar durante o curso uma ferramenta de monitoramento local, foi apresentada a experiência do Comitê Interinstitucional de Governança Florestal do Marajó, composto por organizações sociais e instituições públicas. A iniciativa surgiu decorrente do Plano de Desenvolvimento Local (PDL) Portel, que desenvolve no município ações do fortalecimento dos recursos naturais.   “O Comitê tem como objetivo unificar, discutir e alinhar nossas lutas para sairmos da situação de vulnerabilidade que vivemos e alcançar um padrão de vida melhor. Então, ele nasce como uma alternativa de enfrentamento e sustentabilidade”, afirma Assunção Novaes (Cacau), participante da ação e coordenador do Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó (CODETEM).

Para Maria Antônia Nascimento, “Iniciativas como o curso GRN tem que ser disseminadas, pois permite a troca de experiências e conhecimentos sobre as temáticas ambientais. Isso contribui para o fortalecimento das organizações de base e facilita o monitoramento e controle ambiental do Marajó”.

Os três dias de curso finalizaram com um saldo positivo, segundo o educando Elivam, que voltou pra casa não mais se denominando um comunitário, mas segundo suas próprias palavras, nomeando-se um “guardião da floresta”.

Próximo encontro

A construção conjunta da visão crítica do território marajoara terá continuidade no terceiro módulo do Curso de Gestão dos Recursos Naturais, que tem previsão para ocorrer no período de 15 a 17 de junho de 2016, em Portel, com o tema: “Gestão dos Recursos Naturais - Licenciamento e habilitação para o MFCF”. O curso formativo é uma ação do projeto Embarca Marajó, que tem como objetivo implementar ações socioeconômicas e ambientais, visando o desenvolvimento sustentável do território marajoara, especialmente nos municípios onde trafega a Agência- Barco Ilha do Marajó.

Texto : Juliana Lima
Foto: Acervo IEB/Juliana Lima 







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