Agricultores familiares e agroextrativistas fazem troca sobre cadeia de valor no Pará e Amapá

A interação aconteceu durante o Intercâmbio e Seminário sobre as cadeias de valor do Açaí, Castanha do Brasil e Cacau

Por Ascom IEB/Juliana Lima

De 08 a 09 de dezembro, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), por meio do Projeto Fortalecimento das Cadeias de Valor na Amazônia (Forcav), realizou o Seminário Interestadual sobre as Cadeias de Valor no Pará e Amapá, em Belém/PA. O evento foi precedido pelo Intercâmbio de Experiências das Cadeias de Valor Sustentáveis, que ocorreu de 06 a 08 de dezembro, no município de Tomé Açu, no Pará. Com o tema “Os desafios do financiamento, beneficiamento e comercialização da produção da agricultura familiar e do agroextrativismo”, o Seminário reuniu representantes de instituições bancárias, ONGs e universidades, além de pequenos produtores de São Félix do Xingu (PA), Marajó, Almeirim e Amapá.

Realidade Socioambiental

O desmatamento da Amazônia atingiu mais de 7 mil quilômetros quadrados entre agosto de 2015 e julho de 2016. A estimativa é do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O estado que apresentou índices mais expressivos nesse período foi o Pará, que somou mais de 3 mil quilômetros quadrados de perda da cobertura florestal. 

 O segmento da agricultura familiar e populações agroextrativistas podem se constituir aliados estratégicos aos esforços de prevenção e controle ao desmatamento na região, a partir de ações que valorizem os ativos florestais sob seus domínios e que promovam a geração de trabalho, renda, cidadania e a conservação da biodiversidade. Uma das formas desses segmentos contribuírem para a prevenção e controle do desmatamento é o fortalecimento de cadeias de valor em territórios de florestas familiares.

 Para Acácio Melo, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), o debate do tema é fundamental para os agricultores familiares. “O debate da cadeia produtiva de valor é importante porque não adianta focar apenas na produção, é necessário acompanhar toda a cadeia, desde a produção até a comercialização e nesse intervalo tem agroindustrialização”, explicou.

Intercâmbio

Com o intuito de apresentar alternativas aos agricultores familiares, o IEB promoveu o intercâmbio em Tomé Açu, do qual participaram 18 agricultores do estado do Pará e Amapá. Durante o evento, os participantes falaram sobre as principais dificuldades encontradas no decorrer das etapas de produção.  “Um grande entrave na produção é a ausência de acompanhamento técnico, assim como ausência de estudo do solo. Quanto a comercialização, a dificuldade é o escoamento, visto que não há transporte para fazer isso, então o produto é transportado do jeito que dá e quando chegamos no local para comercializá-lo ele já perdeu a sua qualidade e fica totalmente desvalorizado”, afirma Conceição Magave, agricultora do estado do Amapá.

No decorrer da atividade, os agricultores tiveram oportunidade de visitar a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA) e a Associação dos Produtores e Produtoras Rurais da Agricultura Familiar do Município de Tomé-Açu (APRAFAMTA), assim como propriedades de agricultores familiares. A visita permitiu que os participantes do intercâmbio conhecessem as estratégias de comercialização aplicadas pelos agricultores familiares, a  organização e proposta de beneficiamento a ser operado pela agroindústria da APRAFAMTA e a comercialização em larga escala efetuada pela CAMTA. Para o técnico agrícola Reinaldo Barcelos, de São Félix do Xingu, a experiência foi proveitosa. “A troca de experiências é muito rica e o fato de aprendermos com agricultores familiares que já possuem bastante tempo de atuação enriquece o nosso trabalho, porque eles já passaram as mesmas dificuldades que hoje passamos e conseguiram superar e gerar o aprendizado que estamos tendo acesso hoje”.  Teófro Lacerda, comunitário do Marajó, complementa: “Tivemos a oportunidade de ver como eles fazem o beneficiamento do produto, conhecemos as agroindústrias das associações de agricultores familiares e pudemos nos conscientizar de que essa é uma realidade que pode ser nossa”.

Seminário

As experiências vivenciadas no intercâmbio foram socializadas no Seminário Interestadual sobre as Cadeias de Valor no Pará e Amapá.  Durante o evento discutiu-se o financiamento e acesso ao mercado institucional e convencional para a agricultura familiar.  Nayara Ribeiro, participante do Seminário e pesquisadora do Programa Mercado Institucional da Faculdade de Ciências Econômicas, da Universidade Federal do Pará (UFPA) , relaciona o acesso ao mercado a organização comunitária e melhoria na gestão desses empreendimentos. “Apesar de estar se mudando a concepção da população a respeito do que se consome, os agricultores familiares têm dificuldade de lidar com a concorrência, que produz em larga escala e oferece ao consumidor diversidade e qualidade, isso restringe o acesso de extrativistas ao mercado convencional. Um primeiro passo para a mudança dessa realidade é a organização social desses agricultores”, ressaltou.

Gilberto Silva, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), afirma que uma alternativa para superar o contexto posto seria a capacitação e o financiamento do governo a processos que envolvem a agroindustrialização. Para Silva, é necessário que os agricultores tenham a certificação não só de produtos orgânicos, mas também a certificação estadual e federal. Afinal, esses selos trariam mais possibilidades de comercialização dos seus produtos em supermercados, na merenda escolar e em outros potenciais locais de consumo.

Dilva Araújo, coordenadora da Rede Intercomunitária Almeirim em Ação (Rica), afirma que as discussões contribuíram para que ela tivesse um novo olhar sobre sua produção: “Aqui temos agricultores que trabalham com castanha, cacau e açaí, além de outras culturas. Os aprendizados tidos contribuíram bastante para ressaltar a importância de nos organizarmos para esse processo. Saio daqui com  outra postura diante de nossa produção, temos que ser visionários e nos mobilizarmos para que as coisas aconteçam. É assim que faremos a diferença!”, finalizou.

 

 

 







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